Sotaque

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Uma comissão formada por órgãos especializados – Crea, Coppe, UFRJ e Clube de Engenharia – está analisando uma nova possibilidade para explicar o derramamento de óleo pela Petrobras na Baía de Guanabara. A comissão vai examinar a hipótese, levantada pela Aepet,  de que o acidente poderia ter sido fruto de sabotagem para enfraquecer a imagem da estatal junto à opinião pública, o que facilitaria a privatização da empresa.
A hipótese ainda necessita de comprovação prática, mas a Aepet a justifica apresentando dados grosseiros sobre a manipulação da opinião pública pela mídia “chapa branca”, como o superdimensionamento de fatos. A associação lembra que, de acordo com a Petrobras, o acidente vitimou 71 pássaros, um sétimo dos 500 vendidos semanalmente nas feiras de Acari e Caxias e que, segundo os ecologistas, em 90% dos casos acabam mortos, sem 10% do mesmo escarcéu.
Além disso, o 1,3 milhão de litros de óleo derramados pela estatal se tornam um pingo d”água – caudaloso, registre-se – no oceano diante das 400 toneladas de esgoto (equivalente a um Maracanã de carga orgânica in natura) despejadas diariamente no lugar. A baía também é vitimada, diariamente, por 300 quilos de metais pesados, altamente poluentes, não degradáveis e não retiráveis; 64 toneladas de carga orgânica industrial; seis toneladas de lixo doméstico; e sete toneladas de óleo.
Ecológica, esta coluna tem ojeriza a maus tratos à natureza, estatais ou privados, mas não deixa de estranhar que o acidente envolvendo o derramamento de óleo da Texaco no Pará tenha chegado às páginas dos “jornalões” e das TVs com um mês de atraso e apenas para tapar o buraco provocado pela falta de notícias no Carnaval. O tratamento diferenciado dedicado aos dois acidentes revela que, independentemente, da comprovação da hipótese levantada pela Aepet, grande parte da mídia do País tem como prática satanizar a sujeira estatal e jogar para debaixo do tapete, ou para dentro do cofre, as vísceras do privado, principalmente, se este tem sotaque não nativo.

Imprensa BO
A mídia “chapa branca” está se especializando em uma espécie de “jornalismo de resultados”, onde vale destacar quaisquer dados com único objetivo de pintar um irreal quadro róseo da ação do neoliberalismo. No final do ano passado e início deste insistia-se que a produção industrial estava se recuperando – comparando números de dezembro com os de novembro e deste mês com outubro, para justificar essa “tendência”. Talvez para essa parte da mídia o Natal seja apenas uma festa cristã em que as pessoas distribuem abraços e solidariedade, em nada influindo para uma elevação sazonal da produção. Chega janeiro e – surpresa – as demissões aumentam e as vendas caem. Coerente em noticiar o que lhe interessa, a mídia “chapa branca” saca rápido da cartola comparação – tecnicamente mais correta – entre janeiro de 2000 e o mesmo mês de 99 e 98. Números positivos na manchete, ética e interesse do leitor vão juntos para as cucuias.

Desmonte
A informação é do vice-diretor de comunicações da Associação de Engenheiros da Petrobras (Aepet), Argemiro Pertence. Nos últimos dez anos – Fernandos I e II – as direções da Petrobras provocaram a demissão de 22 mil empregados, muitos dos quais com média de 40 cursos de especialização ao longo da vida profissional.

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