Trump retirou um brasileiro da OMC

Meta: EUA como ‘país em desenvolvimento’ para disputar taxas

Conjuntura / 23:28 - 15 de set de 2020

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Em maio, a comunidade internacional foi surpreendida quando brasileiro Roberto Azevedo anunciou, em plena crise global, que deixaria o cargo de diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC) um ano antes do fim de seu mandato. Oficialmente, o diplomata justificou a saída como um gesto para ajudar a entidade a fazer uma transição para o próximo diretor, iniciativa que foi recebida com alta dose de desconfiança.

O livro de Bob Woodward, Rage (Simon & Schuster), lançado nesta terça-feira sobre os bastidores do governo de Donald Trump revela que o chefe da Casa Branca pressionou o Azevedo chegando a ameaçá-lo se suas ordens não fossem atendidas e indicar que sairia da OMC.

Segundo apuração do Uol, na semana passada, um dos nomes mais conhecidos da diplomacia brasileira se mudou para os EUA para assumir a vice-presidência da PepsiCo. De acordo com o livro de Woodward, porém, ele estava recebendo pressões da Casa Branca. O livro conta como Trump ameaçou sair da OMC em uma conversa com Azevedo, por telefone.

Na ligação, o presidente norte-americano sinalizou que os EUA deveriam ser tratados como um “país em desenvolvimento”. O status - que detém a China, Índia, Argentina e dezenas de outros países - permite que esses governos mantenham tarifas mais elevadas que os países ricos, que reduzam seus subsídios de forma mais lenta e que tenham mais espaço para a intervenção do estado na economia.

A diferenciação foi uma forma encontrada para permitir o desenvolvimento desses países que, em condições de igualdade, não teriam como competir com Alemanha, Japão ou EUA.

Para a Casa Branca, essa diferença entre países ricos e em desenvolvimento não faz mais sentido no século XXI e se justifica apenas para as economias mais frágeis do mundo. De fato, Trump conseguiu convencer o governo de Jair Bolsonaro a abandonar o direito que o Brasil tem de ser considerado como país em desenvolvimento para os futuros acordos comerciais.

O relato de Trump foi feito a Woodward no dia 22 de janeiro e mostra que o brasileiro indicou que tal proposta não seria possível. Segundo o jornalista, Trump disse: “Roberto, vocês nos tratam de forma muito negativa”. “Os EUA são considerados como um lugar muito rico e a China como uma nação em desenvolvimento e a é uma nação em desenvolvimento”, disse.

Se você é um país em desenvolvimento, você consegue coisas que ninguém mais consegue”, afirmou. “Nós vamos ser um país em desenvolvimento”, disse. Ao ouvir uma objeção do brasileiro, o norte-americano então respondeu: “Então isso é o que eu vou fazer: estou saindo na OMC”.

Na entidade com sede em Genebra, embaixadores evitaram comentar a ligação e não existem detalhes de quando isso teria ocorrido, ainda que o livro diga que havia sido pouco antes de 22 de janeiros.

Antes mesmo de assumir o governo norte-americano, o magnata sugeriu que se a OMC não mudasse, os EUA deixariam a entidade e que o acordo que a criou era “o pior tratado comercial jamais fechado”. Azevedo assumiu o cargo com o sinal verde da Casa Branca e evitou, por meses, criticar publicamente o governo Trump por seus ataques ao multilateralismo e mesmo por abrir uma guerra comercial inédita com a China. Nos bastidores, o brasileiro acreditava que se entrassem em choque com os norte-americanos, ele e a OMC seriam os derrotados. Sua meta era a de manter Washington dentro da organização, considerada por Trump com um trampolim para o avanço chinês. Mas sua estratégia não deu resultados.

Bob Woodward, atualmente editor gerencial assistente do Washington Post, quando repórter investigativo do jornal, com o seu colega Carl Bernstein conseguiram decifrar o escândalo Watergate, que levou o presidente Richard Nixon a renúncia.

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