Situação tensa no Ártico entre a Rússia e os Estados Unidos

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MiG-31 (foto Força Aérea da Rússia)
MiG-31 (foto Força Aérea da Rússia)

O Ártico, depois de muito tempo, voltou a estar na agenda política das potências: depois de “férias” de 20 anos, graças às mudanças climáticas, que abrem novas perspectivas de exploração daquela região remota – não apenas do tráfego comercial mas, igualmente, da mineração – a Rússia e os Estados Unidos iniciaram uma modernização progressiva de suas infraestruturas existentes e a construção de novas.

Moscou, em particular, vem aumentando e aprimorando sua presença militar no Ártico desde 2013, em parte, por meio da renovação e modernização de suas bases e aeroportos herdados do período soviético. No Ártico foi construído o novo complexo denominado Arctic Clover, com capacidade para 150 homens, permanentemente, e com uma nova pista de aterrissagem que já se tornou operacional.

Quanto à ilha de Kotelny, se encontra o complexo Severny Klever, com capacidade para 250 homens e quartéis-generais da Força-Tarefa do Ártico, também equipada com pista de pouso e sistemas de defesa antiaérea. As duas brigadas destinadas às operações árticas (9 mil homens) possuem sistemas antiaéreos, além de diversos veículos terrestres, incluindo os de transporte de tropas e Mbt (Main Battle Tank).

A guarnição que, recentemente, recebeu atenção especial, é a base aérea de Rogachevo, no arquipélago Novaya Zemlya, onde a Rússia começou a implantar o Mig-31BM, aeronave supersônica de longo alcance, capaz de realizar missões de interceptação, e, também, de interdição.

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Acredita-se que o Ministério da Defesa da Rússia esteja testando as capacidades e o uso do MiG-31 no ambiente ártico e avaliando a viabilidade de outras implantações de baixa temperatura, em bases aéreas e pistas de pouso remotas.

Não está claro se a Rússia pretende prosseguir nessa direção, mas, se este for o caso, a realocação de aeronaves interceptoras de longo alcance para o remoto aeroporto Novaya Zemlya aumentaria muito a capacidade de interdição russa no Ártico, com importantes implicações de segurança para os Estados Unidos e a Otan.

Na verdade, a partir de Rogachevo, os Mig-31BMs, se devidamente reabastecidos em voo para estender seu alcance, podem chegar com segurança à base aérea americana de Thule, na Groenlândia, lar da 21ª Asa Espacial que, com seu radar, é usada para vigilância e alerta precoce para a defesa contra mísseis balísticos intercontinentais, formando, assim parte da cadeia de alerta precoce da North American Aerospace Defense Command (Norad) e da U.S. Strategic Command (Usstratcom).

O Departamento de Defesa dos Estados Unidos está ciente da ameaça de aumento da presença militar russa na região, e, recentemente, disse que está “monitorando de muito perto”. O impulso da Rússia de militarizar a região também responde – e não como um fator secundário – ao desejo de Moscou de proteger sua capacidade nuclear de segundo ataque baseada no Ártico. Desde os dias da União Soviética, os mares gelados do Grande Norte representavam o “bastião” de submarinos de mísseis balísticos russos (SSBN), onde operam.

Os Estados Unidos não se limitam a “ficar de prontidão”, como afirma a Defesa: sabemos que Washington também está modernizando seu “dispositivo ártico”, tentando melhorar as infraestruturas existentes e equipar-se de novos meios (inclusive, fundamentais, quebra-gelos que faltam).

Recentemente, em Thule, engenheiros militares instalaram o que se denomina Mobile Aircraft Arresting System: um sistema de defesa contra caças-bombardeiros, que serve para facilitar as operações de aeronaves de combate, no ambiente ártico, permitindo, assim, sua utilização durante todo o ano.

De acordo com o Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS), o aumento das atividades e exercícios militares russos no Ártico Ocidental, bem como os testes de novas capacidades de mísseis hipersônicos no Mar Branco, sugerem que a postura de Moscou pode não ser estritamente defensiva e limitada ao seu “bastião”.

Analistas norte-americanos observam que raramente se passa uma semana sem um novo desdobramento, exercício, teste de míssil, operação aérea ou patrulha naval por Moscou, mas, embora a observação seja correta, deve-se lembrar que, mesmo no lado oposto, o ritmo dos exercícios, e, acima de tudo, o das patrulhas navais e aéreas aumentou drasticamente em pouco tempo, causando um mecanismo perverso de perseguição mútua.

O certo é que ambos os países, assim como os demais presentes (ou não) na região, têm uma política em vigor para o Ártico que não é apenas de natureza civil, mas que, necessariamente, prevê a maior presença de meios militares, para defender as recíprocas exigências.

Casos que lembram muito os de outras nações em outras áreas do globo, atestando que, há anos, existe um embate entre duas “cosmovisões”: uma voltada para a “nacionalização” dos espaços (mar ou ar), a outra, ao contrário, defendendo o direito à liberdade de navegação a qualquer custo.

 

Edoardo Pacelli é jornalista, ex-diretor de pesquisa do CNR (Itália) e editor da revista Italiamiga.

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