Trabalho remoto pode chegar a 22,7% das ocupações

Segundo Ipea, resultado colocaria o Brasil na 45ª posição mundial e na segunda no ranking na América Latina.

A migração do trabalho presencial para o chamado teletrabalho é uma tendência no mundo todo, diante da adoção de medidas de distanciamento social necessárias para conter a pandemia de Covid-19. O modelo, que agora ganha visibilidade, não é novo e tem grande potencial de crescimento em muitos países. Análise do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) aponta que o formato poderá ser adotado em 22,7% das ocupações nacionais, alcançando mais de 20 milhões de pessoas. Isso colocaria o país na 45ª posição mundial e no segundo lugar no ranking de trabalho remoto na América Latina.

O estudo "Potencial de Teletrabalho na Pandemia: Um Retrato no Brasil e no Mundo" feito em parceria pelos pesquisadores Felipe Martins e Geraldo Góes, do Ipea; e José Antônio Sena, do IBGE, segue metodologia utilizada por pesquisadores da Universidade de Chicago na estimativa de teletrabalho em 86 países. Para mensurar o potencial brasileiro, as classificações ocupacionais foram convertidas para a Classificação de Ocupações para Pesquisas Domiciliares (COD) – utilizada na Pnad Contínua do IBGE.

O resultado da pesquisa, adaptado ao Brasil, analisa 434 ocupações e indica que um quarto das atividades poderiam ser realizadas remotamente. Os grupos da COD com maiores probabilidades de teletrabalho são os de profissionais de ciências e intelectuais, diretores e gerentes e técnicos e profissionais de nível médio. Por outro lado, trabalhadores da agropecuária, da caça e da pesca e militares possuem os menores potenciais de teletrabalho

"Se a ocupação envolve trabalho fora de um local fixo e operação de máquinas e veículos ela é considerada como não passível de teletrabalho" explica Felipe Martins.

A análise por estados revela desigualdades regionais. O maior potencial de teletrabalho foi identificado no Distrito Federal, onde 31,6% dos empregos podem ser executados de forma remota (em torno de 450 mil pessoas). Na sequência vêm os estados de São Paulo (27,7% dos empregos, aproximadamente 6,1 millhões de pessoas) e Rio de Janeiro (26,7%, ou pouco mais de 2 milhões de trabalhadores). O Piauí é o que apresenta o menor potencial de teletrabalho (15,6% das atividades, ou cerca de 192 mil pessoas).

Na análise internacional, Luxemburgo tem a maior proporção de teletrabalho entre os 86 países avaliados (53,4% dos empregos). No final do ranking aparece Moçambique (5,24%). Dentre os 9 países da América Latina que constam no estudo (Brasil, Bolívia, Chile, El Salvador, Equador, Guatemala, Honduras, México e Panamá), o Chile apresenta a maior participação de teletrabalho (25,74%).

"Sabemos que o trabalho em domicílio é uma realidade que independe da pandemia", afirma o pesquisador Felipe Martins. Segundo ele, ainda não é possível avaliar o impacto das medidas de distanciamento social no crescimento do teletrabalho no Brasil, adotadas a partir de meados de março. Os dados da Pnad contínua do primeiro trimestre de 2020 apontaram uma leve alta, embora não significativa, em relação ao do 4º trimestre de 2019.

Os pesquisadores também acham prematuro avaliar se as modalidades de trabalho que surgiram ou cresceram no período de isolamento seguirão a mesma tendência no pós-pandemia. "Como as relações trabalhistas no país são, sob vários recortes, muito heterogêneas, é muito cedo ainda para se descortinar tendências mesmo que setoriais”, esclareceu Geraldo Góes.

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