Síndrome de Anchorage

Cúpula de Anchorage, Alasca, é como sessão psicanalítica entre duas personalidades fortes: Donald Trump e Vladimir Putin.

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Trump aperta mão de Putin em 2018 (foto de LehtikuvaJussi Nukari, Agência Xinhua)
Trump aperta mão de Putin em 2018 (foto de LehtikuvaJussi Nukari, Agência Xinhua)

Como a véspera de uma final de futebol, que transforma todos em treinadores, a Síndrome de Anchorage transforma a mídia em oráculos de estratégias político-militares.

Planejamentos, avaliações das alternativas sob o aspecto tático, histórico e estatístico, falharam, até agora, em considerar, de fato, a cúpula como sessão psicanalítica entre duas personalidades fortes, como Donald Trump e Vladimir Putin, ambos tendendo a assumir o papel de terapeutas, um do outro. Um desafio existencial entre duas figuras convencidas de que detêm o monopólio da inteligência e da astúcia.

É uma leitura transversal, sem precedentes, que destaca as reservas mentais, mútuas quanto ao propósito da cúpula e seus objetivos opostos.

Putin credenciou a imagem propagandística de um líder que nunca recua, que impôs suas condições ao seu interlocutor e, de sua posição de vantagem, que o convenceu a se reunir com o oponente, para negociar.

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Igualmente arrogante, mas, provavelmente, mais astuto a longo prazo, Trump pretende fazer expor os trunfos na mão do presidente russo e colocar toda a culpa nele pelo eventual fracasso das negociações de paz e pela continuação da guerra. Este prolongamento da guerra, aos olhos de seus eleitores turbulentos, o movimento MAGA, o forçará a apoiar militarmente a Ucrânia.

Por trás da ausência de Zelensky e da aparente marginalização dos líderes europeus – que, na videoconferência com Trump, exigiram, unanimemente, e receberam, do presidente americano, uma declaração solene de que “questões territoriais relativas à Ucrânia podem ser negociadas, exclusivamente, pelo presidente ucraniano” – pode, na verdade, conter uma armadilha para Putin, que o exporá duplamente ao Kremlin: aos belicistas extremistas pós-soviéticos, que não lhe perdoariam nem a trégua, muito menos a paz; e aos oligarcas, focados exclusivamente em seus próprios interesses e aterrorizados pelo desastroso declínio econômico da Rússia.

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Uma armadilha dupla que será acionada com a chegada de Putin à base estratégica conjunta da Força Aérea e do Exército dos EUA, em Elmendorf-Richardson, na periferia norte de Anchorage.

Trump exigirá que sua chegada seja precedida pela suspensão dos bombardeios e ataques de ambos os lados. Na prática, isso deveria ser atuado pelos russos, que, ao contrário, às vésperas da cúpula estão tentando cercar Pokrovsk, na região de Donetsk, forçando as autoridades ucranianas a ordenarem a evacuação das famílias que vivem em várias aldeias e fazendas na área.

Se Putin hesitar, Trump aumentará a aposta e insistirá em abrir negociações para alcançar um confronto direto entre Moscou e Kiev, para uma troca territorial nebulosa e, essencialmente, impraticável. O que é como negociar a compra das joias da sua família, com o ladrão que invadiu sua casa. Parece uma concessão a Moscou, mas, na verdade, trata-se de manobra para garantir a trégua.

Neste ponto, se Putin não fizer nada, além de responder repetidamente com absolyutno niet, absolutamente não, o magnata o acusará nas redes globais de não querer a paz e de ter exposto a verdadeira face do imperialismo russo, que, depois da Ucrânia, mirará invadir a Europa, começando pelos países bálticos e pela Polônia.

Tudo isso se concentra na autoglorificação de que ele, Donald Trump, tentou de tudo para restaurar a paz, e que a única maneira de a alcançar, neste momento, é apoiar Kiev a ponto de forçar a retirada do exército russo.

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