‘Tratamento precoce’ visto por um só lado

Em reunião marcada pela participação surpresa de senadores governistas que não são membros da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Pandemia e nem costumam comparecer aos debates, foram ouvidos nesta sexta-feira os médicos Francisco Cardoso e Ricardo Zimerman, que defendem o “tratamento precoce” para Covid-19 com o uso de cloroquina e outros medicamentos.

A corrida à CPI se deu o início da sessão com uma composição esvaziada, porque parte do grupo majoritário da comissão, o chamado “G7”, não compareceu, e os que estavam presentes se recusaram a permanecer na oitiva. O relator, senador Renan Calheiros (MDB-AL), em protesto contra fala do presidente Jair Bolsonaro em live nesta quinta-feira (17), a favor da “imunização de rebanho”, comunicou que preferia não fazer perguntas aos médicos.

No entender do senador, o Brasil tem falhado ao não se pautar exclusivamente na ciência no combate à covid-19.optou por não fazer perguntas e deixou a sala após as explanações iniciais dos depoentes.

Os senadores Marcos Rogério (DEM-RO), Eduardo Girão (Podemos-CE), Luis Carlos Heinze (PP-RS) e Jorginho Mello (PL-SC) fizeram perguntas sobre o chamado “tratamento precoce”. Nas respostas, Francisco Cardoso disse que sua posição favorável baseia-se em pesquisas, assim como em sua experiência pessoal. Ele ressaltou que, em sua vivência no tratamento de pacientes com Covid-19, já atendeu mais de mil casos muito graves, com poucos óbitos. “A equipe com a qual trabalhamos em São Paulo já atendeu mais de 4 mil casos com pouquíssimos desfechos fatais. Nós temos resultados” disse Cardoso.

Para o médico, a cloroquina foi demonizada após estudo da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) com a Universidade Federal do Amazonas (Ufam) ainda nos primeiros meses da pandemia, quando 22 pacientes morreram. Cardoso disse considerar que esse estudo é “a maior vergonha científica dos últimos anos”.

Já Ricardo Zimerman destacou que o “tratamento precoce” não se resume à cloroquina, e que ele apresentaria bons resultados na prática. O senador Jorginho Mello lembrou que Zimerman publicou um estudo, com base em dados do Amazonas, defendendo que as medidas de lockdown poderiam ter colaborado no desenvolvimento da cepa P1. Isso porque, segundo essa tese, muitas pessoas teriam ficado aglomeradas em suas casas, o que teria facilitado uma mutação viral mais dinâmica. A tese causou revolta no presidente da CPI, Omar Aziz (PSD-AM), pois Manaus, onde a média de moradores por domicílio é bem menor do que no interior do estado, teve muito mais mortes pela covid-19.

“O senhor está totalmente equivocado sobre meu estado, não sabe o que está falando. Você me desculpe. O senhor está dizendo que no Amazonas, porque tem uma aglomeração maior e tal, por isso replicou mais o vírus? Não diga isso! Porque na capital o número de infectados e mortos foi muito maior que no interior, me explica isso? Em moradias do interior, moram seis, sete pessoas por casa. Porque no interior, que o número de pessoas que moram numa residência é bem maior que na capital, o número de infectados é menor que na capital? — questionou.

Na resposta, Zimerman voltou a defender o rigor de seu estudo, que foi feito com base em dados oficiais do Ministério da Saúde relacionados a localização de telefones celulares durante o período pesquisado.

O senador Flávio Bolsonaro (Patriota-RJ) cobrou dos membros da CPI da Pandemia uma discussão sobre a destituição do relator do colegiado, Renan Calheiros (MDB-AL). Para ele, o gesto de retirar-se da sala de audiência, deixando de ouvir os convidados, mostra que Renan não atende ao requisito básico de respeito ao contraditório e orienta-se por uma opinião pré-concebida.

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