Três perguntas: inflação de setembro – quadro atual e perspectivas

Por Jorge Priori.

A inflação de setembro, medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), foi de 1,16%, a maior variação para um mês de setembro desde 1994 (1,53%). Em agosto, o IPCA havia ficado em 0,87%. No ano, a inflação acumula alta de 6,90%, e nos últimos 12 meses, alta de 10,25%.

Conversamos com Mauricio Nakahodo, economista sênior do Banco MUFG Brasil, operação brasileira do Mitsubishi UFJ Financial Group, sobre o atual quadro inflacionário, a efetividade da Selic no combate à inflação e se o que está acontecendo no Brasil é um processo isolado ou está em linha com o que está acontecendo no exterior.

 

Como você avalia o atual quadro inflacionário brasileiro?

O quadro de pressões inflacionárias está concentrado, principalmente, em alimentos, energia elétrica, combustíveis e, mais recentemente, preços de veículos e pressões pontuais em serviços.

A alta da inflação de alimentos e energia elétrica está diretamente relacionada ao clima, diante da escassez de chuvas neste período seco que, normalmente, vai de parte de abril até início de outubro. Isso afeta algumas culturas agrícolas e levou ao baixo nível dos reservatórios das hidrelétricas com o consequente acionamento de mais termelétricas, que possuem custo mais elevado de geração de energia.

Entendemos que agora, quando começa um regime de chuvas mais intensas, e, principalmente, considerando que no período entre dezembro deste ano e fevereiro do ano que vem haja um regime de chuvas mais próximo à normalidade, haverá condições propícias para o plantio e colheita de grãos no final deste ano e no ano que vem, e também alguma recomposição do nível dos reservatórios. Ainda assim, entendemos que haverá preocupações quanto ao nível dos reservatórios a partir de abril do ano que vem, quando começa o período mais seco.

O reajuste de combustíveis se deve à alta do preço do petróleo no exterior junto com a desvalorização do real. Os preços dos veículos refletem o cenário de falta de chips eletrônicos, que são fortemente fabricados em países do Sudeste Asiático, e que têm sofrido com surtos de Covid e consequente interrupção da atividade das fábricas.

No geral, estamos falando que neste ano, até o momento, a inflação foi pressionada mais por problemas que afetaram o lado da produção (ou os custos de produção) do que propriamente relacionados à demanda.

 

O aumento da taxa Selic é realmente efetivo no controle da inflação? Por exemplo, ele tem efeito sobre os aumentos das commodities, combustíveis e energia elétrica?

A taxa Selic tem um impacto sobre a inflação através de alguns canais de transmissão. Primeiro, a elevação da Selic ajuda a coordenar melhor as expectativas de inflação para o ano que vem, uma vez que mostra o comprometimento do Banco Central em fazer com que a inflação efetiva convirja para patamares em torno das metas centrais de inflação estipuladas para cada ano. O papel do BC na coordenação de expectativas é fundamental, principalmente agora, quando há uma grande preocupação com o potencial repasse dos atuais custos de produção (com combustíveis e energia elétrica) para os preços ao consumidor num momento de reabertura da economia e maior mobilidade social.

Outro canal de transmissão mais intuitivo é através do canal do crédito, pois a elevação de juros influencia nos juros dos empréstimos para pessoas e empresas. Isso acaba limitando um potencial aquecimento do crédito que fomentaria este repasse de custos para o consumidor final.

Por fim, tem também o impacto através do câmbio, uma vez que a elevação dos juros torna o real mais atraente para operações chamadas de carry-trade (títulos negociados no mercado local pagando juros mais elevados). Neste sentido, pode influenciar em alguma valorização do real ao atrair investimentos estrangeiros em títulos de renda fixa negociados no mercado local. A valorização do real reduz o custo dos produtos importados e das peças importadas usadas na montagem do produto final, ajudando a reduzir as pressões inflacionárias.

Os aumentos de preços das commodities no exterior, dos combustíveis e da energia elétrica que estamos vendo neste ano dependem mais dos fatores que mencionei na primeira resposta, e estão fora do controle da política monetária. Só há algum efeito através do canal do câmbio porque influencia nos preços de commodities em reais, incluindo o preço do petróleo.

A alta da Selic é importante pelos fatores que mencionei nesta segunda resposta e por causa do efeito defasado da alta dos juros sobre a atividade econômica e inflação. O impacto não é imediato e ocorre de forma gradual ao longo de 6 a 9 meses depois. É por isso que é importante o BC elevar os juros neste ano para evitar mais um ano de inflação muito elevada no ano que vem, com todos os custos para a economia e a sociedade que a inflação gera.

 

O processo inflacionário que está acontecendo no Brasil é um processo isolado ou está em linha com o que está acontecendo no exterior?

Parte desta resposta já está dada nas respostas anteriores. Uma parte do processo inflacionário está relacionado ao que está acontecendo no exterior. Isto fica claro na cotação das commodities no exterior, incluindo a alta do preço do petróleo lá fora, e nos preços dos veículos novos que têm se elevado por conta da escassez de peças e componentes. A outra parte do processo está relacionada a fatores domésticos. O clima, em si, poderíamos colocar como algo alinhado ao que está acontecendo em outros países, pois está relacionado aos fenômenos climáticos. Contudo, cada país, em função de sua localização, enfrenta problemas climáticos distintos em cada época do ano.

Neste momento, estamos em um cenário bom, de maior controle da pandemia graças ao bom ritmo da vacinação. Neste sentido, a maior mobilidade social que temos visto é favorável para a atividade econômica, embora seja preocupante para uma potencial alta da inflação de serviços e também do repasse de custos para preços de bens em geral.

Questões relacionadas às políticas governamentais, como, por exemplo, a avaliação dos investidores em relação às chances de aprovação de reformas, o avanço ou não de privatizações e concessões, e como o governo está lidando em geral com a necessidade de ajuste fiscal, acabam influenciando a taxa de câmbio. Uma eventual percepção negativa dos investidores e outros agentes do mercado tem efeito em algum movimento de enfraquecimento do real, com o consequente impacto sobre a inflação.

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