Semeando crise

A desregulamentação promovida pelo Congresso norte-americano nas décadas de 1980 e 1990 foi a senha para que grandes corporações fizessem maquiagens contábeis, que inflaram seus balanços. Ao abolir controles que datavam da época pós-crise de 29, a sociedade dos EUA abandonou a produção e passou a uma economia consumidora, dominada pela especulação. Também na raiz dos problemas está a elevação dos juros em 1979, ferindo a indústria e levando Wall Street às alturas. Descontos nos impostos de especuladores imobiliários, desregulamentação dos bancos e instituições de poupança e empréstimo, cortes nas despesas federais e dezenas de leis sobre o setor financeiro completaram o quadro. O mercado de derivativos foi o combustível que faltava para a “exuberância irracional” prosperar – ciclo que parece ter chegado ao fim, apesar das tentativas de manter o cadáver em pé.

Não é desculpa
A alta do IPCA, índice que serve de base para o sistema de metas para a inflação adotado pelo BC, foi de 0,42% em junho. Com isto, acumula nos últimos 12 meses 7,66%, indicação de que a meta de inflação (3,5% este ano, com variação de dois pontos para mais ou para menos, ou seja, até 5,5%) tão idolatrada pela equipe econômica vai para o vinagre. pelo segundo ano seguido.
Contudo, isto não é desculpa para que os juros não caiam. Na opinião de Luiz Rabi, economista-chefe do BicBanco, a inflação de 2002 já está dada. Baterá os 6%. “Ocorre que a defasagem entre a ação do BC (mexer na taxa de juros) e o efeito final sobre a inflação gira em torno de seis a nove meses. Assim, não há (quase) nada que o BC possa fazer para alterar a inflação de 2002 e, por tabela, (quase) tudo o que fizer daqui em diante terá reflexos na inflação de 2003”.
Rabi lembra que “muito recentemente o Conselho Monetário Nacional alterou a meta do ano que vem para 4% e alargou para 2,5 pontos percentuais o intervalo de tolerância. Portanto, chegamos a um ponto em que é sobre a inflação de 2003, e não mais sobre a de 2002, que o Banco Central centrará as suas decisões de política monetária. Como, no último Relatório de Inflação divulgado no final de junho, as projeções de inflação do BC para 2003 estão abaixo do centro da meta, volta-se a ter espaço para redução da taxa básica de juros mesmo que se não cumpra a meta de inflação para 2002.”

Salvação
Professores da rede estadual que encontraram nas aulas extras para presidiários do Rio um reforço para os magros orçamentos estão espantados com um detalhe curioso sobre o perfil dos alunos: a grande maioria é formada por evangélicos.

Grande irmão
A segunda colocação obtida pelo candidato do Movimento ao Socialismo (MAS) nas eleições para presidente da Bolíva, Evo Morales, foi capaz de produzir uma unidade entre os partidos neoliberais bolivianos impensável para quem acredita em insultos trocados em campanhas eleitorais. Sob a decisiva influência do embaixador dos Estados Unidos no país, Manuel Rocha, representantes do Movimento Nacionalista Revolucionário (MNR), Unidade Cívica Solidariedade (UCS) e do Movimento da Esquerda Revolucionária (MIR) se reuniram, segunda-feira à noite, para fechar o apoio ao candidato do MIR, Gonzalo Sánchez de Lozada. A denúncia foi feita por Jorge Richter, dirigente da Nova Força Republicana (NFR), que reafirmou a decisão de seu partido de se manter na decisão.

Lava as mãos
O candidato da NFR à presidência e terceiro colocado nas eleições, Manfred Reyes Villa, admitiu que o embaixador norte-americano lhe pediu pessoalmente para seu partido não votar de “jeito nenhum” em Morales no Congresso. Villa, que centrou seu discurso de campanha contra “o neoliberalismo de Lozada”,  prometeu se abster, o que, com a união das demais forças, garantiria a vitória ao candidato preferido dos EUA. Para quem se impressiona pela força das siglas, deve-se lembrar que MNR e MIR são referências esmaecidas a um espaço longínquo. Acreditar em alguma coisa diferente é como tentar obter qualquer analogia entre o antigo MDB e o PMDB de Gedel Vieira Lima, Moreira Franco e Michel Temer.

Marcos de Oliveira
Diretor de Redação do Monitor Mercantil

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