Susana Vieira é Shirley Valentim

Por Paulo Alonso.

Sempre de bem com a vida, ostentando sorriso largo e olhar sedutor, mesmo enfrentando problemas de saúde, a atriz Susana Vieira está de volta aos palcos, em um novo desafio em sua vitoriosa carreira. Ela ficará em cartaz, até o dia 31 de outubro, no palco do Teatro XP Investimentos, no Rio, apresentando a peça Uma Shirley Qualquer, adaptação de Miguel Falabella para o clássico Shirley Valentine, de Willy Russel.

Esse texto, precioso, estreou, em 1986, em Londres, e ganhou o Laurence Olivier Award, nas categorias Melhor Comédia e Melhor Atriz. Três anos após, foi parar na Broadway com a mesma atriz, garantindo a Suzanne Collins um Tony, por sua atuação. Naquele mesmo ano, a peça chegou ao cinema, rendendo à Collins indicações ao Oscar e ao Globo de Ouro.

Criativo e um dos diretores mais impressionantes da atualidade, Miguel Falabella resolveu, nessa montagem, batizar a protagonista de Shirley Valentim, e coube a Susana Vieira encarnar, com muito charme e talento, o papel dessa mulher solitária, casada com um homem pouco afável e que só lhe dirige a palavra para perguntar o que tem para o almoço ou o jantar e mãe de filhos que só se lembram dela quando os problemas acontecem.

Susana Vieira, ou melhor Shirley Valentim, no decorrer da encenação, que, pelo grau de interesse despertado na plateia, passa até rápido demais, vai mostrando ao público, por meio desse monólogo muito bem construído, histórias engraçadas e várias das suas angústias mais íntimas, alternando, com raro brilho, momentos de excitação das boas lembranças vividas, com instantes de profunda melancolia. Os gestos e os olhares da personagem vão se transformando, de acordo com o humor que vai sendo percebido.

A todo momento, reflexiva, Shirley Valentim se questiona, querendo descobrir onde teria ido parar aquela jovem do passado tão cheia de sonhos, tão alegre e tão exuberante, tão apaixonada pela vida. Angustiada, teme pelo futuro, uma vez que se transformou em uma mulher solitária e até amarga. Talvez, por essa razão, o maior desejo de Shirley seja o de viajar, preferiria ir à Grécia, sozinha, para, assim e quem sabe, se reencontrar com ela própria.

Indo e vindo no apartamento em que reside, a personagem, nesse vaivém constante, tem, nesse cenário, as paredes do imóvel como suas únicas e mais íntimas confidentes.

Esse papel não é novo na carreira de Susana Vieira, que já o havia interpretado, em 2016 e 2017, com adaptação e direção do mesmo Falabella. Nessa reestreia, e agora sob a batuta do diretor Tadeu Aguiar, o espetáculo comemora os 60 anos de carreira da atriz e, ainda, a reabertura do Teatro XP Investimentos, no Jockey Clube, na Gávea. Shirley fará turnê nacional, começando por Vitória, Belo Horizonte e Campinas.

No teatro, o maior sucesso de Susana Vieira foi na peça A Partilha, do mesmo Miguel Falabella. A montagem, que ainda contava com Arlete Salles e Natália do Vale, ficou seis anos em cartaz com grande sucesso e foi apresentada em quase 20 países.

Atuou, também, em Romeu e Julieta, de William Shakespeare; As tias, de Doc Comparato; A dama do cerrado, de Mauro Rasi; A vida passa, de Miguel Falabella; e em Água Viva, dirigida por Maria Pia Scognamiglio, baseado no livro de Clarice Lispector, um monólogo elogiado pela crítica especializada, e que rodou o país lotando teatros. Em 2006, estreou a peça A Namoradinha do Brasil, em Petrópolis, ao lado da atriz Bárbara Borges. Quatro anos após, interpretou Maria, na Paixão de Cristo, no maior teatro ao ar livre em Nova Jerusalém, em Pernambuco.

Em 2012, Susana Vieira voltou aos palcos com a comemoração dos 20 anos de A Partilha, com o elenco original e direção de Miguel Falabella. Em 2015, ela esteve em cartaz com a peça Barbaridade, ao lado de Osmar Prado, Edwin Luisi e Marcos Oliveira.

Susana Vieira também é professora de teatro, dando aulas e participando de workshops em outros países, como Angola, onde ela lecionou no curso Actores é Horizonte Njinga Mbande, além de bailarina clássica.

O pai de Susana, Marius Gonçalves, era militar e foi representante na embaixada do Brasil, em Buenos Aires; a mãe, Maria da Conceição Vieira Gonçalves, trabalhava no consulado. Como acontece com famílias de diplomatas, Susana viveu em vários países, tendo aprendido vários idiomas. Sua primeira infância foi entre Montevidéu, Buenos Aires e Londres. No Uruguai, estudou na tradicional Escuela Baron de Rio Branco, em 1954.

Foi em Buenos Aires que ela estudou balé, apresentando-se várias vezes no tradicional Teatro Colón. E foi por causa da dança que, já no Brasil, apareceu num programa da TV Tupi, de São Paulo, em 1960. Ganhando cachê e sendo contratada, começou a participar de vários programas como TV de Vanguarda e TV de Comédia.

Sua carreira na televisão é coroada de grandes sucessos, e na TV Globo pertence ao elenco fixo da emissora já há 50 anos. A Regra do Jogo, Babilônia, Chapa Quente, A Próxima atração, Guerra dos Sexos, Andando nas nuvens, Senhora do destino, Éramos seis e Duas Caras são algumas das novelas nas quais atuou.

Mulher guerreira, Susana Vieira, que se trata de uma leucemia, sofreu depressão nesse período afastada do seu ofício e de pessoas próximas. “Fiquei muito triste, como todo mundo. Entrei na tristeza, na solidão. Sem família, sem beijo, sem abraço, sem sexo, sem trabalho, sem nenhuma perspectiva pela frente, sem vacina…”, declarou recentemente no programa Altas Horas.

Vencendo a doença e de volta ao trabalho, Susana Vieira brilha como Shirley Valentim, levando ao público histórias do cotidiano da sua personagem, com talento usual e exuberância de mais uma primorosa interpretação.

 

Paulo Alonso, jornalista, é reitor da Universidade Santa Úrsula.

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