Suspeitas

Um dos inventores da “nova classe média” – aquela na qual se ingressa com renda per capita entre R$ 291 e R$ 1.019 – o presidente do Ipea e ministro interino da Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE), Marcelo Neri, mostra-se incomodado com as atuais mobilizações populares. Reproduzindo a retórica que já levou um pitbull global a se retratar, Neri considera que os protestos não são obra dos “mais pobres”: “Tenho uma suspeita de que não é a mulher negra da periferia. Pessoas que estão na parte superior da distribuição, no lado belga da ‘Belíndia' , talvez tenham razões para não estarem tão satisfeitas”, afirma. A coluna suspeita que Neri tem acompanhando as manifestações apenas pelo filtro de emissoras que, apesar de citarem que “vândalos são minoria”, passam a maior parte do seu noticiário ocultando as maiorias.

A real classe média
O incômodo de Neri, que após a invenção da “nova classe média” ascendeu socialmente rumo à presidência do Ipea, porém, é revelador da miopia política – e consequente surpresa com os protestos – dos que acreditam no mito da forte redução das desigualdades sociais no país, quando os dados do IBGE usados por esses crédulos se limitam a medir as movimentações entre os assalariados. Por metodologia, o IBGE não capta os rendimentos financeiros, oriundos de juros, aluguéis e ações. O próprio presidente do Ipea dá uma pista sobre isso, ao citar que “enquanto uma família chefiada por analfabeto” viu sua renda per capita crescer 88,6% de 2001 a 2011, a de uma família cujo chefe tenha 12 anos ou mais de estudo amargou queda de 11,1% no mesmo período.

Mínimo puxou
Na verdade, houve foi um estreitamento da distância entre os ocupantes do parte mais baixa da pirâmide social e os da parte do meio. E a principal razão dessa redução foi o forte ganho real do salário mínimo, que praticamente dobrou em termos reais em cerca de duas décadas. Oscilação que, como admite o próprio Neri, não foi acompanhada pelo rendimento da classe média, embora esta seja muito heterogênea. E como lembrou esta coluna, em 26 de setembro de 2009, esse economista escrevia, na revista Época, de 4 de março de 2011: “Sempre critiquei os reajustes do mínimo do Governo Lula, mas aprecio o Bolsa Família.” Para, no ano seguinte, já presidente do Ipea, admitir que a Previdência Social foi responsável por 20% da redução da desigualdade social entre 2001 e 2011, contra 13% do Bolsa Família. Ora, como 68% dos aposentados e pensionistas brasileiros recebem apenas o mínimo, foi a política de aumentos reais do mínimo que tanto incomodam Neri a principal responsável pela redução da pobreza.

As margens do rio
De Paris, um amigo da coluna estranha por que a grande imprensa brasileira chama de “vândalos” os desempregados que jogam pedras e quebram algumas vitrines, e, ao mesmo tempo, não chama de “vândalos” os integrantes do Executivo que aprovam gastos evidentemente exorbitantes na construção de estádios não prioritários.
E, embora ressalve que a distância dificulta uma compreensão melhor do que ocorre em terras pátrias, lembra dos versos de Bertolt Brecht: “Chamam de ‘violento’ um rio que desborda as suas margens; mas não chamam de ‘violentas’ as margens que o comprimem…”.
“Estes versos de Brecht não se aplicam maravilhosamente a esta estigmatizacão dos ‘vândalos’ que jogam aqui ou acolá algumas pedras em manifestações, mas esquecem os verdadeiros ‘vândalos’ que são os que aprovaram as dilapidações dos recursos públicos em obras que só beneficiam as empreiteiras privadas?”, indaga.

Atos de vandalismo
A propósito, faz sucesso nas redes sociais material mostrando as fotos dos atos dos “vândalos” da mídia e imagens das consequências dos atos dos “vândalos” nem tão visíveis, que deixam hospitais à mingua, crianças nas ruas, escolas em péssimo estado e moradias recém-construídas já com sérios problemas de rachaduras.

Marginais
Que fique bem claro: esta coluna é contra o banditismo que se aproveita das manifestações legítimas, bem como combate os que ampliam as imagens desses marginais para detonar, de forma sub-reptícia, as reivindicações das ruas.
 

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Marcos de Oliveira
Diretor de Redação do Monitor Mercantil

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