Tempo comprado e fuga para frente

Por Ranulfo Vidigal.

Opinião / 17:02 - 29 de jul de 2020

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Na atual fase de crise do capitalismo, coexistem diversas contradições juntas em formas diferenciadas: a crise sanitária, a crise ambiental, a crise financeira, a energética, a social e a alimentar. A interdependência entre essas formas de manifestação da crise. Se apresentam em um mesmo momento da conjuntura capitalista mundial e, portanto, dizem respeito a um mesmo momento histórico do capitalismo contemporâneo.

Deve ser ressaltado que dizem respeito à subordinação do capital – em todas as suas formas – a uma mesma lógica específica, a lógica do capital fictício – aquele que ainda vai se constituir num futuro breve, mediante o assalariamento precarizado da força de trabalho e a intensificação do ritmo de trabalho nas plantas empresariais, ao redor do planeta.

Comecemos pela fome que se abate sobre 300 milhões de seres humanos, ao redor do planeta. Não é por falta de disponibilidade de alimentos, mas pela incapacidade de ter acesso à renda suficiente para adquirir o mínimo necessário para sobrevivência.

Na questão sanitária, a mais nova pandemia traz grandes ensinamentos. O capitalismo forçou uma humanidade que era essencialmente agrícola a se tornar urbana. Hoje, mais da metade da população do planeta vive em centros urbanos. Além disso, o desenvolvimento do capital também promoveu uma gigantesca concentração da riqueza, de tal modo que a pobreza da maioria e a riqueza de uma ínfima minoria não param de crescer.

Hoje somos 7,7 bilhões de humanos, 57% habitando as cidades, com 1% de população possuindo 44% e 57% possuindo menos de 2% da riqueza mundial. Uma enorme concentração de humanos, em áreas pequenas e com as piores condições de saúde, de alimentação e de higiene.

Ao mesmo tempo, o capital gerou uma malha de transporte e comunicações que fez com que um vírus desse a volta ao redor do planeta (antes da pandemia deste ano, claro) em poucos dias. Simplesmente, bilhões de humanos aglomerados em áreas pequenas nas piores condições de vida, com a biodiversidade originária do planeta sendo substituído pela homogeneidade genética que conhecemos e com meios de transporte que conectam cada localidade ao planeta como um todo – o que mais um vírus necessita para se converter em uma epidemia?

A crise social se revela no enorme contingente de desempregados e subempregados em escala planetária, num verdadeiro desperdício de forças produtivas. Surge no horizonte a hipótese de instituição de uma Renda Básica de Cidadania. Uma espécie de colchão, uma espécie de compra de tempo, uma salvaguarda para evitar o pior.

No filme francês (genial) intitulado O capital, o banqueiro (personagem principal do filme), ao tomar posse como presidente da instituição, diante dos credores sai com essa pérola: “Senhores, serei o Robin Hood moderno de vocês, pois farei questão de tirar renda dos mais pobres para dar aos ricos e poderosos.” Mais atual, impossível!

Ranulfo Vidigal

Economista.

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