Sementes dos Le Pen

Respeitado por suas agudas críticas ao neoliberalismo, o sociólogo português Boaventura Sousa Santos adverte, em artigo publicado no sítio do Fórum Social Mundial (FSM) de Porto Alegre (www.portoalegre2002.org/publique/cgi/public/cgilua.exe/web/templat) que a performance de Le Pen no primeiro turno das eleições presidenciais da França tem suas raízes no combate do neoliberalismo contra os direitos sociais. Ele observa, no entanto, que o fascismo contemporâneo é muito mais sutil e perigoso que o dos tempos de Hitler e Mussolini. Nas palavras de Boaventura, trata-se de um fantasma bicéfalo, sendo sua primeira cabeça “um sistema de relações sociais muito desiguais, que coexiste com uma democracia política socialmente desarmada”. Fenômeno que ele define como uma sociedade “politicamente democrática, mas socialmente fascista”.
A segunda cabeça é “a globalização neoliberal”, fundada na tentação de resolver a tensão social nos países ricos pela “contínua e crescente exploração e humilhação dos países pobres”. Ele destaca que, longe de ser apenas europeu, neofascismo é global, e “só pode ser exorcizado globalmente”.
As advertências do sociólogo português ganham relevância especial para o Brasil, num momento em que a nomenclatura enquistada no poder quer transformar as eleições num exercício formal de democracia, ao qual estaria interditado qualquer possibilidade de mudança no coração do modelo cujo esgotamento ameaça apear do poder seus executores.

Família Berlusconi
Conhecido por sua mordacidade, o teatrólogo italiano Dario Fo mostra ter consciência social bem mais consistente do que a pasteurizada identidade de autor de besteirol alienado a que foi reduzido por certos círculos no Brasil. Crítico do governo Silvio Berlusconi, Fo diz que “as políticas, os gestos, as palavras” do neofascista primeiro-ministro italiano lhe causam calafrios. “Primeiro, a empresa Itália, depois o partido-empresa que transforma a todos em empregados da companhia, com o grande gerente à frente”, ironiza Fo, que, no entanto, diz ainda alimentar esperanças de mudança, graças a “movimentos novos – sobretudo de estudantes, jovens operários e, inclusive, os mais velhos – que parecem reviver, com sua participação ampla e generosa, a água da ressurreição.”

Econômico
A Volkswagen apresentou, mês passado, em seu centro de desenvolvimento, em Wolfsburg, Alemanha, uma novidade que, a depender das condições de comercialização, promete causar uma revolução no mercado. Batizado de Ultra-ligth, o carro, segundo a empresa alemã, é capaz de rodar 100 km com pouco menos de um litro de gasolina. Em sua viagem de teste, o carro andou, durante 230 km, a uma velocidade média de 75 km/h, tendo consumido apenas 2,1 litros de gasolina, uma média de 0,89 litros por 100 km. As pesquisas que deram origem ao Ultra-ligth começaram após o lançamento do Lupo, em 1999. O veículo percorria a mesma distância com três litros de gasolina e teve apenas cerca de 22 mil unidades vendidas. Para os aficionados ou meramente curiosos, maiores informações podem ser obtidas no original em inglês no sítio do Conselho Mundial para o Desenvolvimento Sustentável – projeto Mobilidade Sustentável (www.wbcsdmobility.org).

Titular
O subsecretário estadual de Energia, Indústria Naval e Petróleo do Rio de Janeiro, Luiz Clóvis Martins Limaverde, foi efetivado como titular da pasta, responsável por cerca de 50% de todos os investimentos que o estado recebeu até o ano passado. A governadora Benedita da Silva já enviou a nomeação de Limaverde para ser publicada no Diário Oficial do Estado.

Auto-explicativo
Duas notícias divulgadas, no mesmo dia, sem conexões aparentes, explicam a herança argentina que o presidente FH deixará a seu sucessor. Em abril, o setor público consolidado (União, Banco Central, Previdência Social, estados, municípios e empresas estatais) deixou de gastar R$ 8,973 bilhões, produzindo o maior superávit primário (economia para pagar juros) da história do país. No mesmo mês, o IBGE também registrou a maior taxa de desemprego desde maio 2000: 7,6% da população economicamente ativa. Mesmo assim, ou et por cause, a imprensa “chapa branca” abrirá as primeiras páginas deste fim de semana para incensar o primeiro feito.

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Marcos de Oliveira
Diretor de Redação do Monitor Mercantil

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