Terceiro contrato social da educação

Por Isaac Roitman.

Devido ao avanço do conhecimento, que cresce de forma exponencial, as transformações na sociedade humana nunca tiveram um ritmo tão intenso. Nesse contexto, é fundamental que uma nova educação seja a bússola para o exercício da cidadania, para a extinção da fome e pobreza, para a conquista da igualdade social, para a sustentabilidade ambiental, para a fraternidade e a solidariedade e que seja acessível a todas crianças e jovens. Essa reflexão não só é válida para o Brasil, mas também a todos os países do planeta.

O título do artigo – “Terceiro contrato social da educação” – refere-se a uma ação do Kairós (palavra de origem grega que representa o Deus do tempo oportuno), uma equipe de líderes educacionais de diferentes países e continentes, inclusive do Brasil. Esse grupo, com a liderança do professor Telémaco Talavera Siles (ex-reitor da Universidade Autônoma da Nicarágua), promove um movimento global pela transformação da educação para desenvolver os valores e capacidades do século 21, necessários para construir um mundo mais justo, equitativo, solidário e sustentável em que ninguém fica para trás.

Sob o auspício de Kairós foi realizado, em novembro, o Congresso Mundial de Educação 2020, com o objetivo de construir o “Terceiro contrato social da educação”, como instrumento orientador que permitirá a organismos multilaterais, organismos internacionais, governos, instituições, universidades projetar e implementar sua própria agenda para a transformação educacional, a partir de uma perspectiva global.

O primeiro contrato emergiu ao longo do século 19 e na primeira metade do século 20, no contexto da revolução industrial e seus desdobramentos, focando no preparo de pessoas para o mundo do trabalho. No segundo contrato, a partir da segunda metade do século 20, aumentou-se o acesso à educação das classes populares e ampliam-se as formações técnica e a superior, fomentando o crescimento de centros de pesquisas e das universidades.

No Terceiro Contrato Social de Educação é promovida a educação voltada para a promoção de valores como equidade, justiça, responsabilidade, empatia, solidariedade, humanismo universal e combate ao racismo, homofobia, preconceito de gênero e violência de todas as formas; e pela liberdade de crenças, orientação sexual, crenças políticas, inteligência emocional, neuroeducação e o desenvolvimento de capacidades de pensamento crítico, comunicação, colaboração, conectividade, criatividade, resiliência, inovação, ação transformadora, liderança, desde a aprendizagem ao longo da vida até enfrentar uma nova realidade dominada pela incerteza.

A proposta é para a construção de uma educação voltada ao ideal de ser humano livre, autônomo, democrático e solidário, responsável, comprometido, criativo, inovador, transformador e líder, a partir da atualização dos quatro pilares básicos da educação (aprender a ser, aprender a fazer, aprender a conhecer e aprender a conviver).

Uma educação não voltada para o ensino, mas para a aprendizagem onde o professor, cujo trabalho foi, é e sempre será de valor e importância insubstituíveis, não seja um transmissor de conhecimento, mas um facilitador, um motivador, um gestor da aprendizagem, na sala de aula e fora dela, presencial e/ou virtual, com diversidade didática e pluralidade pedagógica.

No Brasil, o Kairós é liderado pela professora Ana Lúcia Gazzola (ex-reitora da UFMG). Iniciativas semelhantes, entre outras, são desenvolvidas em universidades e no ensino básico: Institutos de Estudos Avançados (USP/SP/RP), Pensar a Educação (UFMG), Educação para o Futuro (UnB) e rede de Comunidades Aprendizagens, lideradas pelo educador José Pacheco, fundador da Escola da Ponte em Portugal. Vamos ser parceiros dessa iniciativa com horizontes planetários para preparar um mundo melhor e mais justo para as próximas gerações.

 

Isaac Roitman é professor emérito da Universidade de Brasília, pesquisador emérito do CNPq, membro da Academia Brasileira de Ciência e do Movimento 2022-2030 O Brasil e o Mundo que queremos.

Leia mais:

O Supremo e a política

Deep learning: a porta de entrada para a educação do futuro

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