Sem isonomia

A exemplo do ex-presidente Lula, a presidente Dilma costuma repetir que seu governo não rasga contratos. O confisco dos rendimentos da poupança, porém, impõe um questionamento ao slogan. Para a presidente, o respeito aos contratos só vale quando se trata dos interesses do capital ou inclui os setores mais humildes da sociedade?

Auto-realizável
A definição é do ex-primeiro ministro da Espanha Felipe González, ao participar, no México, de debate sobre governança global: “A austeridade até a morte vai efetivamente conduzir à morte. Quem não cresce não paga”, decretou.
Para González, que quando governou a Espanha (1982-1996) caracterizou-se por aplicar as medidas que agora critica, desmoralizando o Partido Socialista Espanhol, a Europa comete os mesmos erros da América Latina na década desperdiçada (1995-2005): “Está interpretando a crise da dívida como um problema de solvência e, assim, acabará provocando um problema de solvência”, advertiu,

Democracia fora das ruas
No interior da França, mal dá para se perceber que as eleições presidenciais estão em curso. Mesmo no dia do primeiro turno só se reconhecia um local de votação pela presença de meia dúzia de carros estacionados em frente à cabine eleitoral. Até em Paris, a campanha só se fez notar pelos comícios finais, no Dia do Trabalhador: Sarkozy reuniu uma multidão no Trocadéro e a frente de esquerda atraiu ainda mais gente na região do Quartier Latin, onde trajetos de ônibus foram mudados e as estações de metrô ficaram fechadas.
Apesar da pouca participação direta, o francês, de um modo geral, acha que a era Sarkozy acabou.

Nova força
Também está em baixa na França a rede de supermercados Casino – que, mês que vem, pretende assumir o controle do grupo brasileiro CBD, que detém as marcas Pão de Açúcar e Extra, entre outras. As lojas do Casino parecem mais vazias que as dos concorrentes e os franceses não as colocam entre as primeiras opções de visita. Em alta está o grupo U, uma espécie de cooperativa, no estilo da Rede Economia ou do Multimarket brasileiros, que cresce a uma velocidade notável.

Maré vermelha
Indiferentes à volta do que poderia ser a esquerda ao poder, os chineses invadiram Paris no feriadão do Dia do Trabalhador. E com poder de fogo. Nas Galeries Lafayette, enquanto ocidentais saíam com pequenas sacolas vermelhas da própria loja, turistas chineses carregavam sacolas e sacolas de grifes como Hermes, Gucci ou Prada. No estande da Louis Vuitton, havia fila de chinesas para comprar bolsas e relógios da marca.

Outro FMI
O Fundo de Moedas Imaginárias (FMI) – uma espécie de escambo digital – lançado pelo grupo de pesquisa Cidade do Conhecimento da Universidade de São Paulo (USP), realizou dia 1º  o seu primeiro processo de seleção de projetos em várias áreas de inclusão digital e audiovisual. Entre os selecionados, estão roteiros de cinema, games sobre história e folclore brasileiro, ações de intervenção urbana e uma nova rede com foco em educação móvel. Os trabalhos selecionados receberão consultoria gratuita de especialistas da USP e parceiros para desenvolver seus projetos.

Abre o olho, Dilma!
Geralmente com dificuldade de decodificar as questões macroeconômicas, o “povão” – uma das expressões prediletas do professor Carlos Lessa – já fez sua própria tradução, e não gostou, do confisco da poupança perpetrado pela presidente Dilma. Basta frequentar as filas de aposentados do INSS para ouvir comentários indignados com a medida.

Choque de realidade
As vaias recebidas pelo governador do Rio, Sérgio Cabral (PMDB), na cerimônia da entrega dos títulos de doutor honoris causa concedidos pelas cinco universidades públicas do Rio ao ex-presidente Lula, podem não ter sido mais fortes pelo hedge (defesa) permitido pela presença da presidente Dilma ao seu lado. No entanto, revelam que, fora do Mundo de Truman construído pela blindagem publicitária-jornalística ao governador, é crescente o número de cidadãos do estado indignados com sua administração, fator muito agravado pela exposição das suas relações íntimas com o presidente da Delta, Fernando Cavendish.

Marcos de Oliveira
Diretor de Redação do Monitor Mercantil

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