Tragédias anunciadas

Não é preciso ser um desses videntes de plantão de início de ano para se prestar a certas previsões. Assim como um simples olhar sobre as arquibancadas apinhadas de São Januário prenunciava os momentos de terror que se seguiriam, a observação atenta das obrigações impostas pela União às administrações recém-empossadas antecipa os sacrifícios que serão cobrados dos cidadãos cujas prefeitos trocarem as promessas feitas no mercado eleitoral por compromissos subterrâneos com dogmas econômicos.
Apenas como amostra do massacre previsto sobre o contribuinte dos municípios, recorde-se que, entre janeiro de 98 a novembro passado, estados e municípios contribuíram com superávit primário de R$ 10 bilhões para a União seguir pagando sua conta de juros.
Evidentemente a sova tomada pelos partidos governistas nos principais centros urbanos do país está diretamente ligada ao repúdio do eleitorado às conseqüências desse monumental arrocho imposto aos contribuintes, com sucateamento de educação, saúde, segurança etc., ainda que a grande maioria não alcance as razões das causas da piora da vida em suas cidades.
Eleitos com o compromisso de aplicarem políticas opostas às praticadas por seus antecessores, alguns prefeitos – inclusive os formalmente oposicionistas – ainda se iludem com a possibilidade de conciliar uma administração em conforme com as prioridades prometidas em campanha com boas notas no boletim dos bedéis da nomenclatura da Fazenda e do Banco Central. Insistir na prática desse antagonismo evidente resultará em tragédia maior que a quase ocorrida em São Januário e de mais fácil previsão que as possíveis mortes de atores e cantores octogenários projetadas pelos babalorixás de plantão.

Aplausos
O aperto fiscal a estados e municípios parece agradar ao mercado financeiro. A publicação Brazil Trends, editada pelo BankBoston em dezembro, diz que o limite de endividamento definido a partir de múltiplos de receita líquida e a Lei de Responsabilidade Fiscal representam “uma mudança institucional inédita no país para a manutenção do ajuste fiscal”. O banco prevê que governadores e prefeitos terão que praticar uma política fiscal contracionista para poderem se enquadrar nos limites. A publicação discute a qualidade do ajuste fiscal, reconhecendo que o superávit obtido pelo governo federal foi em grande parte bancado pelo aumento de contribuições sociais e impostos, além de receitas extraordinárias. Mas o BankBoston acha que a carga intensidade do ajuste é adequada, faltando apenas melhorar a qualidade. Sugere para isso a reforma tributária, aliviando quem paga muito imposto e atingindo aqueles que sonegam. O banco passa à margem da discussão sobre utilização da CPMF para combate à sonegação.

Mistérios
Afinal que tipos de segredos detém o senhor Eurico Miranda para assegurar o poder de mandar e desmandar no futebol brasileiro, sem sofrer obliteração do Congresso Nacional, de seus confrades e do Judiciário?

Gol
O governador do Rio de Janeiro, Anthony Garotinho, deu uma bola dentro ao proibir o reinício do jogo decisivo entre Vasco e São Caetano, em São Januário, no sábado. Num lance que misturou sorte e oportunismo, Garotinho conseguiu começar o ano com uma notícia positiva, fato cada vez mais raro no seu governo, principalmente pela escalada da violência e as trapalhadas na área de segurança pública.

Repercussão
A aproximação da África do Sul e do Mercosul mereceu matéria no The New York Times. O jornal norte-americano diz que o país mais rico da África quer reduzir a dependência dos mercados dos EUA e da Europa e por isso elegeu a América do Sul como parceiro preferencial. O movimento da África do Sul não só reduz a importância do afastamento do Chile do Mercosul, como possibilitará – se concretizado – a viabilidade do bloco regional como um dos mais importantes do mundo. A preocupação dos EUA ficou estampada na matéria do Times.

Superior
Segundo o Bank of Canada, a economia canadense deverá fechar o ano com 5% de crescimento. Este resultado, acima do esperado, deve-se à crescente demanda do mercado interno daquele país por produtos nacionais. Em fevereiro passado o banco previa 3,75% para o crescimento do PIB, elevando depois esta expectativa para 4,25% a 4,75%. A direção do Bank of Canada afirma que o PIB deverá continuar a se expandir em 2001, com taxas de 3% a 4%.

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Marcos de Oliveira
Diretor de Redação do Monitor Mercantil

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