Três perguntas: o mercado de ações em novembro de 2021

Por Jorge Priori.

Conversamos com Marco Saravalle, estrategista-chefe da Sara Invest, sobre o mercado de ações em novembro de 2021. O Ibovespa fechou o mês com 101.915 pontos, a mínima do ano, apresentando uma queda de 1,53% em novembro. No ano, a queda é de 14,37%, e nos últimos 12 meses, queda de 6,41%.

Também conversamos sobre a sua visão sobre os desempenhos setoriais e sobre os resultados do 3T21 recentemente divulgados. A Sara Invest é especializada em ações menos conhecidas e que por isso acabam ficando de fora do radar de investidores. A casa de análise cobre mid e small caps que possuem valor de mercado de até R$ 15 bilhões.

 

Como você viu o mercado de ações em novembro de 2021? Como você está vendo as suas perspectivas?

Em novembro, nós tivemos o quinto mês consecutivo de queda da bolsa, embora ela tenha sido um pouco menor que nos meses anteriores. No ano, a queda acumulada é superior a 14%. Logicamente, precisamos entender os fatores. Por exemplo, nos últimos dias do mês, nós tivemos a preocupação global em relação às novas variantes do coronavírus, o que acabou trazendo uma aversão ao risco.

No Brasil, nós já temos algumas cidades anunciando que não vão realizar festas de fim de ano para evitar aglomerações. Isso acaba atrasando o processo de recuperação econômica e traz mais incertezas e dúvidas para os investimentos de risco. A queda também foi acelerada pela volatilidade bastante grande que tivemos lá fora.

Eu ainda acredito num mês de dezembro positivo. Usualmente, nós temos a tradição do Rally de Natal, mas dificilmente vamos ter um Ibovespa positivo no acumulado do ano. Não há como o índice subir mais de 14% em dezembro. A probabilidade de isso acontecer é quase zero, mas, ao menos, vemos a possibilidade de redução das perdas. O fechamento negativo do Ibovespa está na contramão das bolsas internacionais.

Os meses de agosto, setembro e outubro foram marcados por fatores locais como a incerteza sobre a nossa situação fiscal. Teremos eleições no próximo ano. Já temos revisões maiores que a média mundial para inflação e juros, com menor crescimento econômico. Alguns economistas já estão prevendo que o Brasil terá uma recessão em 2022. Tudo isso trouxe pressão para os investimentos de renda variável, embora aqui na Sara Invest nós continuemos vendo ativos muito descontados.

 

Como você tem visto os desempenhos setoriais?

Nós estamos acompanhando uma forte desvalorização, principalmente, das empresas do setor de consumo e varejo, possivelmente o maior destaque negativo no ano de 2021. Isso se deve aos motivos que citei anteriormente. No início do ano, nós esperávamos uma inflação e juros muito mais comportados. Atualmente, as curvas de juros indicam que o mercado já espera um patamar próximo de 12%, ou até mesmo além desse número ao longo de 2022.

Essas companhias são muito impactadas pelos juros: quanto maiores os juros, menor o consumo e menor a expectativa de resultados. Elas também foram impactadas pelas revisões para baixo do crescimento em 2022, o que prejudica diretamente suas projeções. As companhias do setor de construção civil também possuem uma relação negativa com os juros e estão sofrendo com isso. Outro destaque negativo são as companhias que embutem alto crescimento. Algumas delas fizeram IPO recentemente e são do setor de tecnologia.

Como destaque positivo, nós temos visto muito o micro, as performances individuais, e companhias que dependem mais do dólar alto, do mercado internacional e das exportações, o que tem beneficiado as companhias exportadoras, sejam elas de commodities ou de outros produtos industrializados. Essas companhias estão apresentando bons argumentos e fundamentos, com bons desempenhos em 2021.

 

Como você viu os resultados do terceiro trimestre que foram divulgados recentemente pelas companhias? Como as small e mid caps se saíram?

Em média, as companhias vieram com resultados acima das nossas projeções, principalmente na geração de caixa da operação. No 3T21, nós tivemos uma melhora na estrutura de capital, ou seja, as companhias tiraram seus caixas e aproveitaram para alongar suas dívidas, com um bom comportamento no custo de capital como um todo. Várias companhias apresentaram forte expansão de lucro e boa distribuição de dividendos. Algumas delas fizeram a distribuição no 3T21, enquanto outras vão fazer no fechamento do balanço de 2021, o que deve ocorrer entre fevereiro e março.

De uma forma geral, as companhias apresentaram boa evolução das receitas com boa expansão da lucratividade. Inclusive, isso não foi apenas nas mid e small caps que acompanhamos na Sara Invest, mas também nos grandes bancos e nas maiores companhias que apresentaram ótimas lucratividades e rentabilidades.

O que precisamos entender é que em 2022 nós teremos juros mais altos, o que impactará no aumento de custo das dívidas das companhias. Isso vai pressionar os lucros ao longo do próximo ano. Precisamos acompanhar o que elas vão fazer para serem mais produtivas e eficientes para compensarem o aumento dos juros e do custo de capital.

De uma forma geral, algumas small caps sofreram muito ao longo de 2020, o que faz com que a base de comparação fique distorcida para companhias de setores como aviação e turismo. Em alguns momentos, as receitas dessas companhias chegaram próximo a zero no ano passado. Atualmente, além de estarmos vendo uma forte expansão nas receitas, estamos vendo que algumas companhias já se adaptaram, apresentando rentabilidades superiores, ou ao menos parecidas, ao período pré-pandêmico (final de 2019).

Tivemos pouquíssimas decepções. Uma delas foi a Via, que veio com um fato relevante bastante negativo falando de processos trabalhistas. Mas isso foi pontual, sem ser específico de um setor.

O 4T21 não deve ser diferente do 3T21. Essa tendência deve continuar, principalmente quando comparamos com o 4T20, que foi um período ainda bastante fraco em relação à atividade econômica.

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