Sem rumo

O líder do governo FH na Câmara dos Deputados, Arnaldo Madeira (PSDB-SP), mostrou ontem mais uma vez o grau de improviso e amadorismo da articulação desse governo. Posto contra a parede pelo movimento dos ruralistas, Madeira lançou no ar a idéia de privatizar o Banco do Brasil. Como o BB responde por 75% do crédito rural, Madeira deve estar querendo jogar gasolina no barril de pólvora do campo. A não ser que ele ache que a banca privada, viciada nos juros gordos do papelório do tucanato, vai passar a subsidiar a agricultura.

Colonizado
Ao participar da homenagem a Getúlio Vargas – ontem completaram-se 45 anos de sua morte – o presidente nacional do PDT, Leonel Brizola, disse que o governo FH não é neoliberal, e sim “neocolonialista”. Brizola defendeu a renúncia de FHC e enalteceu a “coerência” de Vargas, cujo período no poder foi marcado pelo nacionalismo.

Projeção
Após dois dias ouvindo psicólogos, esta coluna não tem dúvida de que FH está evoluindo – para pior. Depois de classificar a Marcha dos 100 Mil de caminhada dos sem-rumo, só restou repetir o título de nota publicada em fevereiro. Freud explica.

Sacrilégio
Uma mulher foi barrada ontem ao tentar participar de audiência com o governador Garotinho, no Palácio Guanabara. O cerimonial alegou que o traje da moça, uma saia a um generoso palmo acima do joelho, não era de bom tom diante “de um homem cristão, como o govenador”.

“Viúva”
O ministro Pratini de Moraes precisa ser informado que o governo Médici, ao qual serviu com docilidade – ou como bajulador para usar a linguagem do presidente FH – já foi enterrado pela História. Como cristão novo tardio da democracia, Pratini deveria no mínimo modernizar o linguajar ao mostrar seu inconformismo com manifestações democráticas da oposição.

Vale tudo  
O sistema do Detran endoidou de vez. Um jornalista que teve sua Brasília furtada há quase dez anos recebeu uma notificação da Prefeitura cobrando-lhe uma multa por infração cometida no último dia 29 no Leblon. O detalhe que mais intrigou a vítima é como o novo proprietário do carro conseguiu emplacá-lo, apesar do registro do furto e de não ter nenhum documento do veículo.

Esvaziamento
A cidade de Rui Barbosa (BA) serve como amostra do que vem representando a política de desmonte da máquina estatal pela União. Milhares de correntistas do Banco do Brasil tiveram suas contas transferidas para uma outro município, Itaberaba, a 66 quilômetros de distância. A agência deveria, a princípio, ser fechada, mas acabou ficando desativada e reabrindo um ano e meio depois, uma vez que houve reação da população local. Nesse período os maiores prejudicados foram os habitantes da área rural, aposentados e pensionistas. Isto sem falar no movimento econômico de Rui Barbosa, que sofreu queda expressiva.

Dupla
Nada  mais apropriado do que se Gustavo Franco, ex-presidente do BC, for trabalhar com Maílson da Nóbrega na consultoria do ex-ministro da Fazenda. Ficariam juntos assim o responsável pela  mais rápida evolução da dívida pública nos tempos recentes com o campeão de inflação (Maílson bateu 84% em março de 90, no Governo Sarney). Comercialmente, a dupla é imbatível – qual empresário consciencioso não gostaria de ter um paper com as previsões deles, para saber exatamente o que não deveria fazer?

Emprego
Essa coluna também sabe elogiar, nas poucas – raríssimas – vezes em que o Governo acerta. A decisão de frear a implantação de bombas de combustível self-service nos postos protege o emprego dos frentistas sem prejudicar o consumidor – os descontos eram ínfimos. E nada de falar em contramão ou que no Primeiro Mundo é diferente. Para proteger empregos nos jornais, por exemplo, os Estados Unidos retardaram durante anos mudanças tecnológicas na imprensa. Até hoje, redações na Europa ou no Brasil são mais avançadas tecnologicamente que norte-americanas. E ninguém pode dizer que os jornais dos EUA não sejam lucrativos e bem-sucedidos.

Siameses
Recordar é viver. Há pouco mais de sete anos, Collor, iludido pelos marqueteiros que lhe sopravam ter o apoio da maioria silenciosa, convocou o povo a se vestir de verde e amarelo para mostrar apoio a seu governo. Deu no que deu. Agora, o nefelibata FH investe contra a Marcha dos Cem Mil, dando uma dimensão impensável ao ato da oposição. A cada dia, os dois fernandos ficam mais parecidos.

Marcos de Oliveira
Diretor de Redação do Monitor Mercantil

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