Telefonia 5G: os EUA, potência informacional hegemônica

Por Vladimir de Paula Brito.

Opinião / 17:35 - 8 de jan de 2020

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Atualmente, existe uma potência informacional hegemônica: os Estados Unidos. Alavancado pela corrida tecnológica espacial da Guerra Fria, o modelo norte-americano de gestão adotado para a criação da internet e do polo empresarial no Vale do Silício foi o de cluster produtivo.

Nesse modelo, o Departamento de Defesa norte-americano (DoD) estabelecia metas e fornecia financiamento para que uma gama de empresas competisse entre si. Na medida em que um projeto era escolhido, parte das empresas perdedoras passava a atuar cooperativamente, fornecendo peças e componentes complexos para a firma vitoriosa.

Como resultante dessa mecânica, diversas tecnologias são propostas, potencializando a inovação, e quando a mais adequada é escolhida pelo Estado, sua base produtiva é compartilhada entre as demais organizações, gerando capacidade produtiva redundante.

Para além de deter as principais empresas de redes sociais e demais aplicativos para internet, a topologia física da rede é quase inteiramente de propriedade dos EUA, o que torna disponível grande parcela do fluxo de dados da rede e seu conteúdo.

 

Financiamentos ou sanções são questões

menores perto do que está em disputa

 

Cabe observar que as Forças Armadas do país, bem como seus serviços de inteligência, possuem desde muito tempo um arcabouço doutrinário para o uso dos meios digitais como ambiente de conflito. Um dos exemplos é o da doutrina de Information Operations, que integra disciplinas de cunho informacional com o fito de derrotar um adversário, seja este um indivíduo, Estado ou população.

Como benefício adicional, os EUA lideram múltiplas alianças globais de agências de espionagem de sinais. Conformado entre 1946 e 1948, o grupo mais exclusivo e antigo, e com mais compartilhamento de informações, é o mencionado no artigo anterior 5 Olhos (Five Eyes), composto por países anglo-saxões – Grã-Bretanha, Estados Unidos, Canadá, Austrália e Nova Zelândia.

Para além dos membros plenos, essa aliança conta ainda com a participação das agências de sinais de países terceiros, que seriam Alemanha, Japão, Noruega, Dinamarca, Itália, Irlanda, Coreia do Sul, Filipinas e Turquia.

Outras duas alianças internacionais são os denominados Sigint Seniors Europa e Sigint Seniors Pacifico. Ambos são liderados também pela NSA norte-americana e possuem 17 nações participantes ao todo. Compõem o Sigint Europa todas as agências de sinais dos Five Eyes, mais suas contrapartes da Bélgica, Dinamarca, França, Alemanha, Itália, Holanda, Noruega, Espanha e Suécia.

Por sua vez, o Sigint Pacífico tem origem mais recente, em 2005, e possui como membros igualmente os Five Eyes, bem como Coreia do Sul, Singapura, Tailândia e, mais recentemente, em 2013, França e Índia.

 

China e Rússia: potências desafiantes

 

Em que pese a hegemonia norte-americana e de seus aliados sobre o campo informacional com amplo domínio das camadas centrais que compõem a Internet, computadores, softwares e telefonia, essa liderança não é mais incontestável. Potências como China e Rússia, secundadas por Irã e Coreia do Norte, vêm atuando abertamente para minar a hegemonia dos EUA com o emprego de operações de informação.

Todas essas nações têm igualmente como marco comum a atuação também defensiva, com o desenvolvimento de camadas de segurança separando seu ambiente de rede doméstico do restante da internet.

A título de exemplo, o caso da Rússia é emblemático. Não somente desenvolve medidas defensivas clássicas, como também está estabelecendo uma internet autônoma e um sistema de registros de domínio de rede próprio, que poderia substituir rapidamente o atual, cuja maior parte da estrutura está em território norte-americano.

Ou seja, caso os EUA removam os endereços de sites e serviços russos da rede mundial sob seu controle, estes rapidamente começariam a operar com sua própria rede nacional, minimizando o caos que poderia ser resultante de uma medida desta magnitude.

Aqui vale mencionar que não se investem recursos desse vulto em um projeto como este sem que exista uma leitura sombria sobre a evolução dos conflitos cibernéticos em médio prazo. Herdeira das capacidades militares soviéticas, mas frágil economicamente, a principal política russa tem sido a de usar o ambiente informacional como meio de coleta de informações (espionagem) e também como instrumento para sabotagens e operações psicológicas em eventos como a guerra com a Geórgia (2008), o conflito da Ucrânia (2014–2020) ou mesmo as eleições presidenciais norte-americanas (2016).

A dimensão do poder informacional para os russos ainda é disputada primariamente na esfera das medidas militares e políticas, influindo ou sabotando adversários, o que receberia a denominação doutrinária por parte de seus adversários de Guerra Híbrida. Como deficiência chave ainda teriam pouco controle do conjunto da rede ou dos aplicativos empregados nesta, uma vez que estão longe de ter uma economia forte para se tornarem um competidor tecnológico de primeira grandeza.

Paralelamente, a China se diferencia da Rússia e das demais potências de médio e pequeno porte acima citadas quanto à dimensão do desafio à potência dominante, bem como pelas armas empregadas. Ainda no início da década de 90 do século passado, impactados ante a superioridade norte-americana durante a Guerra do Golfo, o Estado adotou o conceito de Guerra Irrestrita como estratégia de disputa.

Sob este olhar, os chineses consideraram a tecnologia da informação como profundamente revolucionária por permear todas as demais tecnologias. Segundo sua leitura, essa ampla proliferação informacional teria a capacidade de modificar as relações sociais, alterando a dimensão em que são travados os conflitos humanos. Para os estrategistas chineses, “esse tipo de guerra significa que todos os meios estarão prontos, que a informação será onipresente e o campo de batalha estará em todo lugar” (Qiao Liang; Wang Xiangsui. Unrestricted Warfare. p.12).

Seguindo essa lógica a China utilizou a década de 90 e início do novo milênio para tomar medidas defensivas, como o Projeto Escudo Dourado, ao mesmo tempo em que explorava os pontos de fragilidade dos EUA conjugando ações econômicas, informacionais, sabotagens tecnológicas e espionagem de patentes e segredos comerciais em ampla escala, a serviço da construção de uma poderosa economia, sobretudo no segmento de comunicações e de tecnologia da informação.

Uma vez bem-sucedidos, já como segunda economia do mundo, os chineses entraram em uma etapa de disputa aberta em diversas esferas para com a hegemonia norte-americana, transformando-se em potência desafiante.

Iniciativas bilionárias como a Rota da Seda Digital objetivam construir uma infraestrutura tecno informacional alternativa para a rede mundial sob liderança chinesa. Para além disso, uma das principais esferas de disputa envolve, justamente, o controle da internet móvel, o que se traduz na disputa pela hegemonia tecnológica das redes 5G.

 

Balanço de poder

 

Desta forma, como é possível perceber, atualmente existe uma guerra de baixa a média intensidade baseada na internet e suas múltiplas camadas de informações. Esse conflito aparentemente se daria pelo controle da rede mundial de informações, com a última rodada sendo a rede 5G, mas seu pano de fundo real é o balanço mundial de poder.

O domínio das comunicações globais é um passo fundamental para a hegemonia mundial, seja sua manutenção ou conquista. A primazia na dimensão de poder informacional se traduz na possibilidade de dominar outros povos e nações sem ter que fazer uso de armas e exércitos.

Desta forma, tanto a potência norte-americana e aliados, quanto os seus adversários tentam atacar o terreno inimigo e negar o acesso deste ao seu. Embora a China tenha feito grandes progressos tecnológicos na última década, este conflito atual se desenvolve sobre uma arquitetura tecno informacional cuja centralidade existe quase inteiramente sob o domínio dos EUA e aliados, vez que foi originalmente erigida por estes.

Os últimos lances envolvem as medidas do Governo dos EUA para limitar ou impedir a expansão das empresas chinesas com restrições e sanções econômicas. A China, por sua vez, oferece vultosas quantias para financiamento e a tecnologia mais avançada até o momento.

Imprensados entre ameaças e ofertas, o processo decisório de nações sem tradição de grande participação nas operações de espionagem e sabotagem das potências tradicionais e seus aliados tende a valorar os motivos errados de escolha. Conforme será analisado a seguir, financiamentos ou sanções são questões pontuais perto do real significado do que está realmente em disputa.

 

O que está em jogo

 

Com o advento da profunda mudança de paradigma envolvida na implantação das redes 5G, a arquitetura global de informações poderá ser profundamente alterada. Também será aprofundado ainda mais o impacto que as redes de comunicação terão no cotidiano das pessoas.

Em um curto prazo será modificada a Banda Larga Móvel Melhorada (Enhanced Mobile Broadband – eMBB). Apoiando-se sobre as redes 3 e 4G, no eMBB estarão aglutinados os serviços que exigem maior velocidade de banda, potencializando downloads e transmissão de imagens em tempo real. Filmes poderão ser baixados em segundos, e as videochamadas serão a nova forma de se comunicar. Nessa faceta também será ampliada exponencialmente a área de cobertura, com um aumento expressivo do número de transmissores e receptores utilizados.

Em médio e longo prazo entrará em cena outra parte da rede – as Comunicações Ultra Confiáveis e de Baixa Latência (Ultra-reliable Low-latency Communications – uRLLC). Essa faceta será voltada para aplicações como veículos autônomos, fábricas automatizadas, agricultura ou cidades inteligentes e exigirá a quase total ausência de interrupções nas comunicações.

Serão serviços de missão crítica, tal como o suporte a um veículo autônomo trafegando por uma rodovia, em que uma desconexão significaria um acidente. Essa parte da rede exigirá uma enorme quantia de investimentos para capilarizar sua presença em cidades, rodovias, portos, bem como para instalar bilhões de novos receptores.

Outro segmento será o da Internet das Coisas Massiva (Massive Machine-to-machine Communications – mMTC). Voltado para os equipamentos, permitirá que as “coisas” se comuniquem entre si, o que também demandará a aquisição de bilhões de equipamentos que permitam esse serviço.

O grau de automação daí derivado é quase inimaginável sob o paradigma atual, mas alterará profundamente a existência humana, em aspectos como automação de edifícios, logística, saúde, segurança pública, serviços de monitoramento ambiental, serviços utilitários, monitoramento de usinas e distribuição de energia elétrica.

Vladimir de Paula Brito

Doutor em Ciência da Informação, é agente da Polícia Federal.

Segunda parte do artigo. Leia a primeira aqui: Telefonia 5G: mais que opção tecnológica, uma escolha geopolítica

A terceira parte está em Telefonia 5G: o contexto brasileiro

A quarta e última parte: 5G: Brasil tem a ganhar com a multilateralidade

 

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