Soberania e dependência: reflexões para um novo modelo civilizacional

Entenda o impacto da Segunda Guerra Mundial na história moderna, as políticas civilizatórias e as mudanças que surgiram após 1945

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Mapa do Brasil
Mapa do Brasil (foto de Silvana Carlos na Unsplash)

O termo altermundialização expressa o caráter multiforme de um movimento que pretende suscitar valores como a democracia, a justiça econômica e social e a proteção ao meio ambiente e aos direitos humanos a fim de estabelecer condições para uma mundialização democrática, controlada e solidária. Os termos altermundialização e altermundialismo foram criados em 2002, na Bélgica e na França, tendo como inspiração o slogan do Fórum Social Mundial de Porto Alegre (2001), realizado no Brasil: “Um outro mundo é possível”

Antonio David Cattani, Jean-Louis Laville, Luiz Inácio Gaiger e Pedro Hespanha, Dicionário Internacional da Outra Economia, 2009

A rendição do Japão, em 2 de setembro de 1945, marcou o fim da Segunda Guerra Mundial. Menos de 2% da atual população do planeta nasceram antes do fim daquela guerra e, como o autor deste artigo, têm, em 2025, mais de 80 anos. E viveram muitas mudanças tecnológicas, econômicas, políticas e sociais.

Dentre os países maiores e mais ricos de então, os Estados Unidos da América (EUA) foram dos que menos sofreram, pois estavam fora dos cenários de guerra, como os da Europa e os da Ásia. E tiveram também a iniciativa de criarem organismos internacionais para administrar a paz, a ordem, a economia mundial e o desenvolvimento das nações, que veio a ser denominado Sistema Bretton Woods. A saber: a Organização das Nações Unidas (ONU), em 24 de outubro de 1945; o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial (BIRD), em 27/12/1945; o Acordo Geral de Tarifas e Comércio (GATT, 1947); o Plano Marshall (1947); a Organização dos Estados Americanos (OEA, 1948).

Deste modo, quando surge o primeiro conflito bélico envolvendo diversos países – Israel, Arábia Saudita, Egito, Síria, Jordânia e Iraque – Guerra árabe-israelense, em 1948/1949, os EUA não apenas eram potência militar atômica, como já assumiam posição de destaque político e econômico entre as nações.

Desde 1900, início do século 20, e 1990, fim do poder industrial, o mundo se dividiu pelas ideologias capitalista e socialista, pelas ações do movimento sionista e pelo domínio das reservas de petróleo, a mais poderosa e menos onerosa fonte de energia primária estocável. Foram as principais razões das guerras. Também alteraram os referenciais civilizatórios neste primeiro quartel do século 21, e que, certamente, mudarão o mundo a partir da próxima década.

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Breve recordação dos anos pré “crises do petróleo” – o modelo bélico

O início do século 20 se dá com a proeminência do petróleo, então com os EUA sendo seu principal produtor e utilizador e a Standard Oil, de John D. Rockefeller, como sua maior empresa. Mais adiante, entre 1940 e 1970, surge o Cartel das 7 Irmãs, com as estadunidenses Exxon, Mobil, Chevron, Gulf, Texaco e as europeias BP e Royal Dutch Shell.

Até 1922, os EUA foram autossuficientes na produção de petróleo; ao passarem a importadores, articularam o Acordo de Achnacarry (1928), para controle do preço do barril de petróleo, que só foi alterado com a criação da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), em setembro de 1960, e de onde surgiram as Cinco Irmãs (ExxonMobil, Chevron, Shell, BP e TotalEnergies).

Mas foi o controle do petróleo, com a expansão sionista apoiada pelos EUA, o responsável pelas guerras denominadas “Crise do Suez” (Israel vs Egito, 1956), “Guerra dos Seis Dias” (Israel vs Egito, Jordânia e Síria, 1967) e “Guerra do Yom Kippur” (Israel vs Egito e Síria, 1973). Em 1950, a produção mundial de petróleo foi de 5,3 bilhões de barris, ou 14,5 milhões de barris por dia (bpd). Em 1960, a produção cresceu para 21,6 milhões bpd: 9 milhões dentro da Opep e 12,6 milhões no resto do mundo.

Os movimentos de descolonização na África e na Ásia, após a Segunda Guerra, possibilitaram o crescimento da investigação exploratória para descoberta do petróleo no Oriente Médio e na África. Considerando que o primeiro poço visando à descoberta de petróleo, na Era Moderna, foi perfurado em 1846, em Bibi-Heybat, próximo de Baku, no Azerbaijão, vê-se como se espalhou sua procura pelo mundo e os bons resultados alcançados.

Somente no século 19, pesquisou-se na Romênia, na Pensilvânia (além da Califórnia, Colorado, Ohio, Kentucky e Virgínia Ocidental nos EUA), no Canadá, na Pérsia, na Escócia, na Polônia, na Austrália, no México, Argentina, Peru e mesmo no Brasil, em São Paulo, por Eugênio Ferreira de Camargo, entre 1892-1896, ainda que sem sucesso.

Porém guerras com pretextos ideológicos (capitalismo versus socialismo), no século 20 , após a Segunda Guerra Mundial, tivemos a “Guerra da Coreia” (1950-1953), quando o Japão, tendo colonizado a Coreia, foi derrotado pelo movimento de libertação nacional que a mídia neoliberal sempre ocultou, liderada pelo seu herói nacional, Kim Il Sung, e a União para Derrotar o Imperialismo (UDI, 17 de outubro de 1926). Esta guerra, uma mácula na História dos EUA, foi descrita no livro de memórias de Kim Il Sung, No Transcurso do Século, editado no Brasil em 2012, com as seguintes palavras:

“Com pouco mais de dez anos, o espírito patriótico me impeliu às ruas pavimentadas de Jilin, lançando gritos contra o Japão e experimentando os azares da luta clandestina que me obrigava a burlar a perseguição inimiga. Sob a bandeira da luta antijaponesa e confiando no dia da restauração do país, tive que percorrer milhares de quilômetros dormindo ao relento, exposto às nevascas nos bosques do monte Bektu e sustentando combates desiguais contra um inimigo centena de vezes superior em número. Depois da libertação, tive que passar noites em claro para salvar o destino da Pátria dividida. E, para defender o País que levantei para o povo, tive que voltar a superar inenarráveis desgraças e calamidades. Em nenhum momento retrocedi ou fraquejei. Se nesse caminho da minha vida pude viver e lutar com firmeza sem largar o timão, foi porque os companheiros e o povo confiaram em mim e me ajudaram com sinceridade”.

Neste modelo civilizacional bélico, coberto pelo manto da liberdade e da democracia, tivemos a “Guerra do Vietnã” (EUA versus Vietnã, de 1º de novembro 1955 a 30 de abril de 1975), a “Invasão da Baía dos Porcos” (EUA versus Cuba, 1961), a “Guerra Sino-Indiana” (China versus Índia, 1962), a “Guerra Indonésia-Malásia” (Indonésia versus Malásia, 1963 a 1966), a “Guerra Indo-Paquistanesa” (Índia versus Paquistão, 1965).

Pouco conhecida no Brasil, deve-se entender a “Guerra Indo-Paquistanesa” como outras surgidas ainda hoje, como consequência e impulsionada pelo fim do Império Britânico, aquele domínio colonial onde o Sol jamais se punha, e que não foi abandonado de boa vontade pelo Reino Unido, ainda hoje dominando parte da Irlanda e a Escócia, e que foi a grande mestre dos EUA.

Nações há no Novo Mundo – Estados Unidos da América, Canadá, Austrália – que são meros transplantes da Europa para amplos espaços de além-mar. Não apresentam novidade alguma neste mundo. São excedentes que não cabiam mais no Velho Mundo e aqui vieram repetir a Europa, reconstituindo suas paisagens natais para viverem com mais folga e liberdade, sentindo-se em casa. Somos povos novos ainda na luta para nos fazermos a nós mesmos como um gênero humano novo, que nunca existiu antes

Darcy Ribeiro, O Povo Brasileiro – A formação e o sentido do Brasil, 1995

A “Guerra Indo-Paquistanesa” de 1965 foi um conflito armado pelo controle da Caxemira, parte da disputa de longa data por aquela região de maioria muçulmana, que foi dividida entre Índia e Paquistão após a independência em 1947. A guerra foi desencadeada quando o Paquistão lançou a Operação Gibraltar, a tentativa de infiltrar grupos armados na parte indiana da Caxemira para provocar revolta contra o governo indiano. A guerra terminou com um cessar-fogo mediado pela União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), resultando em muitas baixas em ambos os lados.


A vitória neoliberal financeira e as transformações no século 21

Na obra citada de Darcy Ribeiro, ele conclui o Prefácio com o seguinte parágrafo: “Não se iluda comigo. Além de antropólogo, sou homem de fé e partido. Faço política e faço ciência movido por razões éticas e por um fundo patriotismo. Não procure, aqui, análises isentas. Este é um livro que quer ser participante, que aspira influir sobre as pessoas, que aspira ajudar o Brasil a encontrar-se a si mesmo”.

Duas décadas – 1980/2000 – foram suficientes para desiludir os que colocaram no neoliberalismo as vantagens da extrema liberdade repousada na moeda, a cada dia mais virtual e menos representativa de ativos reais, e numa riqueza, sempre destinada a percentagem cada vez menor de pessoas. Resolveu-se denominar “Guerra do Afeganistão” o que o jornalista e analista político Thierry Meyssan intitulou “11 de setembro de 2001 Uma Terrível Farsa” (2003).

Quase 30 anos antes, em 15 de agosto de 1971, Richard Nixon, então presidente dos EUA, determinou que não fosse mais possível trocar o dólar estadunidense por ouro como fora determinado no conjunto das medidas do Sistema Bretton Woods. Dez anos depois, o Prêmio Nobel de Economia (1981) James Tobin apresenta a “Taxa Tobin”, como um Imposto sobre Transações de Moedas Estrangeiras, com objetivo de penalizar a especulação de curto prazo e trazer estabilidade ao Sistema Financeiro Internacional. Ideia popularizada a partir de Editorial, em 1997, do jornal Le Monde Diplomatique, por seu editor Ignacio Ramonet.

Muitas iniciativas públicas e privadas no sentido da defesa e da oposição do neoliberalismo foram apresentadas de 1980 a 2000. A primeira e mais importante saiu da Inglaterra para ser expandida com apoio dos EUA, de Margaret Thatcher para Ronald Reagan, a desregulação financeira, apenas a moeda correria o mundo sem passaporte ou sem pagamento de Imposto e Nota Fiscal de Exportação.

Na oposição, o Primeiro Encontro Intercontinental (1996), conhecido como o “Encontro Intergaláctico”, realizado em Chiapas (México, fronteira com a Guatemala), de 27 de julho a 3 de agosto de 1996, quando representantes de 40 países se reuniram para discutir a resistência ao neoliberalismo.

Igualmente representativas foram diversas manifestações, desde 1999, da Associação pela Tributação das Transações Financeiras em Apoio aos Cidadãos (ATTAC), sob o slogan “O Mundo Não Está A Venda”, criticando o modelo de globalização que privilegia o mercado financeiro em detrimento das pessoas.

Após a morte de Mao Tse Tung (1976), a governança capitalista de Deng Xiao Ping assumiu a República Popular da China, de 1978 a 1992. A dissolução da URSS ocorreu em 26 de dezembro de 1991, passando Boris Iéltsin a governar a Federação Russa, desta data até dezembro de 1999. Zhao Zi Yang e Jiang Zi Min dirigiram a China ainda no final da governança de Deng Xiao Ping até Hu Jin Tao (2003-2013). Iéltsin entregou a governança da Rússia a Vladimir Putin, que a dirige direta ou indiretamente até atualmente.

O que estamos assistindo desde 2000 é a mudança civilizacional do mundo, conduzida pela China, com apoio da Rússia e dos Brics, cada vez mais alargados (Belarus, Bolívia, Cazaquistão, Cuba, Malásia, Nigéria, Tailândia, Uganda e Uzbequistão) além dos iniciais Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul; a Confederação dos Estados do Sahel (AES) – Burkina Faso, Mali e Níger; a Aliança do Sahel: Burkina Faso, Mali, Mauritânia, Níger e Chade; o Fórum de Cooperação China-África (FOCAC) das mais proeminentes da cooperação sino-africana, com grande impacto na economia e no desenvolvimento do continente.

O Ocidente não sabe reconhecer a África, ainda vista como colônia e países para mão de obra escravizada. Mas a África entrou no século 21 com alguma experiência internacional e com menos ilusões idealistas e ideológicas.

É o Ocidente que se apega a ideologias cada vez menos significativas para populações que olham a China como um imenso país, populoso de quase 1 bilhão e meio de habitantes, praticamente sem analfabetos, sem morador de rua, dispondo de amplo atendimento à saúde, com exemplar sistema de transporte urbano e pleno gozo de direitos, onde eventos como o Massacre da Praça da Paz Celestial (Tiananmen), em 1989, ficaram no passado, numa história que não se repetirá.

Xi Jinping, governando desde 2013, tem demonstrado extraordinária capacidade dirigente e habilidade para enfrentar as mais agressivas oposições sem apelar para guerra, como o fizeram os EUA após a Segunda Guerra Mundial, ou, mais precisamente, desde 1823, com a Doutrina Monroe.

A China recupera o pensamento que está no íntimo de todos seus cidadãos, e em Os Analectos, de Confúcio (552 a.C.-489 a.C.): aprender e reexaminar frequentemente é insistir no sentido prático do conhecimento. Na prática dos ritos destaca-se a harmonia. E ela é a fonte de toda a atividade humana. E aquele que governa pela virtude é comparável à estrela polar, imutável em seu eixo, mas centro de atração de todos os planetas.

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