É ele

A tentativa da nomenclatura econômica de transferir para a oposição a responsabilidade pela conta, agora cobrada pela dependência de financiamento externo em doses cavalares, produziu efeito colateral não previsto pelo tucanato. A defesa histérica de José Serra e os seus do continuismo travestido de “fundamentos econômicos” forneceu munição pesada para Lula, Garotinho e Ciro alcunharem o tucano de candidato da especulação. Depois das declarações de George Soros pró-Serra, esse mote, mais do que imperdível, se tornou unidade de medida do grau de mudanças a serem praticadas pelo futuro presidente.

Fim de linha
Empossado em 1990 com Collor e com o poder turbinado nos quase oito anos de reinado do presidente FH, o mercado – entidade etérea que serve de senha para espertalhões ganharem dinheiro fácil com a especulação – entrou em pânico. A histeria que se seguiu a esse estado de ânimo se escora em duas constatações: a política econômica que lhes proporcionou os mais gordos lucros de sua história entrou em colapso e, et por cause, o candidato que mais explicitamente vocaliza seus interesses corre sério risco de amargar a lanterna eleitoral.
A constatação de que os interesses do mercado são antagônicos aos dos brasileiros que votam, no entanto, longe de ser percebido pela oposição como claro sinal para aprofundar as críticas à política econômica que torna o candidato oficial tão impopular, deu lugar a um inexplicável movimento defensivo. A principal manifestação desse suicídio eleitoral e político é o direcionamento da campanha eleitoral para o mercado, em lugar de visar o Brasil real. Na verdade, não se trata de prolongar o reinado do mercado, mas justamente, de sem aviso prévio, adverti-lo de que seu longo mandato termina em 1º de janeiro de 2003.

Outra sangria
Enquanto o calotes nos fundos de renda fixa e DI foi, provisoriamente, estancado devido à firme reação dos investidores e à péssima repercussão até no mercado financeiro, os fundos cambiais estão sofrendo estranha sangria. Embora a cotação do real tenha retomado a trajetória de queda livre, os investidores desse tipo de aplicação têm visto seus rendimentos encolherem. Isso se dá devido ao aumento do deságio desses títulos, que, conforme já informado aqui, saltou de 0,37%, em abril, para 0,70%. Ou seja, quanto maior a queda do real, menor os ganhos repassados aos aplicadores.

Só ele$
A tunga nos investidores dos dois tipos de fundos revela que o sistema financeiro está se apropriando de parte importante dos ganhos obtidos com a alta dos juros e da queda do real, se recusando a repassá-los aos seus clientes, diferentemente do que faz quando o movimento é de baixa. Ao mesmo tempo, ao insistir em pagar o rendimentos dos títulos pelo valor de mercado, em vez do valor de face, os bancos revelam pouca confiança em que esses papéis venham a ter seus pagamentos honrados integralmente pelo governo. O perigo é a intensificação da especulação, alavancada por um governo frouxo com o mercado financeiro, tornar a profecia auto-realizável na próxima administração ou ainda nos estertores do tucanato.

Desejos
A professora da Fundação Getúlio Vargas do Rio (FGV-RJ) Lia Valz taxou de “apenas um desejo político” a declaração do presidente FH de que “o Mercosul pode voltar a sonhar com uma moeda única”. Segundo FH, o fim da paridade cambial na Argentina aumentou as chances de sua implantação. “No momento não há clima para isso. O fim da paridade na Argentina favorece, mas devemos cumprir antes uma agenda extensa, ampliando o grau de integração e fortalecendo o mercado comum”, defende Lia.
Já o membro do Conselho Editorial do MM João Paulo de Almeida Magalhães classificou a declaração de FH de “um chute”. Para Magalhães, “moeda única no Mercosul depende de um Banco Central comum e metas relacionadas ao controle das dívidas da inflação etc.”. Ele calcula que esse processo dure aproximadamente dez anos.

Oriente
Empresários dos setores de alimentos, calçados, embalagem, produtos químicos para indústria alimentícia e petróleo da Turquia estarão no próximo dia 20 na Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro. A reunião com a Izmir Chamber of Commerce começará às 15h30.

Marcos de Oliveira
Diretor de Redação do Monitor Mercantil

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