‘Suportabilidade’

‘Até quando o planeta vai nos suportar?”, pergunta senador.

O inferno astral do presidente da República Federativa do Brasil não estaria completo, se faltasse aquela a quem ele em um dia de dezembro de 2019 chamou, depreciativamente, de “pirralha”. Trata-se da ativista sueca Greta Thunberg (nascimento: 3 de janeiro de 2003, em Estocolmo, Suécia). Na falta de argumentos, ante a denúncia da ativista sueca (de 16 anos então) do assassinato de duas lideranças do povo guajajaras, o presidente apelou para a tentativa de desmoralizar a interlocutora e junto com ela a imprensa que a noticia.

A ativista apresentou-se por meio remoto da sessão do Senado, de 10 de setembro, no âmbito das atividades da Comissão de Meio Ambiente, presidida pelo senador Jaques Wagner. Recentemente, ela doou prêmio de US$ 100 mil que recebeu da ONG dinamarquesa Human Act para apoiar a entrega de imunizantes contra Covid-19 nos países mais pobres. A ONG contribuiu com mais US$ 100 mil. Greta e Human Act lançaram uma campanha para apoiar o Fundo das Nações Unidas para a Infância, Unicef, no combate contra a pandemia de Covid-19.

Falou também na sessão do Senado o governador Renato Casagrande (ES), dizendo que, como o governo brasileiro deu um passo atrás na questão ambiental, é preciso que alguém de um passo à frente, daí a sessão do Senado. Apoiou a necessidade de se regulamentar o mercado de carbono e de se reiterar as metas fixadas como compromissos do Brasil no Acordo de Paris.

Outras contribuições foram aportadas por Fiona Clauder, embaixadora da ONU junto à COP 26, a se realizar em 2022, em Glasgow, falando também da importância de observar o conjunto de objetivos e metas do Acordo de Paris. Haveria um descompasso entre as mudanças sentidas em várias partes do planeta e as medidas preventivas ante o aquecimento. Falou também da necessidade de conciliar medidas práticas de curto prazo com o planejamento estratégico.

David King, presidente do Centro de Reparo Climático da Universidade de Cambridge falou em seguida, abordando a questão dos gases causadores do aquecimento, especialmente o metano, além do carbono. Falou ainda que é necessária uma revisão nos costumes (como o da ingestão de carne vermelha). Boa parte do metano vem dos rebanhos e das plantações de arroz.

Falou o presidente da CNBB, Dom Walmor Oliveira Azevedo, com a hipótese de que o déficit de chuvas atual já esteja na conta do desflorestamento da Amazônia, diminuindo a umidade dos “rios que voam”. Ele enfatizou a necessidade de se buscar outros estilos de vida.

A liderança indígena e estudante de Biologia Samela Sateré Mawe falou a seguir, denunciando projetos de lei que os povos indígenas não vão aceitar. Falou do antagonismo entre índios (principais defensores da Terra) e garimpeiros/madeireiros/grileiros. Participaram também as senadoras Zenaide Maia (denunciou que o governo brasileiro em 2,5 anos liberou o uso de1.144 agrotóxicos) e Eliziane Gama.

Bem humorado, participou o senador Espiridião Amin, apresentando o conceito de “suportabilidade,” em substituição ao de sustentabilidade. E perguntava “até quando o planeta vai nos suportar?”. Citando Leonel Brizola, falou das perdas internacionais, que se verificam nas relações de troca (um navio cheio de minério de ferro por um terço de um container de chips), e da defesa da sua tese de doutorado recente, no tema.

Paulo Márcio de Mello
Servidor público professor aposentado da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

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