Três perguntas: o mercado de ações em setembro de 2021

Por Jorge Priori.

Conversamos com Werner Roger, sócio e gestor da Trígono Capital, sobre o mercado de ações em setembro. O Ibovespa fechou o mês com 110.979 pontos, apresentando uma queda de 6,57%. No ano, a queda é de 6,75%. Nos últimos 12 meses, o índice apresenta uma alta de 17,31%.

Segundo Werner, os fundos de ações liquidaram em setembro muitos resgates de 30 dias que haviam sido solicitados em agosto. Os fundos multimercados também sofreram pesados resgates, o que contribuiu para a queda do mercado.

Para Werner, quem se destacou na compra foram as empresas, com saldo de quase 4 bilhões: “Elas estão recomprando as ações e colocando-as na tesouraria, reduzindo a quantidade de ações em circulação com o mesmo pagamento de dividendos, o que faz os dividendos por ação aumentarem. Isso é uma forma de compensar a tributação dos dividendos que está sendo discutida no Congresso. Também temos as empresas que recompram suas ações por acreditar que seus resultados serão positivos ou por verem suas ações descontadas.”

Conversamos também sobre o fundo de ações recentemente lançado pela Trígono, o Trígono Horizont Micro Cap FIA, focado em ações de empresas micro cap, com valor de mercado de até R$ 3 bilhões.

 

Como você viu o mercado de ações em setembro de 2021?

Em setembro, o Brasil refletiu, basicamente, o que se passou em Wall Street. Lá fora, os índices Nasdaq, Dow Jones e S&P caíram entre 3% e 5%. As preocupações inflacionárias podem levar ao aumento de juros e ao tapering, que é a redução na injeção de liquidez, o que já deve acontecer a partir de outubro. O aumento da taxa de juros deve levar mais algum tempo, talvez começando no ano que vem.

A Europa se defronta com o aumento da inflação, principalmente o custo de energia e das commodities, da mesma forma que os Estados Unidos. O Banco Central Europeu já declarou que a economia está muito fraca e que não existe perspectiva de elevação da taxa de juros no curto prazo.

Também não há essa perspectiva nos Estados Unidos. O presidente do Fed declarou que eles olham a inflação e a geração de empregos. Nesse caso, a geração de empregos está abaixo da expectativa. Esses são fatores para o longo prazo.

No curto prazo, temos a disputa dos partidos Republicano e Democrata para aumentar o teto da dívida pública. Isso aconteceu no governo anterior (Donald Trump), onde os democratas sabotavam os republicanos. Agora, os republicanos sabotam os democratas. Logicamente, o orçamento americano vai estourar o teto da dívida e, nesse caso, os pagamentos serão suspensos (default). Isso deve ser resolvido agora em outubro, mas a questão política é exatamente como acontece no Brasil.

Com a possível elevação das taxas de juros, as empresas de tecnologia serão mais impactadas, por serem movidas pelo crescimento e por pagarem menos dividendos. A Nasdaq vem sofrendo mais por causa disso. Esse setor é bastante sensível, não sendo como o setor de consumo e varejo.

O Brasil segue exatamente a mesma linha. Nós temos o problema da inflação, somos reféns das commodities e temos o aumento da taxa de juros feito pelo Banco Central, que, ao contrário do Fed, não está preocupado com emprego e com a economia. Ele se preocupa, exclusivamente, com a taxa de inflação, o que é um erro, já que nenhum banco central do mundo faz apenas isso. E já deixaram em aberto novos aumentos.

Para 2022, existem algumas expectativas para uma Selic de até dois dígitos. O PIB deve crescer menos, em torno de 2%. Esses são fatores negativos para a Bolsa, que cai com o aumento de juros e com o menor crescimento do PIB. A exemplo dos Estados Unidos, as empresas de tecnologia sofrem com o aumento de juros. Aqui, as empresas de tecnologia vieram de IPOs, com preços muito altos, e essas são as empresas que estão sendo mais impactadas. Seguem também as empresas de varejo, como lá fora, e, especialmente, as empresas ligadas ao setor imobiliário, as incorporadoras. Essas empresas estão sofrendo bastante. As ações de todas elas estão caindo durante o ano.

Também tivemos o efeito da Evergrande na China, uma das grandes incorporadoras desse país. Aparentemente, esse problema vem sendo equacionado. A queda do minério de ferro, que vem acontecendo há bastante tempo, cerca de 50%, acabou impactando a Vale, o que acabou arrastando o índice para baixo.

Os juros não foram suficientes para baixar o dólar, que continua subindo, o que acaba alimentando as expectativas de inflação. O Banco Central não tem o poder de baixar os preços das commodities, a não ser que promova uma recessão brutal, mas acho que não é o desejo do Banco Central provocar recessão, e sim atenuar os efeitos inflacionários. Isso acaba sendo inócuo, já que a energia, petróleo, commodities e alimentos, não estão relacionados com juros, e sim com a oferta internacional.

 

Na sua opinião, quais são as perspectivas desse mercado para os próximos meses?

Como comentei sobre setembro, as perspectivas vão depender muito do que vai acontecer em Wall Street. Uma vez equacionado o teto do orçamento e havendo uma sinalização de que o aumento da taxa de juros não será tão no curto prazo, as bolsas podem retomar o caminho de alta. O problema é que a energia preocupa bastante, não só nos Estados Unidos, mas principalmente na Europa e na China. O Hemisfério Norte está entrando agora no inverno, o que aumenta a demanda por petróleo, óleo de calefação e gás natural, o que vai se refletir no preço da energia e também nos preços das commodities eletrointensivas que dependem de energia.

Para mim, hoje o maior fator de atenção é a taxa de juros lá fora, mas, aparentemente, já está dentro das expectativas. Os títulos americanos de 10 anos estão em torno de 1,5% ao ano. Eles já chegaram a quase 2%, mas agora estão comportados.

No Brasil, nós temos vários pontos. A questão dos precatórios no valor de R$ 89 bilhões, o Bolsa Família demandando mais recursos da União, e o teto do orçamento, que para ser alterado precisa de uma PEC (Projeto de Emenda Constitucional) aprovada em dois turnos na Câmara e no Senado. Isso acaba preocupando o mercado e se refletindo no câmbio.

A questão dos juros também é importante. Como o Banco Central vai se comportar nos próximos meses? Quanto maior os juros, menor as perspectivas para a bolsa. O minério deve continuar caindo, portanto a Vale continuará a ser impactada. O fato positivo foi a criação de empregos, que pelos dados do Caged, foi superior a expectativa do mercado, e também o superávit primário bem positivo, enquanto o mercado tinha números bastante negativos. É muito difícil fazer uma previsão.

 

A Trígono Capital lançou recentemente o fundo de investimento Trígono Horizont Micro Cap FIA focado em ações de empresas micro cap, com valor de mercado de até R$ 3 bilhões. Como você vê o investimento nesse tipo de empresa e as suas perspectivas?

Nós enxergamos uma excelente alternativa de diversificação. Essas empresas são menos acompanhadas. Isso não significa que são menores, mas a percepção de tamanho acaba afastando corretoras e consultorias. Nosso fundo é composto por todo tipo de empresa respeitando o limite de R$ 3 bilhões de valor de mercado. Acompanhamos essas empresas de perto, conhecendo algumas delas há quase 40 anos, e estamos otimistas com os resultados do terceiro trimestre. Algumas delas já estão recomprando suas ações. Como são menos acompanhadas, à medida que os resultados vierem positivos, eles vão surpreender o mercado, e como o mercado não acompanha de perto, maior será o potencial de surpresa e de movimentos de correção.

Temos também a questão dos dividendos. A eventualidade da tributação de dividendos para o ano que vem levará as empresas a anteciparem os dividendos para este ano. Isso pode ser feito também através de juros sobre capital próprio ou da distribuição de lucros acumulados ou reserva de lucros de outros exercícios. As empresas podem utilizar essas reservas para pagamento de dividendos extraordinários sem influência do resultado de 2021.

Logicamente, isso vai depender de cada empresa, do seu caixa e da capacidade de distribuir dividendos. Empresas com caixa muito elevado podem deixar de investir por causa da perspectiva de aumento da taxa de juros. Por que investir em capacidade se não haverá demanda? Com isso, elas engavetam seus projetos e remuneram seus acionistas, fugindo da tributação. Os acionistas, recebendo os dividendos em 2021, podem comprar mais ações, compensando a tributação de 2022.

Os fundos de ações continuarão a ser isentos de tributação, o que é interessante para os investidores pessoa física. Todos os fundos da Trígono são orientados por dividendos. Por exemplo, pode haver uma redução de 34% para 25% do imposto de renda pessoa jurídica e contribuição social sobre o lucro líquido. Essa redução de 9 pontos percentuais passaria para o lucro da empresa, o que possibilitaria o aumento de dividendos. Os fundos acabam se beneficiando de mais dividendos, sem nenhum efeito no imposto, e também eventuais recompras das empresas, o que aumenta os dividendos por ação.

Não controlamos o mercado, mas as perspectivas dos fundos da Trígono, considerando os resultados do terceiro trimestre das empresas que acompanhamos, e que serão divulgados em breve, e a antecipação de dividendos de 2022 para 2021, o que deve ocorrer nos meses de novembro e dezembro, são muito positivas.

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