Três faces da identidade do Champagne

A bebida em si, o imaginário constituído para promovê-la e a regulamentação que garante a sua autenticidade.

Tendo analisado um pouco sobre a invenção e a evolução do champanhe e seus principais personagens, fecho essa sequência de artigos elencando alguns aspectos que considero essenciais na concepção da bebida não apenas enquanto vinho, tecnicamente falando, mas enquanto produto, contemplado em sua rede de significados. Segundo a teoria dos signos de Charles Sanders Peirce, qualquer objeto existente tem uma natureza tridimensional, formada por:

1) sua manifestação física, corpórea;

2) suas representações imagéticas;

3) sua identidade simbólica, validada pela sociedade.

Um jeito simples de dizer, que não faz jus à complexidade teórica da Semiótica, mas suficiente para demonstrarmos que a celebridade de um produto reside numa complexa combinação de fatores que se complementam.

Vamos à parte física, à bebida em si. O champanhe é um vinho de segunda fermentação em garrafa, criado posteriormente ao chamado vinho “tranquilo” (sem efervescência), a partir da observação do comportamento dos produtos numa região de configuração climática bem extrema para a viticultura. Ao longo do tempo, no processo de produção do seu vinho “tranquilo”, percebeu-se a sua “vocação” para algo diferente, tido por alguns como um problema e por outros como uma qualidade – caso da efervescência. Novas técnicas foram incorporadas para a obtenção de melhores resultados e para agradar o paladar dos mercados importantes. E, assim, nasceu uma bebida que levou cerca de 150 anos para sair da condição de um vinho de clima muito frio e entrar na condição de um rico espumante, com diferentes estilos.

O segundo ponto é a sua representação, a imagem que se projeta dele. Como eu tratei nos dois artigos antecedentes, o champanhe se constituiu com a colaboração de vários personagens, alguns tomados de empréstimo da história política, econômica e cultural (que se declararam apreciadores da bebida), outros que trabalharam em sua gênese e que foram sistematicamente “louvados” pela excelência dos produtos que faziam e, posteriormente, pela excelência da bebida em si. Isso se deve em parte a uma atitude corporativa dessa região muito favorável ao caráter promocional. A aura de mistério dos segredos que cada casa guarda para fazer o seu produto, a promoção do vinho associada a falas de grandes personagens, todo o imaginário de consumo ligado a festas e vitórias esportivas, a tomada da efervescência como elemento hipnotizador – champanhe é tudo isso aí.

No terceiro ponto está aquilo que dá o lastro para a sua identidade, para consolidar a particularidade do método de produção da bebida e para reforçar o mito “Champagne”. Temos vários reprodutores do método champenoise no mundo, e nenhum deles pode citar essa expressão, além de não poderem usar o nome Champagne. A França trabalha forte em suas regulamentações para se defender de falsificações, fraudes e para valorizar os seus produtos. Isso já é feito em outras regiões, mas vejamos que esta é a única região que pouco usa as D.O.s comunais para se promover, embora elas existam. Isso é um dado, não um recurso para caracterizar e diferenciar a qualidade dos champanhes de distintas regiões.

Em função da necessidade de se fazer cortes de safras e uvas sistematicamente para compensar anos difíceis numa região de clima extremo, mas também para preservar os segredos estilísticos dos champanhes das Maisons, seria talvez complicado predefinir que as uvas devessem vir só de uma subárea ou de que todos os vinhos devessem ser safrados – haveria muita irregularidade. Há sim, parcelas especiais de vinhedos que podem dar a distinção Premier Cru ou Grand Cru nos rótulos. Para os demais, a legislação garante que se possa fazer os cortes mais variados, inclusive entre vinho branco e tinto para produzir o champanhe Rosé – algo não usual em outras categorias. Opta-se por legitimar o produto a partir dos contornos mais largos de toda a região de Champagne e por um método que atenda as condições nas quais ele foi constituído, deixando margem para as marcas promoverem seus estilos “únicos”.

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Míriam Aguiar
Jornalista, educadora e especialista em vinhos

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