Três perguntas: investimentos brasileiros em títulos chineses

Por Jorge Priori.

O Brasil possui uma participação muito pequena no mercado chinês de títulos, apesar de todo o seu potencial. Tendo como referência esta realidade, conversamos sobre as perspectivas deste mercado para investidores brasileiros com David Cohen, head de Tesouraria do banco Bocom BBM, joint venture formada pelo banco chinês Bocom (Bank of Communications) após a compra de 80% do banco brasileiro BBM em 2016.

O Bocom BBM é a primeira instituição latino-americana que acessa o mercado chinês de títulos através da plataforma chinesa Bond Connect, desenvolvida pela CFETS (China Foreign Exchange Trade System; Sistema de Transações Cambiais da China) e a HKEX (Hong Kong Stock Exchange; Bolsa de Hong Kong).

 

O investimento em títulos chineses pode ser interessante para investidores brasileiros?

Os brasileiros têm aumentado sua carteira no exterior, mas os níveis permanecem consideravelmente baixos, em apenas 3,6% do PIB. Outros mercados emergentes têm um investimento de carteira no exterior muito maior, como o Chile (63% do PIB). Há, portanto, bastante espaço para que os brasileiros aumentem ainda mais seus investimentos nesta modalidade.

Entretanto, os Estados Unidos continuam sendo o destino de grande parte destes investimentos no exterior, ainda que o rendimento real esperado de uma carteira padrão esteja em seu nível mais baixo dos últimos 25 anos. Nesse contexto, os títulos chineses oferecem uma vantagem em relação aos títulos americanos e a outros mercados desenvolvidos, com rendimentos nominais e reais ainda maiores, já que os títulos chineses se recuperaram muito mais rápido da pandemia.

Os títulos chineses também mostraram notável estabilidade durante todo o período no qual os rendimentos do Tesouro americano tiveram a pior performance. Além disso, a correlação dos títulos chineses com os títulos de outros países desenvolvidos é baixa, trazendo maior diversificação à carteira de investimentos.

Por fim, o carrego do RMB (renmimbi) comparada a sua volatilidade é outro elemento que agrega pontos à sua atratividade. Normalmente, espera-se que as moedas com maior volatilidade ganhem maior carrego. No entanto, a moeda brasileira teve, nos últimos anos, uma das maiores volatilidades do mundo, assim como também um dos carregos mais baixos. A moeda chinesa, por outro lado, tem uma volatilidade muito baixa, mas um porte e carrego que a tornam bem mais atrativa.

 

Como está o mercado de títulos chineses? O momento é apropriado para esse tipo de investimento?

O momento é bastante favorável para o investimento em títulos chineses. A China é hoje o segundo maior mercado de títulos do mundo e deve crescer ainda mais, já que o tamanho do mercado de títulos chineses em relação ao PIB está mais próximo das economias em desenvolvimento do que das economias desenvolvidas. Ao mesmo tempo, a porcentagem de investidores estrangeiros que possuem dívida soberana chinesa é extremamente pequena, apesar de crescente.

Para compreender com precisão os fatores que desencadearam este crescimento, além de olhar para o tamanho da economia chinesa, é preciso também levar em consideração as forças subjacentes à transição demográfica atualmente em curso na China. Por volta de 2010, a China atingiu seu auge em termos de dividendos demográficos e, desde então, o rápido envelhecimento da população e o aumento do consumo contribuíram tanto para um aumento da taxa de dependência da idade quanto para uma diminuição da poupança, uma tendência que se espera que continue nos próximos anos.

Além disso, como se sabe, a dinâmica da conta corrente é um reflexo da dinâmica da poupança menos investimentos, portanto a diminuição da poupança significa que a dinâmica da conta corrente na China tem sido influenciada por uma força econômica subjacente de redução, com a diminuição do superávit da conta corrente nos últimos anos, atingindo um saldo da conta corrente próximo a zero em 2018. Isso foi revertido apenas ligeiramente nos últimos anos devido às circunstâncias excepcionais que deslocaram a demanda de bens americanos, bem como a diminuição da conta de serviços. Entretanto, durante a próxima década, todas as previsões são de que o movimento de redução deve continuar e, espera-se, que a conta no exterior da China seja revertida.

Como consequência disso, a China procura financiar esse déficit da conta corrente com economias externas de outros países, e isso foi observado mais significativamente no aumento dos influxos de carteira no financiamento do balanço de pagamentos.

Um dos ativos mais importantes que tem crescido em importância são os títulos. A fim de atrair capital, muitas reformas foram implementadas, sendo exemplos notáveis:

– a reforma cambial, que levou à inclusão do RMB no SDR (Special Drawing Rights; Direito de Saques Especiais);

– a contínua flexibilização da cota do FII (Foreign Institutional Investor, Investidor Internacional Estrangeiro), até sua completa remoção no início do ano passado;

– a redução e isenção de impostos para investidores estrangeiros;

– a inclusão e criação de plataformas que permitirão aos investidores estrangeiros investir na China diretamente onshore, tais como Bond Connect e CIDM Direct.

Uma das consequências disso foi a inclusão de títulos chineses no índice WGBI (World Government Bond Index, Índice Mundial de Títulos Governamentais) do FTSE (Financial Time Stock Exchange, Bolsa de Valores do Financial Times), o que levou a um enorme aumento na participação estrangeira de títulos chineses, que atualmente somam quase US$350 bilhões (o Brasil não faz parte deste índice).

 

Como escolher um título do mercado chinês?

Os principais critérios ao escolher um título de renda fixa são: taxa, prazo, liquidez e risco de crédito. Para quem não quiser avaliar o risco de crédito das empresas chinesas e quiser um investimento com boa liquidez, os principais títulos são os títulos do governo chinês (CGB, China Government Bonds) e os títulos do Banco de Desenvolvimento da China (CDB, China Development Bank). Ambos os títulos apresentam liquidez bastante elevada. Os CDBs, porém, apresentam uma taxa mais elevada, devido a um diferencial de incentivo fiscal, que afeta somente os chineses. Desta forma, os CDBs, por apresentarem risco bastante similar aos CGBs, contam com certa vantagem para investidores estrangeiros.

O Bocom BBM está preparado para ajudar seus clientes a aproveitar essa oportunidade buscando exposição a esse mercado de várias maneiras: para investidores institucionais, podemos fazer swaps sintéticos que podem replicar o retorno desses títulos; para investidores não institucionais, oferecemos fundos ligados a títulos de renda fixa chineses.

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