Três perguntas: fundos de corporate venture capital

Por Jorge Priori.

Conversamos com Richard Zeiger, sócio da MSW Capital, sobre os investimentos de corporate venture capital (CVC) e o momento atual do mercado de venture capital (VC).

 

O que faz a MSW Capital?

Nós somos uma gestora de VC que possui duas características: o investimento em negócios em estágio inicial, nos rounds Seed e Série A, quando a empresa ainda está descobrindo os seus rumos e precisa de capital para crescer, se desenvolver e achar o Product Market Fit, e, diferente das grandes gestoras de VC, nós optamos pelas grandes corporações como parceiros para investirem conosco. Essas corporações perceberam a demanda pelo investimento em startups e entenderam que o CVC é uma das ferramentas mais importantes dentro de uma estratégia de inovação de uma grande corporação.

Os nossos fundos recebem recursos de corporações para a realização de investimentos em startups com as quais tenham sinergia. Nosso primeiro fundo reuniu grandes corporações, entre elas a Microsoft, Grupo Votorantim e a Qualcomm Ventures, realizando investimentos em segmentos estratégicos para que elas conhecessem novos modelos de negócios.

Recentemente, nós lançamos um novo fundo que é a continuidade do modelo que chamamos multi-corporate venture capital com a participação da BB Seguros, Baterias Moura e a AgeRio. Nós também temos um fundo proprietário do Banco do Brasil, onde nós somos um dos gestores para investimentos em fintechs, agrotechs e govtechs, além de negócios digitais que ajudem a melhorar a jornada digital do cliente do banco.

Por último, nós estamos trabalhando junto com o Parque Bondinho Pão de Açúcar num programa de inovação aberta para investimento em negócios de turistech que envolvam turismo, entretenimento e mídia.

 

O que as corporações buscam quando investem num fundo de CVC?

Essa pergunta é excelente. Normalmente, quando uma corporação quer investir numa startup, ela tem duas motivações. A primeira é retorno estratégico, ou seja, acesso a novos modelos de negócios, empreendedores e novas tecnologias, que muitas vezes são mais rápidos que as áreas de pesquisa e desenvolvimento das próprias corporações. Por exemplo, um banco pode ter todos os recursos do mundo, ser muito capitalizado, mas isso não quer dizer que ele tenha os melhores caras de criação de produtos. O banco só vai conseguir acessar isso através de um programa de investimento em participações minoritárias, leia-se Corporate Venture Capital.

A segunda motivação é o retorno financeiro. Os recursos que são colocados numa startup precisam voltar num valor maior do que foi investido.

Como nós somos uma gestora de VC que se especializou em atuar com corporações, nós sempre vamos buscar essas duas coisas, pois é necessário ter estratégia e ter financeiro. Se a corporação aloca R$ 50 milhões num fundo dedicado para investir em startups, por maior que seja o retorno estratégico, nada substitui você dizer que colocou R$ 50 milhões e tirou R$ 150 milhões. O retorno financeiro é o que garante a sustentabilidade e a perenidade de qualquer programa de CVC bem-sucedido.

Um ponto importante é que investir em startups não é um business de corporação, e sim de VC. O que acontece é que muitas vezes as corporações, por terem suas áreas de novos negócios e M&A, acreditam que conseguem fazer esse tipo de investimento sozinhas, colocando, por exemplo, o fundo de VC debaixo do M&A. Além de criar situações não favoráveis ao empreendedor, isso pode levar a uma seleção adversa, quando a corporação faz um investimento numa startup depois de ela ter rodado o mercado inteiro, passando por outros VCs e outras corporações, sem levantar um único real. Se a corporação é a última alternativa de funding do empreendedor, provavelmente esse negócio não é bom.

Hoje as corporações estão mais maduras no entendimento da importância de um programa de investimento em participações minoritárias. Se não for através de uma gestora especializada, que seja através de alguém que tenha sido desse mercado e que saiba tocar os investimentos, sentar nos conselhos, apoiar o empreendedor e fazer sinergia. Quando uma corporação vai sozinha, geralmente, há uma mentalidade curto-prazista, e a chance de dar errado é maior.

 

Como você está vendo o momento atual do venture capital?

Nós estamos passando por um momento diferente no VC, com muita influência da questão macroeconômica. Os investidores de VC vão preferir negócios com mais liquidez e mais garantia de retorno. Não podemos nos esquecer que investimentos de venture capital e private equity são de alto risco e baixa liquidez. O cenário atual é desfavorável para gestores que estão levantando recursos para esse tipo de investimento. Na outra ponta, as startups que levantam esses recursos também ficam prejudicadas já que eles não chegam.

É importante destacar que nos últimos três anos, nós vivemos um ciclo aceleradíssimo de crescimento do VC, com volumes de dinheiro jamais vistos. Existe um indicador chamado dry powder que trata do dinheiro que os gestores já levantaram, mas que ainda não foi alocado. Só para que tenhamos uma ordem de grandeza, no Brasil, o dry powder está em torno de R$ 16 bilhões. Há mais dinheiro disponível que bons negócios para alocação. A mídia talvez não olhe para esse número, mas ele existe.

A consequência mais imediata é que os gestores terão mais dificuldades para levantar recursos para formação de novos fundos, e, ao mesmo tempo, as startups que estão levantando a sua Série C, Série B, que estão mais próximas da bolsa, também terão dificuldades para receberem investimentos. Talvez a pujança de muitos fundos, muito capital e excesso de liquidez não volte aos parâmetros de 2021, o que, na minha opinião, de forma temporária poderá ser educativo para o ecossistema em termos de valuations”.

Ao mesmo tempo em que tivemos muito capital por 2, 3 anos, isso inflacionou demais os valuations. Eu me refiro, basicamente, ao late stages. Havia mais de um investidor competindo pelo mesmo investimento. Chegava um investidor oferecendo US$ 100 milhões, mas o negócio ficava com outro que oferecia US$ 120 milhões. O mercado estava absurdamente comprador e absurdamente fácil para levantar recursos. Isso foi global.

Chegou-se a dizer que os empreendedores eram culpados pelos altos valuations, mas quem paga o valuation é o investidor. O empreendedor não faz o cheque. Está mais difícil, está havendo uma correção, mas isso será positivo. Os bons negócios vão continuar levantando dinheiro. Os empreendedores que construíram negócios sustentáveis não terão dificuldades para levantar recursos.

Leia também:

Três perguntas: startups – bolha ou ajuste, unicórnios desconhecidos

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Artigos Relacionados

Fintechs emprestaram mais de R$ 12 bi em 2021

Crédito é quase o dobro do ano anterior, diz pesquisa da ABCD e PwC Brasil

Adquirir conhecimento é a chave para investir melhor

Para economista, medo é o mesmo sentimento que se tem do desconhecido

Bancos elevam projeção da carteira de crédito para 2022

Nova revisão foi puxada pela carteira com recursos livres

Últimas Notícias

BNDES: R$ 317,2 milhões nos aeroportos de Mato Grosso

Ao todo serão investidos R$ 500 milhões nos quatro aeroportos, com participação de 65% do BNDES

Fintechs emprestaram mais de R$ 12 bi em 2021

Crédito é quase o dobro do ano anterior, diz pesquisa da ABCD e PwC Brasil

Regulador divulga primeiro balanço sobre o 5G em Portugal

No final do primeiro trimestre, já havia 2.918 estações de rede 5G espalhadas por 198 cidades (64% das cidades)

Está mais fácil comprar carro na China

Vendas no varejo de veículos de passageiros atingiram 1,42 milhão de unidades durante o período de 1 a 26 de junho

Adquirir conhecimento é a chave para investir melhor

Para economista, medo é o mesmo sentimento que se tem do desconhecido