Tendências regressivas: tudo pode piorar

A minissérie britânica Years and Years aborda de maneira inteligente e crítica o cenário distópico político, econômico e social a que possivelmente o mundo está rumando – tamanha a sequência de medidas que colocam em xeque os direitos conquistados pela população em escala planetária.

Vivemos tempos de mercados como deuses supremos promovendo comportamentos egocêntricos e predatórios dos bens de uso comum, incluindo a mercantilização dos serviços públicos, a depreciação da cultura, o elitismo e a defesa de um quadro de crescentes desigualdades mediante relações sociais espúrias, nas quais aflora a intencionalidade de rebaixamento e aniquilamento de pessoas – consideradas inimigas.

A escritora Barbara Tuchman, no livro a Marcha da Insensatez, mostra inúmeros casos de governos equivocados gerando grandes desastres. Caso da derrota norte-americana no Vietnã, nos anos 1960. A Covid-19, com milhões de mortes, é outra tragédia.

Vivemos em uma sociedade onde o capital está altamente concentrado, com a maioria da produção de mercadorias sendo realizadas por megaempresas cujos destinos são, em grande parte, moldados por investidores/fundos financeiros. Estas produções materiais ou imateriais nos são disponibilizadas em um mercado global e nos são entregues através de complexas cadeias de valor, em cuja operação nosso trabalho não é sequer remunerado adequadamente.

Tecnologias da informação e comunicação têm afetado a divisão espacial e temporal do trabalho. Para muitos de nós, as fronteiras entre trabalho e vida privada formam um emaranhado confuso, e poucas relações não são mediadas pela tecnologia.

Em termos simples, pode-se dizer que existem, principalmente, três modos pelos quais as empresas podem gerar lucro no capitalismo: rendas oriundas de direitos de propriedade, comércio de bens e serviços e, finalmente, geração de mais-valia, através da produção de mercadorias para suprir necessidades físicas e espirituais.

Nesse contexto global, o custo que a estagnação e a decadência da atividade produtiva no Brasil deixam não é superficial e representa um rastro de desagregação social e econômica, jogando ainda mais água no moinho da precarização da vida da população.

Economia desalentada, desemprego e miséria urbana nos transformam em piada internacional. Como consequência, a violência contra o pobre, majoritariamente encurralado nas periferias, corresponde à transformação dos massacres de Canudos e do Contestado em política cotidiana, ordinária e preventiva. Não se trata aqui de repetição como tragédia, mas da longa duração de nossa noite colonial.

As crises conjuntas de caráter sanitário, econômico e social confirmam o genial escritor conservador Nelson Rodrigues: “Subdesenvolvimento não se improvisa; é obra de séculos”.

 

Ranulfo Vidigal é economista.

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