Titanic desbussolado...

COP25, o último escaler a ser lançado ao mar na iminência do naufrágio.

Empresa Cidadã / 18:41 - 10 de dez de 2019

Siga o Monitor no twitter.com/sigaomonitor

­Em 10 de abril de 1912, teve início a primeira viagem (e última) do transatlântico Titanic. Revestido por uma atmosfera de invulnerabilidade, derivada de uma presumida supremacia da tecnologia sobre os fenômenos naturais, no dia 14 de abril o transatlântico colidiu a boreste com um iceberg no Atlântico Norte, em consequência do que foi a pique, no dia 15 de abril, deixando um saldo de apenas 705 sobreviventes, de um total de 1.317 passageiros embarcados (capacidade nominal de 2.453 passageiros), sem contar a tripulação.

Ante a escolha entre a segurança dos passageiros e a estética da embarcação, a operadora White Star Line negligenciou a segurança, ao disponibilizar botes de salvamento em número insuficiente, pois “poluíam” a vista do engenho.

O Titanic partiu para a primeira viagem, com lotação de passageiros aquém do limite, sendo 324 pessoas na primeira classe, de 833 possíveis (preços que variavam a equivalentes em libras de hoje, de £2.700 até £79.000), com direito a quadra de squash, piscina de água salgada, energia elétrica, deck, canil, banho turco, acesso a elevadores, passeios guiados etc; 284 pessoas na segunda classe (de 614 possíveis, pagando preços equivalentes a £1.123, em moeda de hoje); e 709 (de 1.006 possíveis) na terceira classe (pagando preços equivalentes a £777, em valores de hoje).

Produzido em Belfast, pelos estaleiros Harland e Wolff, o transatlântico partiu de Southampton com destino a Nova York e, curiosamente, transportava diversos cães, gatos e aves, além de ratos. Estes justificavam a presença de Jenny, uma gata que fazia parte da tripulação, com o encargo de controlar a população dos roedores. Atualmente, o metrô de Nova York bem poderia estudar esta possibilidade. Como há ratos nos subterrâneos! Há notícias da sobrevivência de dez cães do naufrágio.

Uma ironia do acaso é que a mais recente implicância manifestada pela “família” é o ator Leonardo DiCaprio, protagonista no filme Titanic, de James Camerom (1997), superprodução que executou um orçamento de US$200 milhões.

Acusado pelo Planalto de ensejar incêndios na Amazônia, sem qualquer evidência comprovada, DiCaprio bem poderia ter alertado: “Icebergs, cuidado! Há um titanic desbussolado no mar”.

 

COP25, aos 45 do segundo tempo

Foi instalada em Madri, na semana passada, com a presença de mais de 50 chefes de Estado, a COP25. Trata-se da derradeira oportunidade de concertação das nações em defesa do Planeta, ante a iminência da catástrofe climática reiterada pela ciência.

Trata-se do último escaler a ser lançado ao mar na iminência do naufrágio. Colidir com o iceberg, já colidimos. Esta pode ser a oportunidade final de um mundo melhor, ou ao menos igual, desta geração para os descendentes. A COP25 é liderada pelo triunvirato constituído por Teresa Ribera, ministra espanhola do Meio Ambiente, Carolina Schmidt, presidenta da Conferência, e Patricia Espinosa, chefe da ONU para o Clima.

O secretário-geral da ONU, António Guterres, reiterou, em bom português, que “o ponto de não retorno não está mais além do horizonte”. Um relatório da organização não governamental Save The Children, divulgado pouco antes da abertura do evento, ilumina a situação a que chegamos. Segundo o relatório, já são atingidas 33 milhões de pessoas na África hoje, em decorrência das mudanças climáticas, sendo a metade do contingente de crianças, levadas à fome.

 

COP25? O que eu tenho a ver com isso?

Inicialmente, o encontro estava previsto para ocorrer no Brasil, mas o presidente Jair Bolsonaro declinou. “Abrimos mão de sediar a Conferência Climática Mundial da ONU, pois custaria mais de R$ 500 milhões ao Brasil e seria realizada em breve, o que poderia constranger o futuro governo a adotar posições que requerem um tempo maior de análise e estudo”, está escrito no seu Twitter, em dezembro de 2018.

O mais recente tratado internacional no tema é o Acordo de Paris, que foi aprovado em 2015, na COP21, por 195 países e tem como objetivo síntese conseguir que a temperatura média do planeta não aumente mais do que 2 graus Celsius, até 2050, tendo como base os níveis do período pré-industrial.

O Brasil ratificou o Acordo de Paris em 12 de setembro de 2016. Através de documento encaminhado à ONU, as metas brasileiras são reduzir as emissões de gases causadores do efeito estufa em 37% até 2025, tendo por base os níveis de 2005. Além desta meta, há o compromisso de reduzir as emissões de gases causadores do efeito estufa em ao menos 43% abaixo dos níveis de 2005, até 2030.

Registre-se a tentativa do Governo dos EUA de sabotar o Acordo de Paris, anunciando a retirada da sua assinatura, em junho de 2017. Os EUA estão entre os maiores poluidores do planeta.

Jair Bolsonaro tampouco comparecerá, pois está nas cordas ante a opinião pública internacional, em consequência do forte crescimento do desmatamento na Amazônia e outros desastres administrativos do seu governo na gestão do clima. O Governo Federal enviará uma delegação chefiada pelo ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, seja lá qual for a utilidade disso...

 

Greta Thunberg

Outro possível motivo para a ausência do presidente do Brasil na COP 25 é a presença esperada na conferência da adolescente sueca Greta Thunberg. Ela reagiu assim às insinuações do presidente de que o ator Leonardo DiCaprio seria responsável por queimadas na Amazônia.

– “Eu acho que as pessoas estão subestimando a força das crianças irritadas. Estamos bravos, frustrados, e é por uma boa razão. Se querem que não fiquemos irritados, talvez devessem parar de nos deixar irritados.”

Greta, não são só as crianças que já estão de saco cheio.

 

Paulo Márcio de Mello é professor aposentado da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

paulomm@paulomm.pro.br

Siga o Monitor no twitter.com/sigaomonitor