Sem crédito

O aumento da corrente comercial (exportações mais importações) brasileira em 2004 não se refletiu em aumento das linhas de crédito interbancárias. Em dezembro de 2002, as linhas para exportação somavam US$ 6,5 bilhões; em 2003, US$ 7,8 bilhões; e em 2004, US$ 7,7 bilhões. O crédito para importações seguiu tendência parecida: em dezembro de 2002 atingiu US$ 3,2 bilhões, quantia que caiu para US$ 2,2 bilhões no mesmo mês de 2003 e para US$ 1,9 bilhões no final do ano passado.
No total das linhas, que inclui outras linhas que não somente crédito comercial, como overdrafts e repos, a queda foi de US$ 20 bilhões em janeiro de 2002 – antes do vendaval provocado pela especulação antes das eleições – para US$ 14 bilhões em dezembro do mesmo ano. De lá para cá, só quedas: US$ 13 bilhões em dezembro de 2003 e US$ 12,6 bilhões no mesmo mês do ano passado.

A meta invertida
A decisão do Banco Central de, mais uma vez contrariando os interesses dos setores excluídos do sectário círculo financeiro hegemônico no governo, elevar a taxa básica de juros (Selic) esclarece os ainda crédulos que a meta perseguida pela política monetária não é a de inflação, mas a de crescimento. Ao elevar os juros, quando a produção desacelera, os salários perdem participação na renda nacional e as empresas mantêm em suspenso os investimentos, o BC não mira uma inflação de 5,1%. Ele visa é o crescimento de, no máximo, 4%.
Em 2004, quando o teto de crescimento da América Latina foi de 18%, na Venezuela, o BC acha escandaloso que o produto interno bruto (PIB) do Brasil avance cerca de 5%. A decisão do BC mostra ainda que aqueles que cobram da política monetária brasileira que também considere o nível de crescimento miram no alvo errado. Na verdade, a tecnocracia enquistada no poder já tem uma meta de crescimento e não admite que seja ultrapassa. Pior: ela não é de 4%. Dentro do dogmatismo que anima a ação do BC, esse foi um exotismo a ser evitado. Como mostra o longo governo da equipe econômica que já se estende por cerca de 15 anos, se limita a algo por volta de 2% ao ano. Aliás, essa é aproximadamente a média de dois ano de governo Lula e que o BC não quer permitir que seja elevada em 2005.

Fome
O diretor-geral adjunto para as ciências sociais e humanas da Unesco/ONU, Pierre Sané; a coordenadora da Aliança Internacional Contra a Fome/FAO, Eva Clayton; e Frei Betto (escritor, assessor de movimentos sociais e educador popular) debaterão a superação da fome e da miséria no mundo em seminário no dia 28, dentro do Fórum Social Mundial, em Porto Alegre (RS).

À vontade
A oficialização da candidatura do deputado Virgílio Guimarães (PT-MG) à presidência da Câmara dos Deputados modifica radicalmente o caráter das deliberações da bancada petista. A partir de agora, ficará difícil convencer petistas derrotados na votação interna de que as decisões não serão meramente indicativas, dispensando-os de acompanhá-las no plenário. Uma mudança e tanto em relação ao início do governo petista, quando setores do grupo autêntico do partido foram expulsos por insistirem em manterem-se fiéis ao programa aprovado pela própria cúpula partidária.

Auto-interesse
O controle dos meios de comunicação por players de outras áreas da economia produz, entre outros efeitos colaterais, surtos de, digamos, sinceridade: “Eu desejaria, na medida do possível, que o jornal valorize mais nossas empresas. Eu julgo que há algumas informações que necessitam muita precaução. Acontece isso com artigos que falam dos contratos em processo de negociação. Há informações que fazem mais mal do que bem. O risco é de colocar em perigo interesses comerciais ou industriais do nosso país.”
A declaração, auto-explicativa, foi produzida por Sergio Dassault, novo proprietário do Le Figaro, principal jornal conservador francês e também um dos maiores fabricantes de armas daquele país. Ela foi reproduzida na edição deste mês do Le Monde Diplomatique por Ignácio Ramonet, um dos principais críticos do jornalismo de mercado, para ilustrar os riscos sociais trazidos pela lógica da busca exacerbada do lucro que marca os grandes oligopólios mundiais da mídia.

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Marcos de Oliveira
Diretor de Redação do Monitor Mercantil

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Mirem-se nos exemplos da Shell e da Exxon

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