Três perguntas: perspectivas do uso da Cannabis medicinal

Por Jorge Priori.

A Cannabis medicinal começou a ser estudada em 1970, quando o pesquisador Raphael Mechoulan, professor da Escola de Farmacologia da Faculdade de Medicina da Universidade Hebraica de Jerusalém, descobriu o sistema endocanabinóide (neurotransmissores). Trata-se de um sistema biológico que se liga a receptores canábicos, localizados no sistema nervoso central e periférico e em células do sistema imunológico. Apesar de a maior parte estar concentrada na região cerebral e no sistema nervoso, sabe-se que os receptores também existem, em menor proporção, em outras partes do corpo, como estômago, pulmão e coração.

A planta possui mais de 100 canabinóides ativos, tais como o CBC, o CBG e o CBN. Os dois mais conhecidos são o THC, tetrahydrocannabidiol, substância terapêutica com efeitos entorpecentes, e o CBD, canabidiol, que é usado no tratamento de doenças crônicas graves, como epilepsia infantil refratária, Alzheimer e Parkinson, além de ansiedade, depressão e dor.

O campo de utilização do CBD é enorme. O InCor está desenvolvendo o primeiro estudo científico do uso do CBD no tratamento de insuficiência cardíaca e se prepara para iniciar uma pesquisa sobre o uso do CBD no tratamento da síndrome pós-Covid. As duas pesquisas estão sendo realizadas com o apoio da VerdeMed, empresa canadense fundada em 2018 pelo seu CEO, o brasileiro José Bacellar. A VerdeMed trabalha na prospecção de fármacos canabinóides disponíveis no Canadá, Estados Unidos e Europa e já aprovados pela pela Health Canada, EMA (Agência Europeia de Medicamentos) e FDA (Food and Drug Administration), para suprir as necessidades médicas da América Latina.

Conversamos com Bacellar sobre as duas pesquisas conduzidas pelo InCor e sobre sua visão sobre o Projeto de Lei 399/2015 que trata da viabilização da comercialização de medicamentos à base de extratos, substratos ou partes da planta Cannabis em sua formulação. Como me disse Bacellar em nossa conversa, “ou o Brasil entra no mercado da Cannabis medicinal, ou esse mercado entra no Brasil”.

 

Você pode nos contar sobre a pesquisa que vem sendo conduzida pelo InCor com o apoio da VerdeMed sobe insuficiência cardíaca?

Desde dezembro do ano passado, o InCor e a VerdeMed trabalham para desenvolver uma pesquisa clínica sobre o potencial do CBD na melhora da qualidade de vida do paciente com insuficiência cardíaca crônica (ICC). O nome do estudo é Cannabic. O professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) Edimar Bocchi e o especialista em insuficiência cardíaca e transplante do coração pelo InCor HC-FMUSP Bruno Bizelli desenvolveram o protocolo de pesquisa. Aliás, ele faz parte do trabalho de doutorado de Bizelli e foi submetido à comissão de pesquisa da Fundação Zerbinni e do InCor em junho. A aprovação saiu em julho.

O escopo prevê dois anos de acompanhamento dos pacientes tratados com CBD e com placebo. Trata-se de uma pesquisa randomizada. A expectativa dos médicos é de que os pacientes tratados com CBD tenham uma melhora maior na qualidade de vida do que os demais. Como não se trata apenas de um estudo observacional, a avaliação dos pesquisadores será feita com marcadores clínicos, que permitem análises mais precisas da mudança do quadro do paciente. A VerdeMed apoia a pesquisa com o produto CBD 100mg/ml e ainda dá o aporte financeiro necessário. É um privilégio trabalhar com o InCor, a USP e a Fundação Zerbini. Estamos muito confiantes no resultado da pesquisa.

 

Qual é a expectativa para o estudo científico, ainda não iniciado, do uso do CBD para a síndrome pós-Covid?

A síndrome pós-Covid afeta cerca 20% dos pacientes que tiveram o vírus, incluindo aqueles que não foram hospitalizados e apresentaram os sintomas leves da doença. A sequela mais comum é a fadiga (atinge 60% dos pacientes), mas há ainda outros distúrbios como de sono, humor e neurológicos. Há também relatos de perda de memória.

Acreditamos que, pela coincidência entre os sintomas da Covid de longa duração com os efeitos conhecidos do CBD, o resultado poderá ser positivo para os pacientes. Os voluntários tratados com CBD devem apresentar evolução clínica melhor, quando comparados aos que não fazem uso dele.

Já há centros de ciência nos EUA e no Canadá que estão fazendo os mesmos estudos, por isso que o doutor Bocchi teve a ideia de replicá-los aqui também. A VerdeMed entra com os medicamentos, R$ 1 milhão para cada um dos estudos, e o aporte financeiro, que não podemos divulgar. Contudo, certamente precisaremos de mais recursos. Além do InCor, seis centros de saúde de outros estados farão parte da pesquisa pós-Covid. No total, 290 voluntários serão observados e tratados durante 3 meses.

 

Como você vê o PL-399/2015? Caso seja aprovado, quais são as perspectivas que se abrem?

O PL-399/2015, proposto originariamente pelo deputado Fábio Mitidiere (PSD-SE), foi analisado por mais de um ano pela Comissão Especial da Cannabis Medicinal constituída em 2019. O relator do grupo, deputado Luciano Ducci (PSB-PR), redigiu um novo texto, com base na proposta de Mitidieri, o que resultou num verdadeiro marco legal da Cannabis medicinal no Brasil. Na minha interpretação, equivale ao Hemp Farm Act, assinado em dezembro de 2018, pelo presidente Donald Trump, nos EUA, que retirou o cânhamo (e as substâncias dela derivadas) da lista de substâncias controladas, transformando a planta em um commodity como qualquer outra. O PL fará o mesmo no Brasil.

O projeto vai colocar o país no século 21. Foi neste século que houve a correta percepção do uso medicinal do cânhamo e o reconhecimento pelos principais países do mundo. A produção de insumos nacionais é fundamental para que todos tenham acesso ao medicamento. Só assim teremos a redução do custo do medicamento para os pacientes e para o estado, que muitas vezes é obrigado a custear o tratamento com Cannabis medicinal. A democratização e o aumento do acesso vão gerar um mercado de consumo como vemos acontecer nos EUA. Isso permitirá o nascimento de um negócio que vai gerar emprego, renda e impostos.

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