Três perguntas: a reunião do Copom, os juros e o dólar

Por Jorge Priori.

Tendo em vista a reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) desta semana, conversamos com Rossano Oltramari sobre o que deve acontecer com a Selic e o dólar. Rossano é sócio e estrategista da 051 Capital, gestora especializada em alocação de recursos e planejamento patrimonial com R$ 2 bilhões sob custódia.

Na reunião de março, nós tivemos um aumento da Selic de 0,75 ponto, para 2,75% ao ano. Esse aumento quebrou o mais longo ciclo de baixa, iniciado em julho de 2015, quando a taxa básica de juros partiu de 14,25% a.a. até atingir 2% a.a. em agosto de 2020. Depois da reunião de maio, o Copom voltará a se reunir nos dias 15 e 16 de junho.

 

De acordo com o ex-presidente do Banco Central Gustavo Loyola, há o risco de o banco ter que apertar a política monetária além do que sinalizou. Na sua opinião, esse risco existe? Qual é a sua expectativa para a reunião desta semana?

Sim, existe o risco de aumento dos juros além do previsto caso a inflação continue subindo e, além disso, as expectativas inflacionárias se deteriorando semana após semana, como vem acontecendo nos últimos meses. Se de fato isso ocorrer, talvez o Banco Central tenha que elevar os juros de uma forma mais intensa e mais prolongada do que o previsto. Mas isso vai depender muito de como os dados de inflação serão divulgados ao longo deste ano. Eu acredito que é muito cedo para cravar que o Banco Central terá que aumentar a dose de juros para conter as expectativas de inflação. Eu ainda não tenho essa convicção, mas se a inflação continuar persistente, sim.

Com relação à expectativa, acreditamos num novo aumento de 0,75p.p. da Selic. Na última reunião do Copom, o Banco Central já havia deixado meio caminho andado para esse novo aumento. Minha expectativa é que ele se confirme em função do que já está acontecendo. Nós temos o dólar recuando e dados de inflação que vem vindo no piso das expectativas. As notícias das últimas semanas, após a última reunião do Copom, são animadoras quando olhamos o cenário inflacionário. Ainda existem cuidados e expectativas muito grandes com relação aos dados futuros, mas acredito que o Banco Central manterá um aumento de 0,75p.p. na reunião desta semana.

 

Por que o Banco Central não consegue mais segurar os juros em patamares baixos?

Na verdade, os juros estão em patamares baixos há algum tempo. O Banco Central iniciou um ciclo de alta em função da deterioração da inflação desde 2020. Os principais componentes que impactaram a inflação, alguns deles temporários, foram o ciclo de alta nas commodities como alimentos, petróleo e minério de ferro, que subiram muito fortemente no mercado internacional, o que impactou os preços locais; a forte desvalorização do real nos últimos 12 meses, o que gerou uma forte pressão inflacionária nos preços dos itens importados ou que tem como referência o dólar; e o auxílio emergencial pago pelo Governo Federal frente a pandemia cujo volume foi bastante alto e gerou pressão inflacionária de curto prazo. Esses componentes levaram à deterioração da inflação, fazendo com que o Banco Central iniciasse um ciclo de alta dos juros.

A expectativa é que terminemos o ano com uma taxa Selic entre 5,50% e 6%. Isso não quer dizer que a taxa de juros nunca mais vá cair. É importante observarmos os dados de inflação que serão divulgados nos próximos meses. Nós ainda temos uma economia debilitada e uma pandemia com muitas medidas de restrição ao seu funcionamento. Como consequência, isso gera uma pressão desinflacionária.

A economia precisa de ajuda. Nós temos uma taxa de desemprego muito alta. O Banco Central está olhando esse lado, mas também analisando os riscos de inflação para tomar as próximas medidas. Na nossa visão, esse ciclo de alta não deve passar dos 6%.

 

Por que, mesmo com o ciclo de alta das commodities, o real não está se valorizando? A partir de qual momento a moeda tende a se valorizar mais?

Essa é a grande questão do momento. Historicamente, quando temos ciclos de alta de commodities, os países produtores têm as suas moedas valorizadas. O Brasil, como um grande produtor e exportador de commodities, deveria estar com um real mais valorizado, mas isso não aconteceu ao longo desse ciclo, principalmente ao longo do último ano. Nós vimos o real se desvalorizando frente ao dólar. Isso está chamando a atenção.

Na nossa visão, existem alguns fatores que impactaram a taxa de câmbio, como a questão fiscal sobre como o governo vai tratar suas contas públicas e se o teto dos gastos será respeitado, e o imbróglio político. Nós tivemos muitas incertezas ao longo de 2020 e 2021 que impactaram negativamente o câmbio. Para termos uma ideia, o Orçamento de 2021 foi aprovado há duas semanas. Nos últimos dias, nós tivemos um alívio de pressão no câmbio com o dólar batendo em R$ 5,44. Cabe destacar que há algumas semanas ele estava em R$ 5,80.

Acredito que haja espaço para o real se valorizar ao longo dos próximos meses em função de um fluxo de notícias mais positivo para o Brasil com a questão fiscal sendo encaminhada, a questão política dando uma aliviada, os dados de pandemia trazendo algum alento e a vacinação avançando. Tudo isso pode contribuir para trazer um cenário mais benigno para o ambiente político-econômico do país com reflexos no câmbio.

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