Três perguntas: os fundos de investimentos sustentáveis

Por Jorge Priori.

A Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais) está conduzindo o processo de definição de critérios para classificação de fundos que têm como objetivo investimentos sustentáveis. Segundo Cacá Takahashi, vice-presidente e coordenador do Grupo Consultivo de Sustentabilidade, “é preciso evitar um crescimento desordenado dos investimentos ESG no Brasil, o que seria prejudicial à indústria de fundos e ao investidor”.

Uma vez definidos os critérios, os fundos que têm como objetivo investimentos sustentáveis passarão a ser identificados com o sufixo IS de “Investimento Sustentável”. Inicialmente, esses critérios serão utilizados apenas para fundos de renda fixa e variável. A audiência pública dedicada ao tema encerrou o prazo para recebimento de sugestões e comentários no último dia 29 de outubro.

Conversamos sobre este tema com Alexandre Bossi, CEO e cofundador da Pandhora Investimentos, gestora de fundos de investimentos quantitativos. Também conversamos sobre se o mercado responde a esse tipo de classificação e se há como saber se fundos de investimentos sustentáveis são mais rentáveis que os fundos que não possuem esse objetivo.

 

Qual a importância da discussão que está sendo promovida pela Anbima para definição dos critérios para identificação dos fundos de investimentos sustentáveis? Com essa definição, o que deve mudar na prática?

Ela é muito importante pois começa a trazer à tona alguns conceitos do mundo ESG para o formato de mercado financeiro, além de subir a régua das discussões que ainda são bastante incipientes, garantindo maior aprofundamento no que de fato é investimento ESG. Isso porque ainda hoje existem muitas diferenças em como filtros ESG, por exemplo, são interpretados por cada gestor. A implementação de regras e definições mais claras tende a ajudar os investidores a entenderem melhor como cada processo é feito, facilitando as diligências.

Com relação às mudanças na prática, espero que fundos e gestoras que se interessem em criar fundos ou áreas focadas no tema, estabeleçam um padrão mínimo a ser colocado claramente em critérios previamente discutidos. Isso eliminará algumas práticas que no futuro poderiam ser interpretadas como greenwashing (preocupação com o meio ambiente apenas no discurso e por questões de marketing, sem qualquer atitude prática ou impacto).

Além disso, a Anbima tem um papel importante de gerar conhecimento e awareness (consciência) sobre temas como esse. Esperamos que com um cenário e regras mais claras sobre investimento ESG, mais gestoras passem a olhar para isso e se abram para essa possibilidade de investimento. Esse movimento deve ser guiado principalmente pela demanda dos investidores, mas o regulador ditando as regras do jogo pode acelerar o processo.

 

O mercado responde a esse tipo de classificação? Gestores e investidores já compreenderam a sua importância?

Acho que ainda estamos engatinhando com esse tema. É algo geracional, que os jovens investidores nos cobram, mas que ainda está longe de ser mainstream. O capital e a poupança ainda estão nas mãos de investidores mais velhos, de gerações mais antigas. Contudo, o mundo caminhará para isso. O capital é, e sempre foi, um poderoso agente transformador de hábitos e posturas. Por exemplo, um empresário e o management de uma empresa costumam receber os alocadores de capital (gestores) para discutirem estratégias, resultados, ações e posturas da empresa. Se os gestores são cobrados por seus investidores por diferentes práticas, naturalmente a bola de neve começa a ir para o lado das empresas e por aí vai. O ponto é que a bola só começou a ser rolada agora, num processo sem volta.

A maioria dos gestores ainda não compreendeu, mas eles não estão errados. Eles estão focados no seu dever de gerar valor e retorno pura e simplesmente. Isso está mudando, pois a geração de valor da forma que aprendemos até hoje não continha as limitações do planeta. Faltava na conta uma externalidade negativa que eram as emissões mais os limites que o crescimento infinito traz para as futuras gerações. Essa conta começa a ser levada em consideração com essa agenda de sustentabilidade.

 

Na sua opinião, quais são as perspectivas desses fundos? Há como saber se esse tipo de fundo possui rentabilidade melhor que os fundos que não possuem como objetivo investimentos sustentáveis?

Os investidores vão procurar cada vez mais alocar capital em alternativas sustentáveis ou que pelo menos sigam algumas regras minimamente sustentáveis pré-estabelecidas. A demanda irá para essa direção, e não o contrário. É geracional.

Sobre rentabilidade, fizemos na Pandhora um estudo interessante. Nós temos entre os sócios pessoas que sempre buscaram ajudar ou contribuir com iniciativas e instituições que apoiam o meio ambiente de alguma forma e acreditamos que o capital pode ser um poderoso agente de transformação do mundo. Porém, nossa análise e nossa gestão é 100% sistemática, tocada por computadores. Não somos o tipo de investidor ativista, que senta na frente do empresário para escutar as estratégias ou o rumo da empresa, pois não fazemos isso para tomar nossas decisões de investimento.

Assim, para casarmos nossas crenças sobre alocação de capital com a nossa gestão, que não é discricionária, decidimos fazer alguns testes.

Um deles, o principal, consistiu na construção de uma simulação de backtest [processo de testagem de modelos matemáticos, utilizando séries temporais, para predizer o comportamento de sistemas dinâmicos] da qual teria sido nossa carteira de ações nos últimos 15 anos seguindo as regras que aplicamos para decidir nossa carteira de ações hoje. Chegamos a um número de retorno para essa carteira.

Na segunda simulação, aplicamos sobre essa carteira alguns filtros de desconto sobre alguns setores como bebidas, tabaco, siderurgia, mineração, petróleo e gás, e para nossa surpresa, o resultado ao final de 15 anos foi neutro. Ou seja, uma carteira seguindo os critérios de escolha de ações dos nossos algoritmos com e sem os filtros ESG, não detraiu e nem contribuiu com os resultados.

Após rever os números e refazer os testes, decidimos aplicar os filtros em todas as nossas carteiras, pois se esse filtro não foi detrator de retorno para trás, dificilmente ele será detrator para o futuro, pois a agenda é bastante nova. Inclusive, esse filtro poderá ser um contribuidor de retorno muito possivelmente no futuro.

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