Três perguntas: o mercado brasileiro de armas e munições

Por Jorge Priori.

Até a década de 1990, era possível abrir um jornal de grande circulação e encontrar, normalmente e sem alarde, anúncios de armas e munições em suas páginas. Havia um comércio legalmente constituído que gerava toda uma cadeia de valor com negócios, empregos e arrecadação de tributos. Em 2003, com a aprovação do Estatuto do Desarmamento (Lei 10.826, de 22 de dezembro de 2003), os governos federais passaram a criar uma série de dificuldades para o mercado já estabelecido.

Em outubro de 2005, foi feito o referendo sobre o comércio de armas de fogo, onde 59,1 milhões de brasileiros votaram contra a proibição (63,94%), num universo de 95,3 milhões de votantes que compareceram ao referendo.

A mensagem clara da população foi ignorada, e as dificuldades continuaram a ser criadas, mesmo que isso não tivesse relação com os índices de criminalidade, que só faziam aumentar. Isso acabou se refletindo, inclusive, no colecionismo de armas. Neste contexto, peças de valor histórico e financeiro, que poderiam ser acolhidas em coleções particulares e museus de todo o mundo, foram destruídas.

Muito se discute sobre armas e munições no Brasil, mas pouco se fala do seu mercado, que depois de tantos anos, voltou a respirar. Para entendermos melhor o seu momento, conversamos com Flavia Ozawa, analista da Eleven Research.

 

Como está o mercado de armas e munições no Brasil? O que dificulta o desenvolvimento desse mercado?

O mercado de armas de fogo e munições no Brasil está em trajetória ascendente desde 2018. De acordo com os dados fornecidos pela Polícia Federal, em 2019 foram registradas mais de 94 mil novas armas, valor que representa um crescimento de 84,3% na comparação anual. Em 2020, apesar da base de comparação mais forte, o crescimento em relação a 2019 foi de 97,8%, com cerca de 186 mil novas armas registradas. O movimento ocorre em momento de aumento da popularização do assunto com o posicionamento aberto do atual presidente e a maior flexibilização em relação às normas sobre o porte e registro de armas.

Um dos principais fatores restritivos é o peso dos impostos que incidem sobre as armas e que podem superar 70% do valor ao cliente final. Particularmente às fabricantes de armas, a maior dificuldade encontrada no mercado brasileiro é em relação a burocracia acerca das certificações necessárias para o lançamento de novos produtos. Esse último levou a uma mudança estratégica na Taurus, maior fabricante de armas leves brasileira, para o lançamento da GX4 em maio deste ano. Para conseguir iniciar a comercialização da GX4 simultaneamente no Brasil e nos Estados Unidos, a companhia produziu o armamento em sua fábrica na Geórgia (Estados Unidos) e passou a exportar para o Brasil, uma inversão na dinâmica tradicional.

 

Como está o mercado de armas e munições nos Estados Unidos?

O mercado dos Estados Unidos tradicionalmente é o mais relevante em nível mundial e, assim como o brasileiro, tem apresentado valores recordes. De acordo com os dados do NICS (National Instant Criminal Background Check System; em português, Sistema Nacional de Checagem Instantânea de Antecedentes Criminais), administrado pelo FBI, foram processados um total de 39,7 milhões de verificações em 2020, número 40% superior ao de 2019. Os dados de janeiro a abril de 2021 apontam para uma continuação do movimento, com um crescimento de 31,3% de consultas na comparação anual.

Apesar desses dados representarem a intenção de compra em alguns estados, e não necessariamente a efetivação do ato, vemos um aumento da demanda em momento de pandemia, de maior receio gerado pela invasão do Capitólio dos Estados Unidos e de mudança presidencial com o consequente aumento das incertezas em relação às mudanças na regulação.

 

A Taurus é a única empresa brasileira desse setor com ações negociadas na B3. Como foi o desempenho da empresa gaúcha nos últimos anos?

Em 2015 a companhia iniciou um processo profundo de turnaround que resultou na virada evidenciada pelos resultados operacionais e financeiros de 2020. O processo de reestruturação das operações, que possibilitou o retorno a um nível operacional positivo e aumento da capacidade, aliado ao foco da gestão em processos robustos de produção, logística e qualidade, se mostraram decisivos para a captura das oportunidades geradas pelo momento de maior demanda nos principais mercados de atuação da Taurus (Estados Unidos e Brasil).

Naquele ano, a companhia alcançou dois marcos importantes: (i) reversão do patrimônio líquido para patamar positivo, que era negativo desde 2015; e (ii) redução da alavancagem financeira, dada pelo indicador dívida líquida/Ebitda, para 1,7x ao final de 2020, valor que consideramos favorável ao cumprimento das obrigações, e bem abaixo dos 12,0x em 2014.

Leia também:

Três perguntas: Taurus e as alterações sobre armas e munições

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