Sim, Virgínia, existe uma grande conspiração da direita

A crise política está aí. Até quando Guedes fica?.

Conversa de Mercado / 19:49 - 24 de abr de 2020

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Déficit fiscal, queda na arrecadação, fuga de investidores, aumento do desemprego, retração da renda, recessão, quarentena, coronavírus, crise na saúde e, para coroar, a demissão do ministro Sergio Moro com acusações sérias contra o presidente da República, Jair Bolsonaro. Não é possível chegar a outra conclusão. Sim, Virgínia, existe uma grande conspiração da direita*.

O Bolsonarismo não se preocupa em lidar com os fatos e tomar atitudes condizentes com eles. O próprio governo conspira contra si mesmo. E ainda faz o jogo é de acusações e conspirações esquerdistas, para desespero daqueles que esperam medidas efetivas para a economia após a saída da quarentena, neste caso, os brasileiros. O coronavírus é colocado como comunavírus, e os poderes são atacados pelo próprio governo. A economia que depende da política é só uma consequência disso tudo. E os fatores para que ela afunde só crescem.

A insatisfação da população que bate panela enquanto o presidente fala é reflexo dos dados econômicos, e estes são reflexo do paradoxo entre o que foi apregoado nas eleições e o que ocorre agora. Reflexo do que é dito e desdito o tempo todo. Tudo gera mais instabilidade.

Vide o Plano Pró-Brasil. Ora, uma das bandeiras da eleição era o liberalismo na economia, com Paulo Guedes na Fazenda. Daí, alheio ao Ministério da Economia, o governo lança um programa para a retomada da economia que nada mais é que o aumento da gastança pública por meio de obras de infraestrutura. O Plano Pró-Brasil, encabeçado pela ala militar do governo juntamente com os ministros Rogério Marinho (Desenvolvimento Regional) e Tarcísio de Freitas (Infraestrutura), foi apelidado de Dilma 3 pela ala econômica.

Não precisa ser letrado em economia para se perguntar: quem lança um plano econômico sem a aprovação do Ministério da Economia? E mais óbvio ainda: de onde sairá o dinheiro para essas obras? Da iniciativa privada, que tenta conter os gastos e muitas empresas já anunciaram que precisarão cortar salários inclusive da alta direção para poder sobreviver? Quem fez essas contas? É preciso lembrar que o Teto dos Gastos está estancado por conta do estado de calamidade, mas ele deve ser retomado.

A estimativa do Tesouro Nacional é de encerrar 2020 com déficit de, pelo menos, R$ 450 bilhões por conta dos gastos com a pandemia da Covid-19. Para 2021, a previsão é de uma meta fiscal negativa de R$ 149 bilhões, número que deve ser revisto para cima. Em termos de dívida pública, com todos os desafios da pandemia, é esperado que ela fique próxima de 90% do PIB. O Pró-Brasil poderá ampliar em R$ 215 bilhões os gastos públicos até 2024.

O ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, é outro delirante que ainda não entendeu a importância do seu cargo. Ele publicou em seu blog o texto intitulado: “Chegou o comunavírus”. No fundo, o texto demonstra um analfabetismo funcional de Araújo ao interpretar o livro Vírus, de Slavoj Žižek. Nas palavras do ministro... “o globalismo é o novo caminho do comunismo. O vírus aparece, de fato, como imensa oportunidade para acelerar o projeto globalista. Este já se vinha executando por meio do climatismo ou alarmismo climático, da ideologia de gênero, do dogmatismo politicamente correto, do imigracionismo, do racialismo ou reorganização da sociedade pelo princípio da raça, do antinacionalismo, do cientificismo. São instrumentos eficientes, mas a pandemia, colocando indivíduos e sociedades diante do pânico da morte iminente, representa a exponencialização de todos eles”. Seria cômico, se ele não fosse ministro das Relações Exteriores. E nós achávamos que falar em estocar vento era mico...

Para colocar a cereja no bolo da conspiração direitista, vem Sérgio Moro. Ao pedir demissão, o ministro fez uma série de acusações graves contra Bolsonaro, que envolvem indícios de envolvimento em crimes de responsabilidade, falsidade ideológica, prevaricação, coação, corrupção, advocacia administrativa e até obstrução de Justiça. Moro diz ter provas, e não se espera que um juiz acuse sem elas. Ao final da sexta-feira, Bolsonaro fez pronunciamento para rebater Moro. Falou, falou, fez uma acusação séria, mas não convenceu. A crise política está aí. Até quando Guedes fica?

* a frase foi dita pelo economista Paul Krugman em entrevista à rádio Air América em resposta a uma ouvinte chamada Virgínia, que questionou o motivo de o presidente Bill Clinton ter sido investigado durante todo o seu governo, enquanto o presidente George W. Bush não passou pelo mesmo processo.

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