Taxas de juros elevadas, incerteza na expansão da oferta de crédito e recorde de inadimplência entre as pessoas físicas, número alto de insolvência entre as jurídicas, a pressão em busca de liquidez e performance das instituições financeiras são alguns dos elementos citados no estudo “Panorama do Mercado de Ativos Problemáticos 2026”, focado na visão de cedentes e cessionários.
O estudo, da EY-Parthenon, braço de estratégia e transações da EY, mostra que a alienação de ativos problemáticos vem se tornando estratégica para mitigar desafios, principalmente aumento da liquidez e melhora da performance do balanço.
Conceitualmente o cedente é quem transfere um direito ou crédito, enquanto cessionário é quem recebe esse direito em um contrato de cessão. O cedente sai da relação, e o cessionário assume o lugar dele como novo credor. O devedor original (cedido) deve ser notificado para pagar ao cessionário.
A edição de 2026 da pesquisa foi realizada entre fevereiro e março de 2026 de forma anônima. Participaram especialistas atuantes em venda de créditos (cedentes), compra de créditos (cessionários), estruturação de operações (securitizadoras) e gestão de recursos de terceiros. “O perfil dos respondentes indica relevância dos participantes no setor: 50% possuem carteiras sob gestão de até R$ 5 bilhões, 36% administram carteiras entre R$ 5 bilhões e R$ 30 bilhões, e 12% já operam com portfólios superiores a R$ 30 bilhões em Ativos Problemáticos”, cita Jamiu Antunes, sócio líder de Estratégia e Transações para Serviços Financeiros da EY-Parthenon.
Ele ressalta que além das questões macroeconômicas, houve duas mudanças regulatórias recentes que impactam diretamente o sistema financeiro: a resolução do Conselho Monetário Nacional (CMN n° 4966), que é a regra de provisionamento dos bancos, e a resolução conjunta 14/2025, na qual o Banco Central aumentou limite de capital mínimo das instituições reguladas. “Os resultados do estudo reforçam que o interesse do mercado está se diversificando. Além das carteiras de créditos financeiros, ativos não tão comuns vêm ganhando destaque como Carteiras de Crédito não Performadas, Carteiras de Recebíveis, Legal Claims, Precatórios e Títulos Judiciais e Carteiras de Ativos Retomados como garantias. Todos esses podem ser considerados ativos problemáticos. Isso sugere o amadurecimento do setor e abertura a estruturas mais complexas envolvendo diferentes perfis de risco e agentes”, explica.
Dados do Boletim Econômico Serasa Experian de janeiro de 2026 indicam que o Brasil tem 80,6 milhões de consumidores e 8,9 milhões de empresas inadimplentes. O estudo da EY-Parthenon aponta que a busca por liquidez é o principal motivador para a cessão de crédito, com 29,5% das respostas. O executivo explica que “a necessidade de transformar ativos em caixa de forma rápida permanece o fator predominante”.
Em segundo lugar, com 18,8% das respostas, vem o impacto sobre a performance do balanço, reforçando a relevância de ajustes contábeis e de indicadores financeiros. Com 13,4%, temos três pontos: aspecto fiscal, enquadramento de risco e redução de capital. Por fim, a falta de estrutura operacional aparece com 11,6%, indicando que limitações internas de gestão ainda têm papel relevante, embora secundário, na decisão de ceder créditos.
“Agora quando questionados sobre os principais motivadores para vender ativos problemáticos, os descontos elevados e o potencial de retorno superior, que podem gerar impacto direto na rentabilidade e na captura acelerada de valor, aparecem em primeiro lugar com 40%”, revela Antunes.
Depois, a maximização do negócio de recuperação de crédito, que reforça o caráter
estratégico desses ativos, com impacto positivo na escala, eficiência e previsibilidade das recuperações, vem com 30%. A busca por alternativas de investimento e diversificação que refletem um movimento de mitigação de risco, contribuindo para portfólios mais resilientes e descorrelacionados, fecha o top 3 com 21%. E, em quarto e último lugar, a oferta recorrente de carteiras, que sustenta um fluxo constante de oportunidades, impactando a continuidade das estratégias de alocação, com 9%.
Oferta de ativos
Considerando exclusivamente o universo de Carteira de Créditos não performadas, 67% dos respondentes demonstraram preferência por ativos associados a pessoas jurídicas, como Single Name, Corporate, Middle Market e de origem falimentar. “Os ativos associados a PJs reforçam outra característica importante: aumento do tíquete médio das operações”, pontua Antunes. Segundo a pesquisa, 30% dos entrevistados esperam transações entre R$ 50 milhões e R$ 150 milhões nos próximos 12 meses e outros 30% entre R$ 150 milhões e R$ 300 milhões. Já 18% esperam transações acima de R$ 300 milhões. Um grupo menor, de 21%, indica transações de até R$ 50 milhões.
Quando questionados sobre a faixa de desconto médio esperado nos próximos 12 meses, 36% indicam operações com deságio entre 80% e 90% sobre o valor de face, enquanto 9% esperam um desconto entre 95% e 99%; 18% entre 90% e 95%; 18% entre 70% e 80%; e também 18% para abaixo de 70%. Em relação à taxa de retorno esperada nos próximos 12 meses, 38% dos entrevistados apontam para patamar superior a 30%, e outros 38% ficam entre 20% e 30%. Já entre 10% e 20%, a porcentagem cai para 16% das respostas e, para abaixo de 10% de taxa de retorno, fica em 9%.
“Em conjunto, esses indicadores reforçam que o mercado está se posicionando para operações mais sofisticadas, com foco em ativos corporativos, maior tolerância ao risco e busca por retornos mais elevados”, aponta Antunes.
Oportunidades
Segundo Antunes, esse mercado também apresenta desafios de operacionalização da cessão de crédito. “Sempre reforçamos aos clientes que as oportunidades aparecem nesse momento, então é preciso olhar para essas barreiras sob uma nova perspectiva”, ressalta o especialista. Entre as complexidades mais citadas pelos respondentes estão execução de garantia (18%); negociação com devedores (16%); falta de base de dados organizada com relatórios analíticos e preditivos (15%); e capacitação da equipe (14%).
Ele acrescenta que “existem possibilidades de melhoria durante toda a jornada, desde a negociação com cliente, execução de garantias até a formação e treinamento de equipes. O objetivo final deve ser a redução do tempo da cobrança. Um ponto chave nessa equação é o uso de tecnologia para automação como a Inteligência Artificial”.
A maioria dos entrevistados (40%) aponta o emprego da IA para aumentar a eficiência dos modelos aplicados no acompanhamento da evolução do ativo, 21% para “hiperpersonalizar” a operação de crédito, 19% para criar novos produtos, a partir do conhecimento de dados compartilhados via Open Finance, 16% para melhorar o acesso ao crédito por meio da incorporação de novos dados antes não considerados e 3% para outros usos, como monitoria automatizada ou redução do tempo médio de atendimento.

















