Três perguntas: Petrobras – gestão e plano estratégico

Por Jorge Priori.

A Petrobras divulgará o resultado financeiro do segundo trimestre de 2021 no próximo dia 4 de agosto. Parte desse resultado foi obtido sob a gestão de Joaquim Silva e Luna, que assumiu a presidência da companhia no dia 4 de abril. No final do ano, devemos ter a divulgação do Plano Estratégico para os próximos cinco anos (de 2022 a 2026).

Aproveitamos a oportunidade para conversarmos sobre a atual gestão da Petrobras, seu Plano de Desinvestimento e as expectativas sobre seu Plano Estratégico com Ilan Arbetman, analista de Research da Ativa Investimentos.

 

Como você tem visto a atual gestão da Petrobras?

Tenho visto um conservadorismo relevante nos atos da nova gestão, havendo um cuidado muito grande na forma de se reportar ao mercado. Com as mudanças da diretoria e do conselho, a Petrobras tem tido uma preocupação muito grande em mostrar que o foco segue na maximização de resultados e na exploração e produção de áreas rentáveis para a companhia, como o pré-sal.

Acredito que a grande mudança, até o momento, é na questão dos preços dos derivados nas refinarias. Antes da atual gestão, havia uma atualização de preços muito mais dinâmica. Hoje nós temos a Petrobras dizendo que o norte não mudou e que a companhia segue realizando a paridade de preços.

Na prática, tivemos apenas três mudanças nos últimos três meses, sendo duas para baixo e uma para cima, com uma velocidade menor na atualização de preços. A própria Petrobras diz que está tentando diferenciar as mudanças conjunturais das estruturais, aplicando ajustes apenas quando entende que as mudanças são estruturais.

 

Quais são os principais drivers para os próximos meses? Como está o plano de desinvestimento da companhia?

Não há dúvida de que uma das gratas surpresas positivas até este momento tem sido o Plano de Desinvestimento. Nós vimos há algumas semanas a conclusão da venda da primeira refinaria, Landulpho Alves (São Francisco do Conde, Bahia). Há expectativa de que mais alguns processos caminhem até o final de 2021. Aqui é importante destacar que a velocidade dos processos não é o principal ponto. O mercado se sente mais confortável vendo que a Petrobras está interessada em realizar a venda de diversos ativos, tornando o seu plano de desinvestimento robusto, e cuidando da diligência financeira, achando um bom momento para colocar os ativos à venda.

Além das refinarias, nós temos visto a desalienação de campos de terra e maduros. Quando olhamos para a estrutura de custos da Petrobras, o custo de extração médio fica bastante claro, com um valor de US$ 4,50. Se considerarmos a média do barril de petróleo de US$ 70, nós vemos como é rentável o seu business. No pré-sal, o custo médio de extração, sem frete e custos governamentais, fica abaixo de US$ 3. Será muito bom para a companhia se a Petrobras tiver um foco maior nas áreas onde o seu custo é minimizado.

Por outro lado, existem campos de terra e águas rasas onde a Petrobras tem um custo superior a US$ 10, podendo chegar até US$ 15 em alguns pontos. A companhia pode fazer a venda desses campos para realizar uma maior alocação no pré-sal e em áreas onde ela é mais competitiva.

Um capítulo à parte foi a venda da participação da Petrobras na BR Distribuidora. Esse foi o grande momento da nova gestão. Nós vimos esse movimento como ganha-ganha para as duas empresas. A Petrobras poderá aplicar os recursos na redução de dívidas. Atualmente, a companhia tem um trigger muito interessante, que é o objetivo de atingir o endividamento bruto de US$ 60 bilhões. Quando a Petrobras chegar a este valor, ela poderá fazer a distribuição de proventos de forma mais robusta.

A Ativa Investimentos acredita que ela pode chegar neste patamar no final do quarto trimestre de 2021. Não há dúvida de que os bilhões arrecadados com a venda da BR Distribuidora podem ter ajudado nesta trajetória.

 

Qual a sua expectativa para a divulgação do Plano Estratégico da Petrobras que deve ocorrer em novembro?

Este ponto dialoga bastante com a primeira resposta. Nós vemos a nova gestão evitando atritos justamente para que ela tenha tempo para costurar o próximo plano estratégico, que deve ser divulgado no final deste ano. Existem pontos que podem ser abordados:

A inserção da Petrobras no processo de sustentabilidade que toma conta do setor – Em 2020, três das cinco principais métricas já versavam sobre pontos da agenda verde. Acredito que neste plano haverá espaço para que a companhia seja mais rigorosa, justamente por não ser competitiva em outros nichos energéticos. A atitude da Petrobras em não despender grandes contingentes de Capex na agenda verde é uma forma de proteger a resistência do seu fluxo de caixa, tornando mais viável a conquista dos objetivos mais próximos como as reduções da dívida e da alavancagem e o aumento da distribuição de proventos. Isso não impede a companhia de ser mais exigente com este tipo de compromisso nos seus planos.

Valor que será recebido pelo Plano de Desinvestimentos – Espero uma atualização do valor que a Petrobras espera obter com o Plano de Desinvestimentos, já que no último Plano Estratégico ela esperava receber US$ 20 bilhões no período de 2021 a 2025.

Produção de barris – A Petrobras vai fazer uma nova projeção quanto à curva de produção diária de barris. Com isso, nós vamos ter uma noção de demanda; de como a companhia tem visto o seu mercado e a velocidade de venda dos campos maduros. É natural que após a venda de campos maduros de terra e águas rasas, nós tenhamos uma suavização da curva até a produção do pré-sal crescer.

Intensidade do investimento no pré-sal – Possivelmente a Petrobras terá interesse em participar da próxima rodada de leilão que envolverá os campos de Sépia e Atapu, que não foram adquiridos em 2019. Provavelmente, no formato de consórcio, já que dificilmente nós vemos uma companhia agindo de forma sozinha. Para que tenhamos uma noção, 58% de todo o Capex do plano atual está direcionado ao pré-sal.

Assim, com a atual dinâmica do petróleo Brent, mesmo com a queda dos últimos dias; a hibernação de 62 plataformas no primeiro trimestre de 2020, quando a companhia se deparou com o Covid, e a redução do valor máximo de custo para US$ 30 (break even) para aceitação de projetos, hoje, com o barril na casa de US$ 70 e com um custo médio de US$ 4,50, nós vemos a possibilidade da Petrobras ser mais agressiva, e tal agressividade pode estar no próximo plano estratégico.

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