País desenvolvido é aquele que tem os transportes coletivos e o trânsito civilizados. Renda per capita, consumo de eletricidade, quilômetros de rodovias de um país etc. são detalhes.
Se o trânsito é caótico, os carros estacionam livremente nas calçadas, as faixas de pedestres são desrespeitadas por motoristas mal educados e, na hora do rush, as pessoas viajam nos meios de transportes como sardinhas enlatadas, então pode estar certo que o resto dos serviços da cidade também não funcionam bem.
É fácil reclamar da vida; difícil é colocar a qualidade de vida como preocupação central das políticas e programas governamentais.
Não há uma definição precisa do que seja uma boa ou uma má qualidade de vida, válida para todos os cidadãos. É certo, porém, que nas grandes cidades da Região Metropolitana do Rio as questões que mais afetam a qualidade de vida da maioria da população são os serviços públicos de saúde, educação e transporte coletivo.
A qualidade dos serviços públicos depende da capacidade de planejamento dos administradores e da vontade política da sociedade de organizá-los adequadamente, em nível sobretudo local. Não é como o desemprego e a falta de segurança, que dependem da política federal e até mesmo da situação internacional.
A região metropolitana do Rio de Janeiro tem algumas vantagens excepcionais sobre outras cidades: razoável rede de transporte sobre trilhos, baía de águas protegidas que serve como excelente hidrovia natural, malha rodoviária extensa e conservada, uma frota de ônibus bastante nova e um mercado de usuários de razoável poder aquisitivo.
Porém, na média, o usuário de transportes coletivos da região gasta duas horas por dia em deslocamentos de casa para o local de trabalho/estudo e vice-versa. Esta média é tão alta porque existem milhares de pessoas que consomem quatro horas, ou mais, nestas viagens.
Para não parecer que a comparação com países ricos é injusta, vale lembrar que estudos feitos na Rússia indicam que tais viagens deveriam gastar em média quarenta minutos, um terço do que gasta o cidadão do Grande Rio.
E mais: para não haver perda de produtividade do trabalhador, além de durar pouco, as viagens deveriam ser feitas com no máximo cinco pessoas/m².
Para não comprometer a saúde dos passageiros, estudos brasileiros indicam que o ambiente dos transportes coletivos deveria estar à temperatura entre 20 e 22º C, com umidade inferior a 50%, com ventilação superior a 35m³/h por pessoa e com vibração inferior a 3 mm/s.
Infelizmente, estamos muito longe desses índices.
As causas de tantas carências são conhecidas: falta de integração dos modais (barcas, trem, metrô, ônibus e vans), baixo grau de educação no trânsito, desarticulação dos poderes concedentes (Estado e Município, agora que o governo federal saiu da ferrovia), falta de linhas de financiamento para os setores prioritários, entre outras razões.
Por que temos de conviver com tal situação, que tanto prejudica a qualidade de vida das pessoas? Vamos cobrar a superação destes aspectos negativos.
Luiz Alfredo Salomão
Deputado federal (PDT-RJ) e diretor-geral da Escola de Políticas Públicas e Governo na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).















