Sobre pibinhos, bananas, PIBs privados e outros absurdos

Na República das Bananas não poderia ser diferente. Em um total desrespeito com a imprensa e, por tabela, com o povo brasileiro, o presidente Jair Bolsonaro, invês de explicar o que gerou o pífio crescimento da economia brasileira, distribui bananas aos jornalistas. Mais ridículo ainda é separar o PIB público do privado, o que os economistas ainda estão tentando entender. Fato: o Brasil não cresce e não vai crescer muito acima do 1% ao ano. O governo mostrou total despreparo em seu primeiro ano e a expectativa é que nada deve mudar neste segundo.

Piadas sem graça à parte, as projeções são desalentadoras. Os dados divulgados pelo IBGE são a evidência disso. Segundo o instituto, o PIB cresceu somente 1,1% em 2019. O percentual ficou dentro das expectativas do Guedes de hoje e de ontem, o qual declarou em maio do ano passado de que o PIB ficaria em torno de 1,5%, mas demonstra uma desaceleração da economia em relação a 2017 e 2018, quando cresceu 1,3%. É preciso lembrar ainda que, em janeiro do ano passado, os economistas estavam apostando na força do novo governo e projetavam um crescimento econômico de 2,5%.

Pela ótica da demanda, houve aumento no consumo das famílias (1,8%), e na formação bruta de capital fixo, em 2,2%. O consumo do governo recuou 0,4%. É daí que se tira da cartola a diferença entre o PIB público e privado e se desvia do real debate: a economia brasileira não reage e nem tem motivos para crescer.

De falácias e promessas, o inferno está cheio e agora o discurso do governo é de que o “PIB privado” cresceu, mas o governo está em contingenciamento de gastos. Segundo cálculos da Secretaria de Política Econômica, a contribuição do setor privado para a retomada do crescimento foi de 1,81% do PIB de 2019 ante 1,43% registrado no ano anterior, ou seja, a iniciativa privada acelerou o crescimento. Enquanto isso, a do setor público recuou 1,11% ante um avanço de 0,89% na comparação anual. Para chegar a esta conclusão, o Ministério da Economia subtrai o que é público na formação bruta de capital fixo (FBCF) e soma o consumo das famílias.

Nas entrelinhas, o que querem defender é que se o controle fiscal não fosse necessário, a economia andaria de vento em popa. A prática de separar os PIBs não é nem um pouco usual, mas, neste caso, se faz necessária para amenizar as críticas. A propaganda da Secom no Twitter destacou que “no modelo adotado pelo do governo do presidente @jairbolsonaro, a exemplo de países mais desenvolvidos, o Estado deixa de ser o protagonista na economia do país e dá espaço à iniciativa privada, o que se traduz em crescimento sustentável, sem manipulação do poder público”, diz a legenda do infográfico divulgado que traz a queda de 2,25% no PIB público e alta de 2,75% do PIB privado.

É muito difícil para não dizer quase impossível separar o PIB da forma como o governo quer, como explica o economista Manoel Pires, da FGV/IBRE. “O conceito de PIB está muito relacionado à oferta (ou produção), mas o cálculo do PIB do governo, tal como feito, não apresenta correspondência pelo lado da oferta (nem o do setor privado). Essas coisas não são separáveis nesses termos. Quando o governo utiliza recursos para investir, de maneira geral, quem produz o bem de capital ou faz a construção é o setor privado, que é contratado para produzir esse tipo de bem ou de serviço. Por essa razão, essa abordagem está errada. Não existe PIB governo”.

O tal PIB do governo recuando até passaria batido se o problema fiscal brasileiro tivesse sido resolvido. Mas, na verdade, a situação está bem longe do que Guedes apregoava na campanha eleitoral. Para ele era “factível” zerar o déficit fiscal em 2019. “Nós vamos tentar. É factível, claro que é factível. Controle de gastos”, declarou, ao ser questionado se dava para resolver o problema no primeiro ano da gestão. Não deu! A meta de déficit fiscal para este ano é de R$ 124 bilhões.

Ana Borges
Colunista.

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