Telefonia 5G: mais que opção tecnológica, uma escolha geopolítica

Por Vladimir de Paula Brito.

Opinião / 18:39 - 6 de jan de 2020

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Assim como aconteceu com o processo de privatização das telecomunicações, no presente momento estamos ante mais uma dessas ocasiões em que opções de cunho estratégico, com profundo impacto de longo prazo sobre a nação, tendem a ser realizadas a partir de impressões imediatistas, pautadas em interesses econômicos momentâneos. Seria mais um caso em que os técnicos constroem caminhos antes que a sociedade consiga tempo para maturar, de fato, para onde deseja ir.

 

Profundas implicações sobre a economia

e o posicionamento político internacional

 

O caso em questão envolve a escolha da plataforma tecnológica que proverá a infraestrutura para as redes de internet móvel de quinta geração, também conhecida como rede 5G. Mais do que uma questão pontual de telecomunicações, trata-se de uma escolha de cunho centralmente geopolítico com profundas implicações sobre a economia, o desenvolvimento tecnológico, o posicionamento político internacional, as alianças militares e o próprio crescimento econômico.

Para que se aprofunde devidamente na compreensão do que está envolvido, cabe assumir algumas premissas que praticamente não foram abordadas no debate até o momento, mas que são centrais em uma análise de cunho estratégico envolvendo a tecnologia das redes 5G.

Como são muitas as camadas pouco conhecidas a se levar em conta, pedimos a paciência do leitor. Por equidistantes que pareçam alguns aspectos abordados a seguir, estes serão articulados e permitirão melhor compreensão do desafio que se apresenta.

Infelizmente nosso mundo tecnológico, ao contrário do discurso de facilidades dominante, é cada vez mais complexo e nos exige constante necessidade de aprofundar nossos conhecimentos, caso não queiramos ficar reféns dos especialistas que tomam decisões em nome do conjunto da sociedade, sem nenhum mandato público para isso.

 

O conflito é a regra

 

Inicialmente se faz necessário partir de uma primeira constatação: existe uma dinâmica de conflito permanente entre as nações, sobretudo entre as grandes potências. Ao contrário do senso comum, tais enfrentamentos acontecem em um amplo espectro de dimensões, muito além das assembleias da ONU ou da assinatura de tratados comerciais na OMC.

Todas as grandes potências empregam práticas pouco ortodoxas em suas disputas internacionais, diferenciando-se entre si apenas no grau de agressividade utilizado, de acordo com os interesses envolvidos e o período histórico que se atravessa.

Isso se traduz em um imenso rastro de ações promovidas em outros países, tais como golpes de Estado, assassinatos, campanhas de desinformação, financiamento clandestino de opositores, fornecimento de armas, sabotagens tecnológicas e, como não poderia deixar de ser, espionagem.

Por conseguinte, todas as potências que compõem o Conselho de Segurança da ONU – Estados Unidos, Reino Unido, França, Rússia e China – dispõem de enormes aparatos de agências de inteligência, com distintas especializações como inteligência humana (humint), inteligência geoespacial (geoint) ou de sinais (sigint), voltadas para dar suporte à ampla gama de ações listadas acima.

Para além dos maiores potentados, países de pesos diversos, tais como Alemanha, Japão, Índia, Turquia, Afeganistão, Coreia do Norte e Irã, igualmente possuem grandes agências de espionagem e tradição em participar destes jogos. Também cabe observar que até mesmo os países anglo-saxões menores, como Canadá, Austrália e Nova Zelândia, compõem uma aliança denominada 5 Olhos, que é a estrutura global de espionagem das comunicações por parte dos EUA e Grã-Bretanha.

Com maior ou menor desenvolvimento, todas estas nações que participam deste jogo possuem organizações voltadas para a inteligência de sinais, ou seja, para obtenção de informações telemáticas, tais como conversas telefônicas, mensagens de WhatsApp, correio eletrônico e redes sociais. Estas mesmas agências de espionagem digital são especialistas na invasão de sistemas fechados, como bancos, seguradoras, companhias elétricas ou organismos governamentais.

É justamente nesse domínio digital que igualmente ocorrem as chamadas ciberguerras, em que a infraestrutura tecnológica de um país é atacada por outro. Nessa esfera de disputa entre as ações e blocos de alianças, a espionagem de dados é uma ação considerada trivial, e operações de sabotagem, embora mais raras, também estão no portfólio de ações consideradas válidas. Igualmente empregadas são as medidas psicológicas, com vista a influenciar as sociedades de outros países.

Em países como o Brasil predomina ainda uma ingênua concepção de que a tecnologia seria neutra, advindo de indivíduos visionários que saberiam captar as necessidades do público e sua disposição de pagar por elas. Na realidade, parcela substancial do desenvolvimento tecnológico é subordinado aos interesses dos governos nacionais, principalmente das grandes potências.

Embora os modelos de pesquisa e desenvolvimento (P&D) de países como EUA, Rússia e China sofram variações entre si, têm como semelhança a capacidade de concretizar inovações a serviço das aspirações estratégicas de seus Estados.

Por exemplo, no tocante à atual revolução informacional em curso, a criação do computador e da internet por parte do Departamento de Defesa norte-americano (DoD) permitiu, além de ganhos econômicos em escala monumental, a coleta de informações sobre tudo e sobre todos em uma dimensão até pouco tempo inimaginável.

Mesmo que com algumas décadas de diferença, países como a Rússia e, sobretudo, a China patrocinaram com grande ênfase suas empresas nacionais com vistas a reduzir a diferença tecnológica para com os Estados Unidos e demais potências do ocidente integradas em sua estrutura produtiva.

Vladimir de Paula Brito

Doutor em Ciência da Informação, é agente da Polícia Federal.

Primeira parte do artigo. Leia aqui a segunda parte: Telefonia 5G: os EUA, potência informacional hegemônica

A terceira parte está em Telefonia 5G: o contexto brasileiro

A quarta e última parte: 5G: Brasil tem a ganhar com a multilateralidade

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