Três perguntas: criptomoedas, regulamentação, startups e stablecoins

Por Jorge Priori.

A Transfero é uma empresa internacional de soluções financeiras baseadas em tecnologia blockchain. Fundada em 2014 no Rio de Janeiro, ela transferiu sua sede para a Suíça em 2015 por causa da criação do Cripto Valley. A Transfero é responsável pela criação do BRZ Token, primeira stablecoin (criptomoeda estável) brasileira em circulação e a maior no mundo não pareada ao dólar. O BRZ já atingiu mais de 1 bilhão de tokens emitidos, o equivalente a R$ 1 bilhão.

Recentemente, a Transfero criou com a suíça Solana um fundo de US$ 20 milhões para investimento em projetos early-stage que priorizem o desenvolvimento no Brasil de soluções na blockchain da Solana com potencial de integração ao BRZ. Diga-se de passagem, a Solana (SOL) foi umas das criptomoedas que mais se valorizaram desde o último mês de agosto.

Conversamos com Safiri Felix, diretor de Produtos e Parcerias da Transfero, sobre a discussão da regulamentação do mercado de criptomoedas no Brasil e no mundo, a visão da empresa sobre os projetos relacionados a criptoativos que estão sendo criados no Brasil e sobre a possibilidade das stablecoins serem substituídas pelas moedas digitais criadas pelos bancos centrais.

 

Como você vê a discussão sobre a regulamentação do mercado de criptomoedas no Brasil e no mundo?

A regulamentação do mercado de criptomoedas é um processo sem volta. À medida que esse mercado vai ganhando relevância, aumenta a pressão para que se estabeleçam regulamentações. É importante salientar que o setor não é totalmente desregulado. Por exemplo, no Brasil já existem normativas tanto da Receita Federal, quanto manifestações da CVM (Comissão de Valores Mobiliários) e do Banco Central em relação a diversos modelos de negócios.

Está em discussão no legislativo uma série de Projetos de Lei para determinar qual deve ser o papel dos órgãos de controle na supervisão do mercado. A expectativa é que fique claro o que deve ser da alçada da CVM, o que ficará a cargo do Banco Central e também quais devem ser as regras observadas pelos intermediadores nesse mercado. Essas definições vão em linha com a diretriz das políticas discutidas ao redor do mundo. Além disso, esse é um processo que tende a aumentar cada vez mais a legitimidade do mercado cripto como uma nova classe de ativos.

 

Como você avalia as perspectivas dos projetos relacionados a criptoativos que estão sendo criados no Brasil?

Os projetos de cripto desenvolvidos no Brasil enfrentam uma série de dificuldades para se desenvolver, especialmente a escassez de desenvolvedores especializados, acesso a capital de risco e incerteza regulatória. Muitos projetos acabam optando por desenvolver suas iniciativas em outras jurisdições justamente pela falta de clareza em relação ao que pode ou não pode ser feito no país.

O mercado de criptoativos é, por definição, global. Muitas vezes acaba sendo mais inteligente ir para uma regulamentação mais permissiva em outra jurisdição do que se limitar com as restrições da regulação local. Ao mesmo tempo, temos desenvolvedores no país que são extremamente competentes trabalhando em projetos internacionais.

Dentro desse contexto de reconhecermos o potencial do mercado no Brasil, a Transfero, por meio do BRZ, e a Solana Foundation criaram um fundo de US$ 20 milhões para financiar projetos baseados em blockchain no Brasil – sendo a maior iniciativa de funding de projetos relacionados no país.

O que nós queremos com essa iniciativa é encurtar a distância entre o mercado brasileiro e global, através de um fundo de fomento para acelerar o desenvolvimento do ecossistema local e permitir que projetos brasileiros em estágio embrionário se desenvolvam e alcancem seu potencial no mercado.

 

As moedas digitais que estão sendo discutidas por bancos centrais podem substituir as stablecoins? Por exemplo, no futuro a BRZ poderá ser substituída pelo Real Digital?

A discussão sobre as moedas digitais emitidas pelos Bancos Centrais, conhecidas como CBDCs (Central Bank Digital Currency), é uma pauta que deve evoluir substancialmente nos próximos anos. O Banco Central do Brasil se destaca em relação aos seus pares em relação ao que pretende atingir e quais os gargalos de implementação.

Acredito que dificilmente teremos essa iniciativa funcionando em menos de dois, três anos. Nesse meio tempo, as stablecoins, como o BRZ, devem continuar cumprindo o seu papel, que é facilitar as negociações de criptoativos.

Hoje, a maior parte dos volumes negociados está concentrado nas stablecoins, justamente pela facilidade de movimentação, principalmente para operações de arbitragem em mais de um mercado. Com as stablecoins, os agentes conseguem fazer isso de maneira muito ágil, ao contrário das limitações impostas pelo sistema financeiro convencional. O cenário mais provável é de coexistência entre as moedas digitais centralizadas e stablecoins privadas.

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