Será que a cloroquina vai dar para todos?

‘Voltar ao normal’ negligencia a necessidade premente de se transformar a sociedade.

Empresa Cidadã / 19:01 - 19 de mai de 2020

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Pergunta-se, ante a possibilidade de difusão do uso da substância, no tratamento de infectados pelo coronavírus, até tudo “voltar ao normal”. A frequência com que se repete o mantra do “voltar ao normal” negligencia a necessidade premente de se transformar a sociedade, começando pela transformação da economia em força vital e não, como hoje, força letal, que para produzir, tem que atirar aos vírus os seus membros mais desprotegidos (velhos; crianças; mulheres; e jovens negros) em transportes públicos transbordando de cheios; em filas humilhantes nas portas de bancos; em moradias precárias, sem saneamento; economia, que para produzir, tem que se apropriar das águas e de outros recursos naturais não renováveis, gerando predação ambiental – é urgente precificar as perdas ambientais.

Economia geradora também de profundas desigualdades, que incomodam quando eventualmente transpostas (empregadas domésticas na Disney?! reclamou o banqueiro); abismos mantidos pela imposição de sistemas tributários, benemerentes em relação ao capital com tantas renúncias, isentos na forma de dividendos e, mais ainda, dedutíveis como despesa na forma de JCP, versus um maremoto de precarizações das condições do trabalho, falsamente exibidas como modernidades.

São muitos os exemplos de corporações que optaram por manifestações de generosidade (ensaio para um novo tempo), das quais escolhemos poucos casos, a título de exemplos.

 

Fiat Chrysler

R$ 11 milhões, de valor estimado das doações na forma de hospital de campanha (100 leitos equipados para Covid-19), em Goiana de Pernambuco, kits de higiene e cestas básicas, área cedida para a prefeitura de Betim (MG) instalar hospital de campanha, técnicos treinados pelo Senai e cedidos para consertar ventiladores pulmonares; instalação de linha de produção de máscaras cirúrgicas descartáveis (150 mil por mês) para distribuição em MG e PE. Dedicada à produção de veículos automotores, alimentados a combustíveis fósseis, na contramão do Acordo de Paris, referência maior para a “retomada.”

 

P&G

R$ 27 milhões, valor estimado das doações na forma de apoio à pesquisa científica (R$ 200 mil); doação de pulmão artificial à Universidade de São Paulo (USP), avaliado em R$ 315 mil (projeto Inspire, de produção de respiradores de baixo custo); distribuição de 78 toneladas de produtos de fabricação própria nas comunidades da Cidade de Deus (Rio/RJ), Paraisópolis (São Paulo/SP) e Capão Redondo (São Paulo/SP). A P&G Brasil, caso raro, é presidida por uma mulher, Juliana Azevedo, que fala em “nova economia, que vai emergir dessa crise”. A P&G é forte consumidora de água na produção dos seus produtos.

 

Face shield’ de Nova Friburgo

Em Nova Friburgo (Região Serrana/RJ), um ajuste entre o IPRJ (Uerj/Campus Regional de Nova Friburgo/Instituto Politécnico do Rio de Janeiro), professores da Universidade Federal Fluminense (UFF), a empresa Persona 3D, o Senai-Friburgo, e a empresa Stam, possibilitou o desenvolvimento de um protetor facial (face shield) para uso dos profissionais da linha de frente do combate à Covid-19, com o objetivo de suprir a demanda da Região Serrana do RJ. As primeiras unidades produzidas já foram entregues a hospitais locais e ao Corpo de Bombeiros (a meta é produzir até 3 mil unidades por dia). Baixo custo, alta qualidade e rápida produção foram as qualidades priorizadas na cooperação entre as Universidades, as empresas e o poder público (Secretaria de Ciência e Tecnologia de Nova Friburgo), segundo o coordenador logístico do projeto e vice –diretor do IPRJ/Uerj, Lucas Venâncio Lima.

Ele conclui, dizendo que está “confiante de que a rede de solidariedade que já se formou aumente ainda mais e nos ajude a atingir essa meta. Juntos – sociedade civil, universidade, pesquisa científica e governo – conseguiremos combater esta pandemia.” Professor 247, Lima arrematou. “Acho que é a grande lição que traremos desse momento de crise: a importância da união de esforços e da valorização da universidade pública”.

Você pode cooperar com o Projeto Face Shield Nova Friburgo pelo e-mail faceshield.novafriburgo@gmail.com você pode combinar a doação de insumos, como plástico ABS, folha plástica translúcida, plásticos perfurados, luvas descartáveis, caixas de papelão, e outros.

 

Projeto Esdi de protetor facial

A prestigiada Escola Superior de Desenho Industrial (Esdi), uma unidade acadêmica da Uerj, localizada no Centro da cidade do Rio de Janeiro, também desenvolveu um protótipo de protetor facial, com técnica alternativa, utilizando folha plástica de PETg. Toda a produção será entregue à Policlínica Piquet Carneiro (PPC) e ao Hospital Universitário Pedro Ernesto (HUPE), ambos da Uerj.

O professor Fernando Reiszel, coordenador do Laboratório de Modelagem da Esdi, ressaltou o esforço para colaborar na satisfação das necessidades dos profissionais de saúde da Universidade, mas que a Esdi não tem possibilidades de produzir o protetor em grande escala, estando limitada à possibilidade de produção máxima de 100 a 200 unidades por dia.

A impressão 3D será utilizada apenas nas situações de reprodução de peças de equipamentos de saúde. A diretora da Esdi, Ligia Medeiros, afirmou que a alternativa 3D continuará sendo empregada para necessidades de altíssima precisão.

Um despretensioso painel da “volta ao normal”, envolvendo solidariedade, cooperação, ciência, e cuidados ambientais fica assim registrado.

 

O passado ainda assombra

O Sistema de Alerta de Desmate do Imazon divulgou nesta semana que o desmatamento observado em abril de 2020 foi 200% superior ao verificado há apenas um ano, abril de 2019. Em um mês, foram devastados 529 km², área maior do que a da cidade de Porto Alegre (496 km²), uma capital de 1,479 milhão de habitantes. Desde 2008, é o maior desmatamento já visto, um triste e perigoso recorde.

 

Não vá dizer que a cigana te enganou

A conta do descaso e da negligência sempre chega, pode esperar. O Banco Central da Noruega, gestor do Fundo Soberano da Noruega, responsável por US$ 1 trilhão para investimentos, vetou a possibilidade de qualquer aporte de investimentos à Vale e à Eletrobras. A primeira foi vetada pelos notórios rompimentos de barragens. A segunda foi descartada devido à sua participação no projeto da usina de Belo Monte, danoso a povos indígenas afetados e por outros danos a populações afetadas por barragens.

Esta conta chegou. Com uma população de 5 milhões de pessoas, a Noruega é o país de maior IDH do mundo (0,953 em máximo possível de 1,0), com uma das maiores reservas de petróleo e terceira maior produção (atrás da Rússia e da Arábia Saudita). É de fato um fundo de hedge, o maior do mundo, capaz de atenuar ciclos associados às variações de preço do petróleo, com o conceito de legar às futuras gerações do país os resultados da exploração e venda do petróleo, um recurso finito. Para tanto, os recursos de capitalização são investidos em empresas (66,2%), em renda fixa (31,2%) e em imóveis (2,6%).

Coisa de gente grande.

 

18 de maio

Dia Internacional Contra a Homofobia, Transfobia e Bifobia.

Reflita, mas em casa.

 

Paulo Márcio de Mello é professor servidor público aposentado da Universidade do Estado do RJ (Uerj).

paulomm@paulomm.pro.br

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