Três perguntas: as empresas e a formação de ecossistemas financeiros

Por Jorge Priori

Conversamos com Caio Bretones, fundador e CEO da Mobile2you, sobre a formação de ecossistemas financeiros de empresas, que acabam funcionando como bancos digitais delas próprias, e sobre os pilares que fazem com que um projeto dessa envergadura tenha sucesso.

Nos últimos três anos, a Mobile2yo, fundada em 2011, desenvolveu mais de 50 ecossistemas financeiros. Segundo Caio, “as novas regulamentações e facilidades que o Pix e outras novidades trouxeram para o cenário de meios de pagamentos impulsionaram a fintechzação, ou criação de bancos digitais próprios, por companhias de todos os segmentos.”

O que faz exatamente a Mobile2you? Ela é uma empresa de Baas?

A Mobile2you é uma mobile-house, ou seja, software-house focada exclusivamente em aplicativos mobile. Dentro da nossa expertise, a construção dos aplicativos são realizadas sob-medida (tailor-made), traduzindo as regras de negócios das empresas em algoritmos.

Nas construções que realizamos, o foco é na indústria financeira, com a criação de produtos de bancos digitais (integrados à estruturas de BaaS – Banking as a Service), cartão de crédito, consignado e fintechs de modo geral.

A Mobile2you não é uma empresa de BaaS, e sim a empresa que pluga em estruturas de BaaS e core bancário, criando soluções únicas e individuais para atender cada nicho de atuação específico dos nossos clientes e parceiros, resultando, desta forma, em um ativo para a empresa que contrata.

Como funciona um ecossistema financeiro de uma empresa?

Não basta apenas que a empresa tenha seu próprio aplicativo financeiro. Para que o cliente utilize a plataforma de forma recorrente é preciso que algumas estratégias sejam implementadas, e uma delas é o ecossistema financeiro. Pensar em funcionalidades e serviços que atendam as necessidades do usuário, de forma que ele não precise recorrer a outras instituições financeiras. A criação de um ecossistema voltado para o nicho de atuação do usuário permite que os valores que transitam nas contas possam se movimentar “horizontalmente” entre contas do mesmo banco digital.

As empresas vêm passando por um processo de fintechzação, viabilizado pelas recentes legislações que as permitem contratar provedores de serviços financeiros e assim criar suas próprias soluções para melhor aderência em seu nicho de atuação. Sendo assim, as companhias que saíram na frente e criaram unidades de negócios financeiras internas, aproveitaram do seu volume de clientes, fornecedores e parceiros para criar um ecossistema financeiro, gerando valor à empresa e ao dia a dia dos usuários presentes no ecossistema criado.

Vocês já participaram da montagem de 50 bancos, alguns projetos deram certo e outros não. Com base nessa experiência, quais são os pilares que fazem um projeto desse porte ter sucesso?

Existe um padrão de sucesso que pudemos observar durante o processo de desenvolvimento de mais de 50 bancos digitais nichados nos últimos três anos. Podemos pensar em três pilares essenciais que devem ser implementados em qualquer novo banco digital criado: possuir seu (1) nicho de atuação específico, ter como resultado da estratégia uma forma de (2) cash-in automático (entrada de recursos na conta) e compor o banco com a oferta do (3) ecossistema para fidelização do usuário. Uma vez que a companhia trabalhar na interseção desses três pilares, as chances de prosperidade são exponenciais.

Qualquer produto, quando projetado para atingir um público ou nicho específico, tem maiores chances de sucesso do que aqueles que tentam alcançar a todos sem um direcionamento. Com os serviços financeiros não é diferente. Por já ter conhecimento de como operar com os clientes e fornecedores do seu nicho, a companhia saberá quais serviços adicionais pode oferecer.

Criado o produto nichado e implementado o cash-in automático, que é representado pela entrada orgânica e contínua de valores em movimentações como TED, Pix, boletos bancários e cartões, já há um caminho estabelecido para um crescimento sustentável. Contudo, apenas com esses dois pilares, o usuário pode simplesmente transferir seus recebíveis para outros bancos (digitais ou tradicionais) e, com a facilidade do Pix, isso se torna extremamente rápido. Frente a este cenário, a melhor forma de evitar que isso aconteça é implementando o terceiro pilar: a criação do ecossistema, visando, desta maneira, manter a assiduidade do usuário na plataforma, o que é fundamental.

O trabalho realizado na intersecção dos três pilares permite, ainda, a criação de uma base de dados (Big Data) essencial para a tomada de decisões e o mapeamento do comportamento dos usuários. Ao cruzar as movimentações financeiras, as ofertas de serviços e o comportamento de uso com geolocalização é possível mapear o potencial e a predisposição para adquirir novos serviços, antecipando as necessidades de cada grupo de usuário, estimulando o engajamento e garantindo desta forma o início da jornada de sucesso do produto financeiro.

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