Três perguntas: os medicamentos de canabidiol

Por Jorge Priori.

A Carmen’s Medicinal, fundada em 2018, é uma empresa americana que desenvolve medicamentos a partir do canabidiol (CBD; substância terapêutica sem efeito psicoativo), que é um dos princípios ativos encontrados na planta de Cannabis.

É importante esclarecer que a Cannabis é um gênero de planta que possui três espécies, entre elas, a Cannabis ruderalis, mais conhecida como cânhamo industrial (hemp), usada desde a confecção de tecidos até a de tijolos, sendo preferida pela indústria farmacêutica pelo alto teor de CBD e baixo de THC (tetrahidrocanabinol; substância psicoativa). Já a maconha, que é usada no consumo recreativo, vem da Cannabis sativa e tem alto teor de THC. Por isso, a maior parte dos países liberaram o plantio do cânhamo, e não da maconha. É importante deixar isso claro, pois geralmente esse assunto é tratado de forma confusa, alimentando o ciclo de ignorância.

Operando no Brasil desde fevereiro de 2020, conversamos com Ricardo Pettená, diretor executivo da Carmen’s no Brasil, sobre as perspectivas e as dificuldades do mercado brasileiro e o Canabidiol Kids, medicamento desenvolvido pela empresa para crianças.

Com relação às dificuldades, Ricardo mencionou os problemas de burocracia e a ausência de um marco legal, cujo Projeto de Lei (PL) 399/2015 foi aprovado recentemente na comissão especial da Câmara dos Deputados dedicada ao assunto, mas que não possui previsão de ser votado nos plenários do Congresso. O diretor destacou as dificuldades criadas por algumas plataformas de pagamentos e bancos que não aceitam trabalhar com empresas do mercado de Cannabis alegando questões de compliance.

 

Como a Carmen’s tem visto o mercado brasileiro? Como ele tem respondido aos produtos da Carmen’s?

O Brasil, como maior país da América Latina, é um mercado muito importante. Segundo dados recentes de uma pesquisa feita pela Kaya Mind, o mercado brasileiro pode movimentar mais de R$ 26 bilhões e gerar mais de 117 mil empregos até 2025 caso seja feita uma regulamentação efetiva da produção de Cannabis para fins industriais.

Isso faz com que muitas empresas entrem no mercado, o que é potencialmente positivo para a promoção de informações e conhecimento sobre a Cannabis medicinal. Por outro lado, os consumidores precisam ficar atentos, pois há muitos produtos de baixa qualidade.

Nossa missão é promover e facilitar o acesso dos pacientes à terapia canabinóide com produtos de altíssima qualidade, dentro de três pilares: preço, produto e responsabilidade social. Dessa forma, entramos no mercado brasileiro com preços 15% abaixo dos praticados nos EUA e inovamos ao definir preços em reais, protegendo os pacientes da variação cambial. Isso nos posicionou como o produto importado mais barato do mercado.

Trouxemos produtos com qualidade certificada, uma novidade até então no Brasil. Temos um QR Code na embalagem que permite ao médico e ao paciente acessar todos os resultados dos exames laboratoriais que atestam o grau de pureza e qualidade dos nossos produtos. Somos classificados por órgãos independentes de avaliação de qualidade em CBD como Top-1.

Em relação à responsabilidade social, entendemos que ajudar pacientes e instituições no acesso à terapia é a nossa maior missão. Aliás, esse foi o motivo pelo qual a empresa foi criada. A consequência de todas essas ações é que a Carmen’s Medicinal tem sido cada vez mais conhecida e respeitada por médicos e pacientes.

 

Crianças podem consumir medicamentos que têm como princípio ativo o canabidiol?

Sim, o CBD é um composto químico 100% natural que vem diretamente da planta de Cannabis. É uma medicação segura e eficaz para pacientes de todas as idades porque não tem efeitos colaterais severos e não apresenta nenhum efeito psicoativo.

Nós criamos o Canabidiol Kids para facilitar o tratamento das crianças. É um produto sem efeito psicoativo, sem nenhuma concentração de THC e com sabores mais agradáveis ao paladar infantil, já que o gosto da Cannabis medicinal é um pouco amargo.

Inclusive, fizemos a doação de tratamentos à base desses produtos para pacientes da Apae (Associação dos Pais e Amigos dos Excepcionais) de São Caetano do Sul, São Paulo, em parceria com o Dr. Pedro Pierro Neto, que é um dos principais médicos do setor e lidera diversas ações sociais importantes para facilitar e democratizar o acesso dos pacientes à Cannabis medicinal.

 

Quais são as dificuldades que a Carmen’s tem enfrentado no mercado brasileiro?

As dificuldades da Carmen’s são comuns a todas as empresas do mercado. A principal é a burocracia para o processo de importação. Deve-se destacar que já houve um esforço da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para simplificar e acelerar, mas como a demanda tem aumentado, a capacidade de aprovação das importações por parte da agência é limitada, o que ocasiona demora nas liberações, inclusive com momentos críticos devido à pandemia.

Outra dificuldade é o acesso às plataformas de pagamento. Muitas delas, além de bancos, não aceitam trabalhar com o mercado de Cannabis medicinal, alegando limitações de compliance. Isto é lamentável, considerando que a Organização Mundial de Saúde (OMS) retirou a Cannabis medicinal da lista de substâncias proibidas, e que o produto já está sendo comercializado em mais de 40 países. No Brasil, ela é aprovada com o amparo legal da RDC-335 de janeiro de 2020 e RDC-327 de dezembro de 2019 (Resolução de Diretoria Colegiada da Anvisa). A consequência disto é o encarecimento do ecossistema e o aumento de custos para os pacientes.

Por fim, temos visto muitas discussões em torno do PL 339/2015, com muita desinformação que leva a erros de interpretação sobre o que é a Cannabis medicinal. Muitas pessoas confundem produtos essenciais para a saúde de um número incontável de pacientes com o uso recreativo.

Isso não ajuda na solução de uma das principais barreiras: o preconceito. A Carmen’s é membro da BRCann, uma associação de empresas de Cannabis medicinal (Associação Brasileira das Indústrias de Canabinóides). Todo o setor está unido em uma posição favorável ao PL 399/2015, fomentando a informação e atuação séria, ética e legal do uso da Cannabis medicinal.

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