TIVIT: modelo de negócio, organização e perspectivas

Segundo Paulo Freitas, o modelo de governança sólido e bem estabelecido da TIVIT, fez com que a companhia estivesse preparada para operar como capital aberto e capital fechado.

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Paulo Freitas (foto divulgação TIVIT)
Paulo Freitas (foto divulgação TIVIT)

Conversamos sobre a TIVIT com Paulo Freitas, CEO da companhia.

Atualmente, o que faz a TIVIT?

A TIVIT foi formada, basicamente, em dois negócios: TI, com data centers e serviços gerenciados, e BPO, com teleatendimento. Em dezembro de 2016, nós fizemos o spin-off, a separação do negócio de BPO, que hoje opera de forma totalmente independente através da Neo, que antes se chamava NeoBPO, e que não possui ligação conosco, a não ser a ligação de afeto e amizade de um prestar, eventualmente, serviços para o outro.

Em 2022, nós achamos por bem fazer a separação dos negócios de data center, pois, na verdade, o nosso negócio foi migrando, cada vez mais, para transformação digital e serviços de gerenciamento de nuvem. Esses serviços têm menos capex e investimentos na frente, ao contrário de data centers, que é um negócio que envolve capital mais intenso na largada, pois exige grandes construções, grandes estruturas de data center, superinfra com ar-condicionado e o próprio prédio com instalações elétricas. Assim surgiu a Takoda, que apesar de estar debaixo dos mesmos donos, opera de uma maneira totalmente independente. 

Hoje, a TIVIT é uma empresa que se inicia por transformação digital, inteligência artificial e gestão de dados. Eu sou oriundo do mercado de consumo de eletrônicos e de uma época em que se tinha dois anos para se fazer o lançamento de uma impressora ou seis meses para se fazer o lançamento de um telefone celular, sendo que, atualmente, os clientes pedem soluções para duas semanas. Os ciclos estão muito menores. O produto tem que nascer digital, num ciclo curto e sem chance de erro. Aqui entra toda uma modelagem de aprendizado e de machine learning de como os produtos foram lançados no passado.

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Hoje, foi tudo para o telefone celular. Por exemplo, no Brasil, o número de agências bancárias vai declinando ao longo do tempo. Antigamente, você ia numa agência e era atendido por um gerente que te oferecia um cafezinho e te fazia sair com dois, três produtos e feliz da vida, achando que tinha feito um excelente negócio. Tudo isso foi para o telefone celular. Só que quando se vai para um aplicativo de telefone, o que vale é como se aquece o coração do cliente no aparelho.

Grandes redes de fast food estão trabalhando com totens de autoatendimento. Para que você tenha uma ideia, uma empresa que opera com esse modelo teve um aumento de 20% no seu ticket médio. Por trás disso, há toda uma coleta e análise de dados para se determinar o produto que aparecerá primeiro, a formatação da imagem e a sequência, tudo com o objetivo de gerar mais conversão de negócios.

Você também tem empresas que estão fazendo transformação digital para ganhar eficiência de processo. Por exemplo, quando você compra num marketplace, tudo o que ele quer na vida é que a perna de frete seja uma só. Aliás, ele até prefere que você retire numa de suas lojas, se for possível. O maior desespero que ele tem é quando ele bate na sua casa, não te encontra e tem que fazer a logística reversa, voltando com a mercadoria para dentro do armazém para depois mandá-la de novo, o que faz com que uma perna de frete vire três. Como as margens desse tipo de operação são apertadas, elas acabam sofrendo.

Outro pilar dessa transformação é o que eu chamo de instantaneidade de informação. Vou te dar um exemplo relacionado a ESG. Nós temos um cliente de mineração que mede dentro de suas minas, e de forma instantânea, o nível de CO2, a temperatura e a quantidade de mineiros que já passaram do tempo regulamentar para estar dentro delas. Ela também quer saber se há um abalo sísmico qualquer ocorrendo dentro de uma de suas minas para retirar seus trabalhadores. Essa empresa não quer esperar o final do mês para receber um relatório com essas informações, e sim instantaneamente.

A transformação digital veio muito forte, e quando você junta a inteligência artificial e põe em cima de tudo isso, você tem uma demanda gigantesca. Essa necessidade de transformação digital exige que você tenha um ambiente em nuvem, já que não é possível fazê-lo com sistemas legados muito antigos. Para isso, é preciso de plataformas ágeis, flexíveis e escaláveis para lidar com essa digitalização. Você também precisa de uma camada forte de segurança da informação. No ano passado, foram mais de 100 milhões de ataques cibernéticos no Brasil, que foi o segundo país da América Latina que mais sofreu esse tipo de ataque. É por isso que é preciso abrigar nesse tipo de plataforma as ferramentas de cibersegurança. Por último, você precisa lidar com legados em plataformas antigas.

Para isso, a companhia tem os pilares de transformação digital junto com inteligência artificial, cibersegurança, nuvem e serviços gerenciados de plataformas mais antigas, que lá atrás chegou a ser 70% do negócio, mas hoje é 38%. Como os outros negócios estão crescendo muito, a participação dos serviços gerenciados mais antigos vai acabar sendo cada vez menor.

Essa é a TIVIT de hoje. Uma empresa com uma velocidade muito maior de crescimento, menos intensa de capex, mas muito dependente de capital intelectual, de formação e atração de talentos. Uma TIVIT mais pulsante, mais digital e voltada para serviços para onde os clientes estão indo, já que não há outro caminho.

Como a TIVIT organiza as suas unidades de negócio?

O primeiro contato com um cliente é feito por um especialista da sua indústria. Por exemplo, como Óleo e Gás é uma indústria, nós temos especialistas de negócios que entendem de Óleo e Gás e das empresas que atuam no setor.

Depois disso, nós temos um segundo grupo que é mais técnico. Imagine que um especialista em indústria automobilística recebe uma demanda para o desenvolvimento de uma ferramenta, que, através de análise visual, assegure que os para-brisas que estão montados nos carros estão 100% limpos e sem bolhas. Numa segunda reunião, esse especialista vai levar um especialista em visual analytics, um cara que vai usar data analytics baseado em mecanismos de detecção visual, juntar as informações e compará-las com padrões já estabelecidos para definir se o para-brisa de um carro pode passar ou não no controle de qualidade, mesmo que a verificação a olho nu não tenha identificado a existência de um problema.

Essa especificação técnica de como os dados serão coletados e armazenados, se serão utilizadas câmaras comuns ou especiais, e como será feito o processo de alarme quando um defeito for encontrado, é feita pelos desenvolvedores de negócio.

O especialista da indústria abre a porta e os desenvolvedores, junto com os arquitetos de soluções, constroem a melhor solução técnica. É assim que nós estamos estruturados. Nós temos um time que vende e se relaciona com a indústria e os desenvolvedores, implementadores e operadores técnicos que por detrás das linhas de transformação digital associada com inteligência artificial, cibersegurança, serviços multiplataforma de cloud e serviços gerenciados de plataformas, vão ajudar no melhor desenvolvimento técnico da solução.

Como a companhia avalia o retorno do TIVIT Labs?

O TIVIT Labs é uma ferramenta superimportante. Os nossos produtos evoluem o tempo todo, mas a velocidade com que as coisas estão acontecendo é tão rápida que você precisa voltar e olhar as externalidades que estão ao seu redor. Por exemplo, nós temos um negócio de onboard e de aprovação de crédito composto por ferramentas de detecção de data analytics e de inteligência artificial que auxiliam na aceitação de clientes e na tomada de decisão de crédito. Esse negócio é muito orientado para clientes que vendem B2C, mas também funciona para B2B.

Agora, se uma startup que está iniciando nos procura e diz que pode acelerar a aprovação de crédito para pessoas jurídicas, nós, provavelmente, vamos nos juntar a ela através do Labs e, quem sabe, fazer uma parceria para acelerarmos os produtos da TIVIT.

O Labs atua em externalidades, mas sempre gravitando ao redor do que já fazemos. Por exemplo, não adianta uma empresa chegar para a TIVIT e dizer que tem uma solução de localização eletrônica de vagas de estacionamento, pois isso está muito longe do que fazemos.

Nós também trazemos os clientes para o Labs para que possamos resolver os seus problemas de negócio, como um cliente que tem dificuldades para digitalizar os seus processos. Ele tem a operação funcionando, mas não tem, às vezes, especialistas que o apoiem a achar a melhor solução para o seu negócio. Esse cliente senta com os nossos especialistas para que possamos tentar achar o caminho mais rápido, mais lógico e mais seguro para ele.

Como a companhia avalia o retorno do TIVIT Ventures?

Através do TIVIT Ventures, nós adquirimos empresas que tragam competências e capabilidades que não conseguimos desenvolver num curto espaço de tempo. Assim, quando há uma grande oportunidade para desenvolvermos um produto, uma oferta, um negócio, mas não temos braços para desenvolvê-lo numa curta janela de tempo, nós adquirimos empresas que possuem, geralmente, uma mentalidade rápida, de dono, e uma vontade muito grande de crescer.

O fiting cultural também é muito importante, pois além de ter bons produtos e bons clientes, é preciso que a empresa tenha um alinhamento cultural com a nossa mentalidade de inovação e de desenvolvimento, e que trabalhe muito voltada para o cliente. Se a empresa não tiver uma preocupação muito grande com o seu cliente e um perfil colaborativo, ela já não se encaixa no nosso perfil. Essas são empresas de porte de pequeno para médio, pois com empresas muito grandes se gasta muito tempo fazendo a união das duas empresas.

Para que você tenha uma ideia, nós compramos uma empresa de automação de processos, que cresceu enormemente no ano passado; uma empresa de serviço de nuvem no Chile, que também está indo muito bem; a empresa de onboard e de aprovação de crédito que mencionei; uma empresa ligada a programação mais rápida, que acelera a transformação digital; e uma empresa de cibersegurança voltada para cumprimento de LGPD, que no ano passado praticamente dobrou de tamanho e que segue crescendo muito forte em 2024. Essas são empresas que se fôssemos desenvolver internamente, nós até conseguiríamos fazer, mas demoraríamos muito mais tempo.

Qual a finalidade da TIVIT Comercializadora de Energia?

Em 2019, nós fizemos um investimento numa geradora de energia eólica, que hoje produz 120% da energia que consumimos, 20% a mais do que precisamos, pois é preciso ter um pulmão de sobra para atender picos de demanda do negócio. A comercializadora veio no rastro desse investimento.

A TIVIT já foi uma S/A de capital fechado, fez IPO e voltou a fechar o capital. Como a companhia avalia esses dois mundos das S/As, o de capital aberto e o de capital fechado?

A TIVIT é uma companhia muito séria e organizada nos seus controles e na sua forma de operação, com código de ética, qualidade de report e com a governança extremamente forte.

A companhia fez a abertura de capital em 2009 num momento muito desafiador, pois foi logo em seguida a crise das subprimes nos Estados Unidos, mas ela não teve dificuldade nenhuma para fazer o IPO. Mais tarde, quando a companhia foi comprada pelo Apax, que é um fundo de private equity internacional respeitadíssimo, com mais de US$ 50 bilhões em ativos sob gestão operando no mundo inteiro, a decisão foi por fazer a OPA, pois entendemos que era o melhor caminho para se operar naquele momento.

A companhia segue com as mesmas rotinas de governança e com a fortaleza dos seus controles. Em 2009, a TIVIT tinha uma receita de R$ 400 milhões. Hoje, a receita é superior a R$ 2 bilhões. Esse resultado vem através de um modelo de governança muito sólido e muito bem estabelecido. Independente do formato que vamos operar, a companhia está muito bem preparada, tanto que ela demonstrou isso como capital aberto e como capital fechado.

Como a TIVIT avalia o ano de 2023 e suas perspectivas para 2024?

O ano de 2023 foi muito bom. Nós ainda estamos fechando o balanço, mas a TIVIT cresceu bem mais que o mercado. Nós tivemos um volume bem expressivo de vendas e de crescimento de receita e de rentabilidade. O modelo de cobertura por indústria foi implementado em janeiro de 2023 e se mostrou de muito sucesso, tanto que nós vendemos muito.

Para 2024, nós estamos muito otimistas. Do ponto de vista geográfico, nós estamos fazendo uma abordagem bem mais agressiva em capitais como Porto Alegre, Curitiba, Belo Horizonte, Fortaleza, Recife e Goiânia. Alguns países da América Latina, incluindo América Central, que são abordados de uma maneira mais tímida, serão abordados de uma maneira mais agressiva. Nós temos também algumas soluções que estão restritas ao Brasil e aos maiores países da América Latina, que serão espalhadas para os países menores. Desse ponto de vista, nós já temos um vetor de crescimento.

Do ponto de vista de produtos, nós temos outra grande oportunidade. Há um hype muito grande com a inteligência artificial. Os C-Level estão muito pressionados para implementarem esse tipo de projeto, e há uma demanda para que projetos de digitalização já nasçam com inteligência artificial. Em dezembro de 2023, nós lançamos a Athena, que é uma plataforma de inteligência artificial segmentada por negócio que utiliza dados estruturados para ajudar as empresas na automação dos seus negócios e na tomada de decisões.

Recentemente, nós lançamos a nossa solução OneCloud que envolve nuvem privada. Essa solução integrada multi cloud dá visibilidade de todos os ambientes, seja nuvem pública, seja nuvem privada, ou mesmo ambientes integrados, com uma visão de integridade, 100% de delivery, resguardo de backups, mas com visibilidade de custos e com uma visão mais instantânea de tudo que está acontecendo. A OneCloud, independente da nuvem que for utilizada, vai fornecer esse serviços de maneira integrada. Por último, nós fizemos a nossa plataforma de gestão de cibersegurança integrada MDR (Managed Detection and Response), que abraça 30 soluções.

Resumindo, para 2024, seja por vetores geográficos, seja por vetores de produtos, nós estamos muito otimistas com o crescimento da companhia.

Como a TIVIT trabalha na formação e retenção de talentos?

O Brasil é um país muito atrasado na formação de desenvolvedores. Para que você tenha uma ideia, o país forma 46 mil desenvolvedores por ano, sendo que a demanda é acima de 120 mil. Isso nos leva a ter uma academia própria de formação de especialistas.

Depois que esses especialistas são formados em soluções como mobile, front-end, back-end, soluções em AWS da Amazon, Microsoft, cibersegurança e firewall, os fabricantes aplicam uma prova de certificação para que se tenha certeza que o especialista domina, integralmente, a solução na qual ele se formou. Até 2022, nós tínhamos 690 certificados. Em 2023, nós terminamos o ano com 2.100 certificados. Esse número praticamente triplicou.

Essas certificações custam caro, pois para treinar a pessoa, é preciso tirá-la do trabalho e colocá-la numa sala de aula para que ela estude, sendo que depois ela tem que se preparar para passar na prova, mas esse é um investimento que vale a pena.

Eu não sei se a TIVIT tem o melhor salário ou os melhores benefícios do mercado, mas, certamente, você não vai encontrar uma empresa onde se aprenda tanto quanto na TIVIT. Nós temos uma plataforma onde qualquer colaborador, de qualquer área, vai poder estudar todas as soluções. Por exemplo, se um profissional de rede de telecomunicações quiser aprender Python, ele vai poder fazer o treinamento.

Por mais que o Brasil se orgulhe do agronegócio, da mineração e da exportação de commodities, é uma perda de oportunidade gigantesca o país não ter uma política de formação educacional de desenvolvedores. Nós estamos, praticamente, no mesmo fuso horário dos Estados Unidos e do Canadá. O Brasil poderia ser um celeiro de formação de profissionais que poderiam trabalhar provendo serviços de TI, que é um serviço com bons salários, mas, infelizmente, nós estamos perdendo uma grande oportunidade.

A falta dessa estratégia voltada para educação faz com que empresas como a nossa façam muitos investimentos em treinamentos. Em 2023, nós investimos o dobro do que investimos em 2022. Em 2024, provavelmente, será 25% a mais do que em 2023. Não tem jeito, pois essa não é uma opção por ser opção. Trata-se de uma necessidade imperiosa se nós quisermos ter sucesso.

A TIVIT também tem uma grande obsessão pela satisfação dos colaboradores. Nós fazemos uma medição instantânea e semanal, com uma rotação de perguntas anônimas para os colaboradores, e com ações de correção para termos certeza de que estamos alinhados com o que eles esperam. Nós temos superado bem esse desafio, tanto que a TIVIT tem conseguido atrair colaboradores e o nosso nível de retenção está muito bom, o que mostra que a nossa estratégia tem dado certo.

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