Três perguntas: venture capital – mercado e investimentos

Por Jorge Priori.

Conversamos sobre o mercado de venture capital no Brasil e no mundo com Vanessa Viana, managing partner da Capital Lab Ventures, gestora de venture capital com sede em Londres.

 

Como você está vendo o mercado de venture capital no Brasil?

Os mercados de venture capital no Brasil e na América Latina foram um dos grandes expoentes ao longo de 2021, ganhando uma importância maior no mapa global. Mesmo assim, os investimentos ainda são relativamente pequenos quando comparados aos maiores mercados e hubs de inovação mundial como Estados Unidos, China, Europa e Israel, nesta ordem.

Segundo a Dealroom, até julho de 2021 o mercado de venture capital global acumulou US$ 307 bilhões em investimentos, um crescimento de 130% comparado a 2020 (US$ 133 bilhões). No Brasil, segundo a Distrito, tivemos um investimento de US$ 5,2 bilhões apenas no primeiro semestre. Isso é quase a metade de todo o investimento feito na América Latina, que segundo a LAVCA somou US$ 11,5 bilhões até setembro.

Alguns eventos estão alterando os fundamentos desse mercado, sendo um deles, obviamente, a Covid-19, que acelerou muito o incremento, a melhoria e o aumento dos volumes das transações de e-commerce. Tivemos um boom global de IPOs para startups e empresas de inovação em tecnologia, como o excelente IPO da Vtex na Nasdaq.

No Brasil, notamos a “fintechização” das startups como um todo. Não só startups que nasceram como fintechs, mas outros modelos de negócios que estão incluindo meios de pagamentos e até crédito na sua estratégia de monetização. Isso vem em função do marco regulatório do Open Banking.

Pela primeira vez, há o interesse de grandes fundos em entrar neste estágio no mercado brasileiro, que antes apenas olhavam startups em estágios mais maduros. O SoftBank, por exemplo, está criando um novo fundo para investir US$ 3 bilhões na América Latina em empresas em estágio inicial.

 

Na sua opinião, quais são as principais diferenças entre as startups brasileiras, europeias e israelenses?

Eu adoro essa pergunta porque ela é muito relevante. As startups naturalmente procuram resolver os problemas sociais de onde elas surgem ou os problemas dos mercados que elas querem atender, sendo que muitas delas já nascem com modelos multinacionais.

No Brasil, em função do estágio de desenvolvimento da economia, a maior parte das startups desenvolve soluções voltadas a problemas de assimetria de informação ou ineficiência do mercado em que elas estão operando. Temos muitas plataformas de matchmaking, com amplo uso de tecnologia já instalada da internet, como a 99, Gympass, Loggy, 5º Andar, Loft, GetNinja e Enjoei. Todas estão ligando alguém que precisa de alguma coisa a alguém que pode fornecê-la. Você não vê grandes investimentos em ciência muito profunda, pesquisa e robótica.

Como os riscos administrativos e regulatórios são muito menores nas economias mais maduras, a assimetria de informação e o custo de transação são inferiores. Além disso, elas já têm uma infraestrutura urbana que, na maioria dos casos, tem um nível muito mais avançado de integração dos dispositivos digitais.

Por exemplo, aqui em Londres eu pago o metrô, entro e saio de edifícios e faço compras no supermercado (self-checkout) com meu celular. Essa integração custa muito caro, pois o investimento de digitalização da infraestrutura é muito alto. Isso faz com que, na Europa, as startups estejam mais voltadas para tecnologias como inteligência artificial, analítica preditiva, deep learning, big data, computer vision, robótica, nanotecnologia, blockchain, IOT, impressoras 3D, drones, realidade virtual, radares, reconhecimento de voz e quantum computing.

Israel, devido a questão geopolítica, é um país muito avançado em tecnologias de defesa como segurança de dados, cybersecurity, robótica, IOT, radares e drones, o que acaba se refletindo nas suas startups.

 

Como a Capital Lab escolhe uma startup para investir?

O nosso foco é em deep tech, engenharia e startups que têm um comportamento diferente de outras que utilizam modelos de negócio mais voltados para business to consumer, utilizando como base tecnológica a internet que já está disponível para todo mundo. O risco técnico é muito alto, mas a vantagem é que lidamos com tecnologias viabilizadoras. Se elas funcionarem, vão servir como infraestrutura basilar para muitas outras coisas, o que potencializa a valorização dessas empresas.

Elegemos segmentos como smart city e cidades conectadas; banking; insurtechs; privacidade de dados; data private, cybersecurity, heathtechs e educação. Também olhamos para tecnologias que vão viabilizar a digitalização dos setores industriais e varejo, como robótica, automação e impressão 3D.

Na nossa due diligence, analisamos a capacidade dos fundadores e da equipe, o tamanho do mercado endereçável, a taxa de crescimento desse mercado, como essa startup resolverá o problema do usuário, a arquitetura dos sistemas e dos dados, a infraestrutura que suportará esses sistemas e o seu funcionamento. Olhamos também para a estratégia de propriedade intelectual e para a evolução do ambiente regulatório.

Trabalhamos com um tipo de startup que possui risco de timing. Muitas vezes, sabemos que uma startup está desenvolvendo uma tecnologia que vai revolucionar o planeta, mas será que é o momento para investir nela? Quando entramos antes de o mercado estar pronto, muitas vezes a empresa não consegue sobreviver devido a falta de caixa.

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