Três perguntas: Pix – como está, próximas fases e perspectivas

Por Jorge Priori.

Desde a sua implementação, em novembro de 2020, o Pix vem alcançando números impressionantes. Segundo o Banco Central, um mês antes do seu início, os meios de pagamento no Brasil somaram 572,4 milhões de transações feitas, com 336,4 milhões de boletos pagos e 194 milhões de TEDs emitidas. Em junho de 2021, o número total de transações atingiu a marca de 1,2 trilhão, com 743,6 milhões de operações feitas com Pix. Além de substituir parte das TEDs, DOCs e cheques, o Pix trouxe novas operações para este mercado.

Com relação ao volume, o Pix fechou junho de 2021 como o segundo meio de pagamento que mais movimentou recursos, totalizando R$ 442 bilhões. Ele foi superado apenas pela TED, que segue na primeira posição com R$ 3 trilhões. A TED ainda é o principal instrumento para movimentação de grandes valores.

Com sua implementação ocorrendo em fases e prevista para terminar no primeiro trimestre de 2022, conversamos sobre o Pix com Bruno Samora, head de Produtos Banking & Fintech da Matera, empresa de tecnologia especializada em soluções de core banking, meios de pagamentos e gestão de riscos.

 

O que já foi implementado no Pix até agora?

O Pix já tem em pleno funcionamento uma base sólida que permite seu uso como instrumento de transferência de recursos e pagamentos, mantendo-se em constante evolução. Desde novembro, quando o projeto entrou em produção, já estão disponíveis para uso das pessoas:

– Registro e controle de chaves, que são os “apelidos” usados nas transações, incluindo e-mail, CPF/CNPJ e número de telefone, além das chaves aleatórias;

– Transferências em tempo real e agendadas;

– Geração de QR Codes, sendo mais recentemente com informações de vencimento, multa e juros;

– Pagamentos através de QR Codes e copia/cola.

Além das operações que são percebidas pelo usuário do Pix, o projeto inova uma série de aspectos que garantem a sua qualidade, permitem e incentivam sua adoção de forma ampla por pessoas e negócios. Como exemplo, temos informações contidas nos QR Codes que possibilitam a conciliação automática do pagamento com a transação que a gerou. Isso é muito útil num cenário de e-commerce, em que aquele recebimento – agora instantâneo – concretiza uma venda e libera o produto para a entrega.

O projeto do Pix também padronizou a interface de comunicação entre as empresas e os bancos para geração dos QR Codes de cobrança, tornando mais fácil uma empresa trocar seu fornecedor por outro com melhores condições e forçando também bancos e outras instituições financeiras a aprimorar seus serviços e tarifas. No final, quem ganha é o mercado e, principalmente, o usuário final.

A base existente também abre espaço para a inovação aberta do mercado, que já oferece produtos mais elaborados construídos sobre os alicerces do Pix, como a utilização de crédito para realizar as transações, que ainda não existe de forma nativa.

Estas inovações e qualidade entregue pelo Banco Central se traduzem em números superlativos sob qualquer ótica. Passados poucos meses do lançamento, já temos mais de 80 milhões de CPFs registrados no Pix e mais de 5 milhões de CNPJs, representando cerca de 40% da população brasileira e um quarto das empresas ativas.

Quem já sente o efeito do Pix são outros instrumentos de transferência de recursos. Junto com o aumento incrível de transações Pix, já se percebe o declínio de TEDs e outros meios como DOC e cheque, que viram seu volume mensal de transações despencar 40% no mesmo período.

 

O que será implementado nos próximos meses?

Além de diversas melhorias internas ao funcionamento do Pix, estão previstas até o final de 2021 várias evoluções buscando aumentar ainda mais a sua relevância e confiabilidade, melhorar a experiência dos usuários e a integração da solução com o Open Banking.

Dentre as principais novidades, estão o Pix Saque e o Pix Troco, que vão permitir a realização de saques de recursos em lojas e supermercados. A diferença entre as modalidades é que uma está ligada a um saque realizado durante uma compra (Troco), enquanto o outro é um saque avulso (Saque). Além da conveniência que isso representa para as pessoas de forma geral, trata-se, principalmente, de um fôlego na integração dos mundos online e offline de bancos e carteiras digitais que hoje têm seu crescimento limitado às altas taxas de redes privadas de ATMs.

Atualmente, o Pix já conta com uma função de devolução de valores recebidos, mas os próximos meses também trarão o Mecanismo Especial de Devolução (MED) que permitirá ao pagador iniciar uma solicitação de devolução de um valor pago. Essa função trará especial conforto e segurança para situações de fraude ou pagamentos indevidos.

A partir do final de 2021 e durante o ano de 2022, teremos muitas novas funções relevantes. Se até aqui a grande vítima do Pix foi a TED, o futuro reserva desafios aos cartões de crédito e ao boleto. No roadmap estão previstos o Pix Garantido (que irá possibilitar o parcelamento de pagamentos), pagamento offline e registro e controle centralizado de cobranças (que tornará o Pix equivalente aos boletos registrados).

 

É possível prever os impactos do Pix quando ele estiver integralmente implementado?

O Pix, provavelmente, será um projeto vivo, capturando e traduzindo as necessidades das pessoas e do mercado em novas funções e capacidades. Dessa forma, é difícil falar de um Pix integralmente implementado. Contudo, o que observamos hoje já é sua enorme capacidade de provocar mudanças.

Concretizadas as evoluções previstas para 2022, continuaremos vendo o declínio de transações de TED, cheque e DOC, mas também de boletos e uma briga mais acirrada nas transações de cartão. É difícil imaginar uma substituição total desses instrumentos, mas certamente veremos mudanças sensíveis nas políticas de preço, tarifação e liquidação. Adquirentes terão que repensar sua atuação e fontes de receita – hoje bastante calcadas em antecipação de recebíveis, que simplesmente não faz sentido com o Pix, que tem liquidação instantânea. O mesmo exercício é válido para redes de ATM, que serão colocadas em cheque pelo Pix Saque e Pix Troco.

Outros setores também poderão se transformar. A junção do Pix com documentos, que é um desejo do Banco Central, com capacidades de smart contracts do Real Digital, poderá criar um futuro em que a liquidação de um Pix concretize de forma instantânea e automática a transferência de propriedade de um bem, como uma casa, veículo ou outro ativo, seja ele digital ou não.

O Pix já se coloca como uma enorme infraestrutura catalisadora de mudanças e inovação. É difícil dizer exatamente tudo que ele poderá impactar, mas o futuro será certamente mais integrado, rápido e digital.

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