Temporada de resultados do terceiro trimestre: o que esperar?

Segundo a Bloomberg, mercado espera melhora ante o segundo trimestre, mas ainda assim com resultados mais fracos em relação a 2019.

Opinião do Analista / 13:39 - 28 de out de 2020

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Após o período mais desafiador de 2020, com a queda histórica do PIB no segundo trimestre de -9,7% e os resultados das empresas refletindo os profundos impactos da pandemia, a temporada de resultados do terceiro trimestre começou no dia 15 desse mês e é uma das mais esperadas pelos investidores.

O mercado, segundo dados da Bloomberg, espera uma melhora em relação ao segundo trimestre, mas ainda assim com resultados mais fracos em relação a 2019. O consenso de mercado espera uma queda de -15% no lucro operacional (Ebitda) para as empresas do índice Ibovespa no terceiro trimestre de 2020 em relação ao mesmo período de 2019, e uma queda de -60% no Lucro Líquido. No segundo trimestre de 2020, o mais impactado pela pandemia, o mercado esperava uma queda de -73% no Lucro Operacional (Ebitda), e os resultados vieram melhores que o esperado, com uma queda de "apenas" -26,5%.

Os indicadores econômicos referentes ao período têm apontando para uma retomada significativa, e esperamos que essa melhora se reflita também nos resultados a serem reportados pelas empresas brasileiras, com parte das companhias começando a dar sinais de recuperação, o que nos permite acreditar que o pior dos impactos frente à Covid-19 ficou para trás. Mas a pergunta que os investidores devem se fazer é: Essa melhora já é esperada, e portanto, já está refletida no preço atual das ações?

Sem dúvidas, a pandemia afetou os segmentos da economia de maneiras diferentes e esperamos que alguns setores se destaquem em relação à outros nessa temporada.

Na ponta positiva, esperamos resultados fortes para os setores de materiais básicos, com destaque para à alta do preço de minério de ferro (+30% T/T) e a retomada gradual da demanda de aço, bem como para os frigoríficos, principalmente os expostos às carnes bovina e suína.

Para o setor bancário, esperamos bons resultados, com lucros ainda inferiores ao mesmo período do ano passado, mas apresentando aumento sequencial para todos os bancos sob nossa cobertura.

No caso de Petrobras, acreditamos que os resultados deverão ser significativamente melhores em relação ao trimestre passado, refletindo o aumento da produção de petróleo (+6,6% vs. 2T) e os preços 30% mais altos de petróleo Brent (US$ 43,3/barril no 3T vs. US$ 33,3/barril no 2T).

No varejo, esperamos um trimestre marcado pela transição para a normalização de resultados, com gradual recuperação de vendas do varejo físico dada a reabertura das lojas ao longo do 3T20, ao mesmo tempo em que esperamos que empresas de e-commerce continuem apresentando resultados fortes, apesar de vermos alguma acomodação no crescimento frente à retomada do varejo físico.

No setor de construção civil, esperamos resultados sólidos para as incorporadoras como um todo, com destaque para o segmento de baixa renda, cuja recuperação vem acontencendo em ritmo mais rápida que o de alta.

No setor elétrico e distribuição de combustíveis, os resultados desse trimestre refletirão, ainda que de maneira mais branda, os impactos da crise da Covid-19, enquanto os das empresas de saneamento devem ser um pouco mais fracos. Ao longo do relatório, entramos em detalhes quanto às expectativas para cada um dos setores e empresas em nossa cobertura.

O ano de 2020, como já sabemos, está longe de ser um ano normal. Dito isso, os investidores devem estar mais atentos à comparação dos resultados vs. as expectativas do consenso de mercado do que à comparação dos números do terceiro trimestre de 2020 vs. terceiro trimestre de 2019, além de se atentarem para a alavancagem (endividamento) e liquidez das empresas e analisar a capacidade das mesmas passarem pelos meses ainda difíceis à frente.

Um ponto positivo é que estamos vendo nesse ano uma onda de IPOs e ofertas no Brasil, com 16 empresas brasileiras que fizeram suas ofertas iniciais de ações (IPOs) e estrearam na B3 desde o início do ano, movimentando mais de R$ 10 bilhões. E essa abertura dos mercados de capitais e de dívida, acompanhada por grandes ofertas na Bolsa (follow ons), faz com que as empresas consigam ter um maior caixa, melhorando seus balanços e ficando mais confortáveis para passar pela crise, além de conseguirem aumentar o nível de investimentos nos próximos meses.

Além disso, os investidores devem estar atentos às expectativas das companhias olhando para frente, tanto para os próximos meses, quanto para o novo ano que se aproxima, visando entender o que pode-se esperar em relação à velocidade de recuperação pós a crise mais rápida da história.

Por fim, destacamos outros dois pontos que merecem atenção especial e ganham cada vez mais importância: 1) Os planos de digitalização das empresas, diferenciando as mais preparadas para o mundo pós pandemia das menos preparadas; e 2) Os fatores ESG (do termo em inglês Environmental, Social and Governance), cuja importância está clara e o mercado acompanha cada vez mais de perto as empresas que estão melhores preparadas nas questões ambientais, sociais e de governança, entendendo que aquelas que não se adaptarem, ficarão para trás.

Após a queda histórica do PIB no segundo trimestre de -9,7%, os indicadores referentes ao terceiro trimestre desse ano têm apontado para uma retomada significativa. Os índices de confiança e indicadores de atividade (vendas no varejo e produção industrial), além do mercado de trabalho formal ficaram acima das expectativas nos últimos meses, sustentados principalmente pelos estímulos implementados durante a pandemia (como o auxílio emergencial).

Nesse contexto, a sinalização é de que o Brasil deva fechar o ano de 2020 com um PIB menos negativo do que o previsto inicialmente (prevemos queda de 4,6%). Dito isso, destacamos importantes riscos que não podem ser desconsiderados - dos quais o principal é a trajetória fiscal brasileira. Não obstante, no nosso cenário base, prevemos manutenção do atual regime fiscal do teto de gastos e expansão do PIB em 7,8% T/T no terceiro trimestre desse ano e de 3,4% em 2021.

No que tange à inflação e à política monetária, a melhora gradual da atividade econômica, a reabertura gradual da economia, o repasse da inflação de alimentos no atacado para bares e restaurantes e a recomposição de margens no setor aéreo têm pressionado a inflação ao consumidor no curto prazo. Esse fator, somado à alta do preço da carne e ao anúncio de que o IBGE deverá coletar as mensalidades escolares já no mês de dezembro, deve continuar pressionando a inflação nos próximos meses, o que nos fez revisar a projeção de IPCA para esse ano de 2,6% para 3,1%. Porém, diante da natureza de curto prazo desses movimentos, ao longo de 2021 essas fontes de pressão devem se dissipar, trazendo o IPCA para 2,6% ao final do ano. Considerando a manutenção do regime fiscal e inflação ainda abaixo da meta em 2021, entendemos que a taxa Selic deve permanecer em 2,00% a.a. ao final de 2020. A partir da segunda metade de 2021, o Banco Central deve então iniciar o processo gradual de alta na taxa de juros, de modo a levar a Selic a 3,00% a.a. ao final de 2021.

Aliado a isso, vemos um cenário de apreciação da taxa de câmbio para R$/US$ 5,20 ao final de 2020 e R$/US$ 4,90 ao final de 2021, em linha com a melhora das contas externas.

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