Semana foi de investidores alternando otimismo com aversão ao risco

Aqui não foi diferente, mas processo político complicado acabou dando alguma trégua, com melhora de relações entre Executivo e Legislativo.

Opinião do Analista / 06:56 - 13 de out de 2020

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Mais uma semana de grande volatilidade nos mercados de risco do mundo e muitas mudanças de sinais intraday e entre sessões. Investidores alternando momentos de maior otimismo com ampliação da aversão ao risco, baseado em todas as incertezas que rondam o futuro da economia global. Aqui não foi diferente, mas o processo político complicado acabou dando alguma trégua, com a melhora das relações entre o Executivo e o Legislativo.

No cenário externo, durante todo o período tivemos larga expectativa dos investidores em relação ao novo pacote de estímulos fiscais para a economia americana, negociado entre os Republicanos e Democratas. Durante a semana, tivemos várias conversas entre a presidente da Câmara Nancy, Pelosi e o secretário do Tesouro, Steven Mnuchin, com expectativa de estímulos envolvendo cerca de US$ 2,2 trilhões.

Ocorre que no dia 6, o presidente Donald Trump rejeitou a proposta dos Democratas e pediu para encerarem as negociações até o final das eleições. Isso trouxe forte inversão de tendência nos mercados abertos no mundo. Porém, no dia seguinte Trump autorizou retomada das negociações, seguindo a "escola" de Bolsonaro com o programa Renda Brasil, transmudado em Renda Cidadã. Mnuchin voltou a propor estímulos mais restritos para as aéreas, mas aí foi Pelosi quem rejeitou querendo estímulos mais dispersos por outros setores, empresas e população mais carente. A Casa Branca anunciou nova proposta para ser negociada de US$ 1,8 trilhão. Terminamos assim, mais uma semana sem definição de pacote fiscal.

Tanto o pacote fiscal é muito importante, que todos os dirigentes do Fed que falaram na semana expressaram a importância. Eric S. Rosengren do Fed de Boston chegou a dizer que o aumento do quantitative easing (QE) teria menor impacto que uma ação fiscal. Não só isso, a própria ata do Fed divulgada na semana colocou que todas as projeções realizadas pelos membros do Comitê de Política Monetária (Fomc) contemplam estímulos fiscais.

A ata do Fed mostrou que a economia vem recuperando acima do previsto, com fluxo de crédito sendo fundamental para famílias e negócios, mas que os riscos persistem com recuperação setorial irregular. Também alertou para inadimplência em empréstimos corporativos com crescimento notável nos últimos meses. A percepção é de que a recuperação vem perdendo força, daí a necessidade de mais estímulos.

Para variar um pouco, Trump seguiu fazendo críticas contra a China, dizendo que "vão pagar preço alto por espalharem a Covid-19 pelo mundo". Aparentemente curado da doença, Trump pode retomar compromissos públicos a partir desse sábado, mas disse não ter interesse em participar de debate virtual marcado para o dia 15. Mas pode ser que reveja essa posição em função da perda de votos. Segundo o noticiário, os votos por correio já passam de 6,8 milhões e pode ser recorde de votação nessa eleição. O debate da semana entre os vice-presidentes foi tido como neutro e não melhora a posição relativa de Trump.

Em termos de dados de conjuntura, a semana contemplou a divulgação do PMI da atividade composta (indústria e serviços) em vários países, e como regra geral mais para positivos ao longo de setembro. No Japão, o índice composto subiu para 46,8 pontos, mas ainda baixo dos 50 pontos, o que mostra contração da atividade. O PMI caixin de serviços da China subiu para 54,8 pontos, vindo de 54 pontos. Na Alemanha, alta para 54,7 pontos o composto, no ritmo mais rápido desde 2017. Já na Zona do Euro, queda para 50,4 pontos e no Reino Unido queda para 56,5 pontos, vindo de 59,1 pontos.

Na Zona do Euro, vendas no varejo em alta de 4,4% em agosto e no Reino Unido decepção com alta de 0,3%, quando o previsto era expansão de 2,8%. Na Alemanha, as encomendas à indústria em agosto cresceram 4,5%, acima da previsão de 2,5%, a produção industrial encolheu 0,2% em agosto, contrariando expectativa de +1,5%. O presidente do Bundesbank, Jens Weidmann, disse que a recuperação alemã será prolongada e incompleta.

A Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) é que melhorou suas previsões de oferta e demanda de óleo é com isso os preços voltaram a ter melhora para a casa dos US$ 40 no WTI em NY. Nos EUA, o crédito ao consumidor de agosto encolheu para US$ 7,2 bilhões, quando a previsão era de US$ 14 bilhões. O déficit da balança comercial de agosto subiu para US$ 67,1 bilhões com importações de +3,2% e exportações com +2,2%. O secretário Robert Lighthizer disse que o déficit maior se prende a expansão rápida da economia. Os pedidos de auxílio-desemprego da semana anterior encolheram 9 mil posições para 840 mil, quando o previsto era 825 mil pedidos.

No cenário local, o segmento político esteve mais tranquilo, com a pacificação engendrada por políticos para Rodrigo Maia e Paulo Guedes, culminando com declarações importantes de Maia de querer votar ainda em 2020 a PEC emergencial, que contempla o Pacto Federativo e ainda o Renda Cidadã. Seria muito bom que acontecesse, mas o relator disse que o Renda Brasil foi adiado para depois das eleições.

De qualquer forma, com o ambiente político mais tranquilo e sem roupa suja lavada entre ministros, os mercados puderam ter certo alívio. Porém, as preocupações permaneceram vivas entre os investidores no que tange à questão fiscal, endividamento, rolagem de dívidas e teto de gastos. Além disso, existem sérias dúvidas com relação à reforma tributária fatiada, que é mais fácil de ser aprovada, mas que não se sabe onde acaba. Também preocupa de onde virá os recursos para o Renda Cidadã, já que tivemos expressões sobre manter do vice-presidente Mourão, Paulo Guedes e também de Rodrigo Maia.

Sobre indicadores de conjuntura, a pesquisa semanal Focus do BC veio mostrando inflação em alta em 2020 para 2,12% (anterior em 2,05%) PIB melhorando mais para queda de 5,02%, de produção industrial mantida em contração de 6,30% e saldo comercial com superávit crescendo para US$ 57,49 bilhões. Os investimentos diretos no país é que declinaram para US$ 51,26 bilhões, de anterior em US$ 55 bilhões, depois dos números mostrados para o mês de agosto.

Falando da inflação oficial, o IPCA de setembro mostrou alta maior que a prevista para 0,64%, acumulando alta em 2020 de 1,34% e em 12 meses de 3,14%. Foi a maior alta para o mês desde 2003. O IGP-DI de setembro foi de 3,30% acumulando alta em 12 meses de 18,44% e a prévia do IGP-M de outubro em 12 meses com +19,45%. Transportes, com passagens aéreas, foi destaque de alta no índice coletado. O IBGE também anunciou as vendas no varejo de agosto com expansão de 3,4% e varejo restrito em 2020 com queda de somente 0,9%. Isso mostra como foi importante o governo ter concedido o auxílio emergencial.

No mercado a semana foi melhor, mas com muita volatilidade e novos saques dos investidores estrangeiros que tende a ampliar e pressionar o dólar com as remessas de juros sobre o capital e dividendos. Até a sessão do dia 7, já tinha saído no mês R$ 913 milhões, acumulando saídas líquidas em 2020 de R$ 88,7 bilhões, quase o dobro de tudo que saiu em 2019, e mesmo considerando o dólar na casa de R$ 5,60.

 

Perspectivas - A semana começa complicada pelo feriado no Brasil com os mercados abertos no exterior, e grande torcida para que seja de alta. Afinal, os indicadores americanos e da Europa foram positivos no período anterior, mesmo diante de todas as expectativas com relação ao pacote de estímulo fiscal americano, agora aparentemente com negociações retomadas, mas ainda sem solução entre Republicanos e Democratas.

Porém, dois outros fatores se destacam. De um lado, a contaminação pela Covid-19, com Madri em estado de emergência e outros países também tendo que conviver com nova contaminação crescente, e de outro com as eleições americanas produzindo ruídos importantes e Biden, segundo pesquisas lançadas mostrando ampliar a diferença sobre Trump. Também não temos indicação se haverá ou não o debate virtual marcado para dia 15. Trump disse que não fará virtual.

No cenário local, esperamos que a trégua entre Paulo Guedes, políticos e seu colega ministro tenha acabado, mas isso é sempre problemático num governo beligerante. O presidente mais comedimento contribui para esse ânimo mais amistoso.

Já no mercado, é bom ficar de olho no rompimento mais consistente do patamar de 98 mil pontos do Ibovespa, pois pode mirar novamente para a casa dos 100 mil pontos e 103 mil pontos, que seria muito positivo.

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Alvaro Bandeira

Sócio e economista-chefe do Banco Digital Modalmais

Fonte: www.modalmais.com.br/blog/falando-de-mercado

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