Semana começa com estresse pós-traumático

Na sexta, mercados domésticos ficaram por conta da sensação de desmanche da equipe econômica de Paulo Guedes.

A semana começa com o mesmo estresse das anteriores, com o agravante de uma agenda intensa de resultados do terceiro trimestre de empresas, dados de conjuntura e reunião do Copom, que pode definir novo plano de voo do BC. A semana passada foi caótica para os mercados domésticos, com a Bovespa encerrando o período com perda de 7,28%, aos 106.296 pontos, mas chegou a bater na faixa de 102 mil pontos. Dólar com valorização de 3,15%, aos R$ 5,63, mas também transitou na casa de R$ 5,75. Já os DIs assumiram altas e vazaram a casa de dois dígitos nos juros, e houve piora nas previsões de dados de conjuntura para este e o próximo ano.

Tudo por conta dos ruídos políticos, situação fiscal frágil e apetite político sobre o orçamento. O fura-teto nos gastos assustou os investidores.

Hoje, os mercados da Ásia terminaram o dia majoritariamente com altas, Europa começando o dia também em alta, mas desacelerando um pouquinho, e futuros dos EUA com valorizações. Mas isso não significa que aqui vamos acompanhar, nos moldes do ocorrido no período passado. A semana será intensa com resultados do terceiro trimestre, incluindo Petrobras e Vale, reunião do Copom e dados de conjuntura. Vamos depender da direção do noticiário, votação da CPI da Covid-19, indiciamentos e atitude do governo.

Não podemos perder o patamar dos 100 mil pontos do Ibovespa, sob pena de acirrar vendas precipitadas. Para cima, teríamos muito espaço para evoluir.

Na Alemanha, o índice IFO de expectativa empresarial de outubro caiu para 97,7 pontos, vindo de 98,9 pontos e com previsão de ficar em 98 pontos. Nos EUA, podemos ter encaminhamento melhor do pacote social e climático de Joe Biden, de forma mais modesta e ao redor de US$ 2 trilhões. No mundo, assusta também a nova onda de contágio pela covid-19 e suas variantes, como na China e na Rússia, que têm ciclo vacinal pior do que em outros países.

No mercado internacional, o petróleo WTI, negociado em Nova Iorque, mostrava nova alta de 0,64%, com o barril cotado a US$ 84,30. O euro era transacionado em queda para US$ 1,163, e notes americanos de 10 anos com taxa de juros em queda para 1,66%. O ouro e a prata tinham altas na Comex, e commodities agrícolas com comportamento de alta na Bolsa de Chicago.

Aqui, as expectativas estarão concentradas na decisão do Copom do próximo dia 27 (além de precatórios e CPI), depois da ampliação dos gastos, com as previsões de taxa Selic migrando do plano de voo do BC de 1%, para 1,25%, e mais atual em +1,50%.

Na agenda do dia, a nova pesquisa semanal Focus do BC e o saldo da balança comercial. Uma semana intensa de resultados de Petrobras, Vale, Facebook, Apple e Amazon. Expectativa de Bovespa podendo tentar alta e dólar mais controlado. Mas tudo isso vai depender do encaminhamento do noticiário mais ou menos estressado.

Na sexta-feira, os mercados domésticos ficaram por conta da sensação de desmanche da equipe econômica de Paulo Guedes e do fura-teto legal do limite de gastos incluído na PEC dos Precatórios, abrindo brecha de R$ 83 bilhões para o Auxílio Brasil e, depois, com a promessa de Bolsonaro estender o auxílio diesel para os caminhoneiros autônomos no mesmo valor mensal de R$ 400.

A sexta foi um dia quase caótico (como previsto) para os mercados, com o Ibovespa fazendo mínima em 102.853 pontos, dólar batendo acima de R$ 5,75 e os DIs curtos interrompendo negociação por terem atingido limite de alta. O Credit Default Swap (CDS) de cinco anos do Brasil, uma espécie de seguro de crédito, atingiu 242 pontos, o maior patamar em mais de um ano, quando ontem estava em 226 pontos.

Isso ilustra fartamente o comportamento ao longo de todo o dia, deixando claro o estresse dos investidores. Mais para o final da tarde, Bolsonaro se dispôs a ir ao Ministério da Economia conversar com Paulo Guedes em função de boatos sobre sua saída. Isso acalmou um pouco os mercados, mas o dano já estava feito. O presidente disse que os mercados ficaram “estressadinhos”, esquecendo que isso tem consequências de curto, médio e longo prazo para a economia.

No exterior, mercados também nervosos, principalmente nos EUA, depois de falas de dirigentes do Fed, incluindo o presidente Jerome Powell e a secretária do Tesouro, Janet Yellen. Mary Daly, do Fed de São Francisco, disse que juros em alta não teriam efeito sobre a cadeia produtiva, mas reduziria o crescimento do país. Powell falou que os gargalos continuam influenciando os preços, a variante Delta desacelerou a economia no terceiro trimestre e o PIB do terceiro trimestre deve ser mais fraco que o previsto. Finalizou dizendo que eles vão agir se houver risco de a inflação ficar descontrolada, mas que a política monetária está em bom lugar. Yellen ressaltou que a recuperação é frágil, apesar de se mostrar maior que em pares.

Os EUA também anunciaram o déficit fiscal de 2021 (encerrando ano fiscal em setembro) em US$ 2,8 trilhões, e o presidente Biden disse estar próximo de um acordo sobre o pacote social e climático. Biden também disse que os EUA irão defender a ilha de Taiwan, e suscitou declaração da China, dizendo que não fará concessões para Taiwan. Lá, completando a série de indicadores PMI de outubro, o industrial encolheu para 59,2 pontos (previsão era de 60,5 pontos), o de serviços subiu para 58,2 pontos e o composto em alta para 57,3 pontos.

No mercado internacional, o petróleo WTI, negociado em Nova Iorque, mostrava alta de 1,90%, com o barril cotado a US$ 84,07 e o dólar mais fraco ajudando nas cotações. O euro era transacionado em leve alta para US$ 1,163, e notes americanos de 10 anos com taxa de juros em queda para 1,66%. O ouro e a prata se beneficiando também do dólar mais fraco mostravam quedas na Comex, e commodities agrícolas com desempenho misto na Bolsa de Chicago. O minério de ferro, negociado em Qingdao, na China, registrou alta durante a madrugada de 2,22%, com a tonelada em US$ 119 52. Se não fossem a Vale e as siderúrgicas, a Bovespa teria piorado ainda mais. No segmento doméstico, ficamos totalmente à mercê do noticiário e dos boatos envolvendo a demissão de secretários e especulações, com o ministro Paulo Guedes submerso desde ontem, quando cancelou uma live. Especula-se que Colnago será o novo secretário do Tesouro e que os outros nomes seriam anunciados ainda hoje. Bolsonaro, em sua live de ontem, ainda disse que o teto de gasto não seria furado (legalmente, é claro) e não tocou nas demissões. O Congresso fechou cronograma de votar o orçamento de 2022 até a sessão do dia 20 de dezembro.

Também na sexta, aqui, o BC anunciou a nota do setor externo de setembro com déficit de US$ 1,7 bilhão, acumulando no ano déficit de US$ 8,1 bilhões. O investimento direto no país (IDP) foi de US$ 4,5 bilhões e no ano atingiu US$ 40,7 bilhões. O déficit em conta-corrente em 12 meses está em US$ 20,7 bilhões. No mês de setembro, houve desinvestimento em ações do Brasil de US$ 1,34 bilhão, e outubro (até o último dia 19) também ficou negativo em US$ 253 milhões. Em compensação, o mês de setembro mostrou ingressos para a renda fixa de US$ 676 milhões.

Ao longo de todo o dia, tivemos declarações da atitude eleitoreira de Bolsonaro e o abandono de seu projeto original de governo, daí derivando a leitura de saída de Paulo Guedes. Também muito foi falado sobre o enterro do teto de gastos e que o governo estaria assumindo a direção dos problemas ocorridos em 2014 e 2015 de crise profunda. Notem que ainda falta um ano para as eleições. Mas Paulo Guedes e Bolsonaro falaram muito durante a tarde, mercados reagiram depois de enormes oscilações e o clima permanece nervoso – e deve se manter. Paulo Guedes confirmou Esteves Colnago para o Tesouro e orçamento no lugar de Bruno Funchal.

No mercado, dólar completamente destrambelhado chegou a bater R$ 5,75, para depois fechar em -0,71%, cotado a US$ 5,627. No segmento Bovespa da B3, na sessão do último dia 20, os investidores estrangeiros alocaram R$ 829,4 bilhões, marcando ingressos em outubro de R$ 11,5 bilhões e no ano com entradas líquidas de R$ 53,8 bilhões. No mercado acionário, dia de alta da Bolsa de Londres de 0,34%, Paris com +0,81% e Frankfurt com +0,46%. Madri com queda de 0,41% e Milão com alta de 0,18%. No mercado americano, o Dow Jones com +0,21% (recorde) e Nasdaq com -0,82%. Na Bovespa, dia de queda de 1,34% e índice em 106.296 pontos. Na mínima do dia, caiu 4,53% e depois ficou no positivo.

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Alvaro Bandeira

Economista-chefe do Banco Digital Modalmais

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