Sem SUS, Brasil não teria conseguido vacinar a população

Há quase 20 anos, entretanto, sistema não recebe atualização de medicamentos para 70% das pacientes com câncer de mama.

O Sistema Único de Saúde salvou o Brasil de uma tragédia ainda pior na pandemia, ao vacinar em massa a população. Mas, segundo médicos, políticos e especialistas em saúde pública que participaram na última quinta do seminário “Novo Rumo para o Brasil”, é preciso aumentar o investimento financeiro e tecnológico e melhorar a gestão para torná-lo mais eficiente. Organizado por MDB, PSDB, DEM e Cidadania, o ciclo de debates (iniciado no último dia 15 e que se encerrou nesta segunda) tratou no último dia 23 do tema “Crise sanitária, SUS e democracia”.

“A crise sanitária provocada pela pandemia foi agravada pela gestão caótica do Ministério da Saúde, obrigando estados e municípios a improvisar. Não fosse a gestão tripartite do SUS (com participação solidária de União, estados e municípios), o Brasil não teria conseguido nem vacinar as pessoas contra o coronavírus”, afirmou o médico Luiz Antonio Santini, consultor em planejamento e gestão de saúde e ex-diretor do Instituto Nacional do Câncer (Inca).

Assim como Santini, os demais debatedores enalteceram a importância do SUS no enfrentamento da pandemia e defenderam a valorização do sistema. Outro ponto em comum foi a preocupação com a limitação orçamentária, que, na opinião unânime dos participantes, restringe o atendimento à população.

“Com a pandemia, coloca-se a questão: como é que vamos repor as perdas, principalmente na estruturação daquilo que deixou de ser atendido? Por exemplo, as cirurgias eletivas que deixaram de ser feitas, o que fez aumentar a mortalidade no país. Precisamos de uma solução sistêmica”, alertou André Medici, especialista em saúde pública e que participou, no início da década de 1990, do planejamento, do desenvolvimento e da implantação do SUS.

O ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta, que ocupava a pasta no início da pandemia, lembrou que a luta em defesa do SUS precisa ocupar a pauta política em 2022. Segundo o ex-deputado federal do DEM, “temos a obrigação de colocar a saúde no debate presidencial do ano que vem e fazer com que candidatos se comprometam com a saúde pública, para cobrar deles uma pauta de compromissos, que certamente vai nascer deste encontro”.

O médico sanitarista Renilson Rehem de Souza, presidente do Instituto Brasileiro das Organizações Sociais de Saúde, reforçou o discurso de Mandetta. “É preciso uma ação política em defesa do SUS, enfatizando a relevância do sistema para a democracia e como política pública”, disse o representante do PSDB.

Quando o assunto é câncer, a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec) iniciou em 10 de setembro a etapa de consulta pública para a incorporação de CDKs, classe terapêutica inovadora voltada ao tratamento de pacientes com câncer de mama localmente avançado ou metastático. Atualmente, o SUS já conta com esse tipo de inovação para apenas 20% dos casos, enquanto a maior parte das pacientes carece de novas opções de tratamento.

“Quando pensamos na inclusão de terapias no SUS, a nossa maior preocupação deve ser a manutenção dos princípios de equidade, universalidade e integralidade do Sistema Único de Saúde. É importante que o SUS esteja preparado para receber mulheres de diferentes faixas etárias e ofertar soluções de alto impacto em qualidade de vida para pacientes com câncer de mama” comenta André Abrahão, diretor médico da Novartis Oncologia.

Desde o início da pandemia, números relatam uma queda de pelo menos 50% na realização de mamografias de rastreamento. Esse dado preocupa especialistas, que temem uma epidemia de diagnósticos de câncer de mama avançado para os próximos anos.

“Existe um estereótipo que câncer de mama acomete apenas mulheres acima dos 50 anos, mas isso não é verdade. Hoje em dia, cada vez mais o tumor afeta mulheres pré-menopausa, ou seja, que são jovens e em idade economicamente ativa, comprometendo autoestima, saúde mental, o relacionamento com o mercado de trabalho, a própria educação, relacionamentos e a possibilidade de ter filhos ou não”, acrescentou.

O câncer de mama, em alguns casos, se manifesta de maneira mais agressiva em mulheres mais jovens, com taxas de mortalidade mais elevadas quando comparadas às mulheres de idade mais avançada.

“Por isso a universalidade do SUS é tão necessária. É preciso que, cada vez mais, os medicamentos incorporados atendam todas as pacientes, de todas as faixas etárias. Também é nosso papel como cidadãos ter isso em mente e, quando chegar a oportunidade de contribuir com uma consulta pública, demonstrar a importância da inclusão de todos os pacientes na lista de medicamentos oferecidos no Sistema Único de Saúde, que é responsável por oferecer acesso à saúde a 75% da população brasileira” completa.

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