É o despreparo, estúpido

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Está cansativa a “lenga-lenga” repetitiva de que a recessão norte-americana terá sérias implicações no Brasil, afirmativa que, em vez de vir acompanhada de argumentos numéricos, tem por base uma série de “achismos”.
Consideremos o percentual das nossas exportações por régio nesses últimos dois anos:
América Latina – 27%
União Européia – 22%
EUA –   18%
Ásia –   15%
Outros –  18%
A participação das exportações em relação ao PIB é hoje da ordem de 13%.
Supondo uma retração das nossas exportações para os EUA da ordem de 50%, percentual altamente improvável, uma vez que a nossa pauta para aquele país não ser passível de grandes compressões, o impacto sobre o PIB, no limite, seria, por esta vertente, de cerca de (50% x 13% x 18%) 1,2%.
Para as projeções de expressão trata-se de algo insignificante.
Com relação a outros capitais e no campo do lugar-comum dos “achismos”, é preciso lembrar que não há, por parte dos seus detentores, pruridos ideológicos.
Ainda não descobri para onde podem migrar.
Avaliando-se o impacto para outras regiões, sem considerar a ponderável (para nós) reserva com que hoje contamos (da ordem de 180 bilhões de US$), constatamos também que não há tendência, para não usar “a menor possibilidade”, de maiores decréscimos nas perspectivas de nossas exportações.
A pauta para a América Latina pode indicar até o contrário, pois estamos financiando mais de 40 projetos nessa região, investindo bilhões de dólares na América do Sul, a ação de empresas brasileiras no âmbito regional, em particular, nos países do Mercosul, a consideração de que a América Latina é hoje importante supridora de produtos e commodities que só tendem a valorizar, implicam a constatação de que a referida recessão pode até ser bem-vinda para a região. Ninguém poderá permanecer em guerra sem petróleo e sem minério de ferro, por exemplo.
É preciso avaliar até onde a demanda por certos produtos é inelástica.
E agora há no Brasil todas as condições para ampliar o mercado interno, gradualmente, e sem o endividamento análogo ao do consumidor norte-americano.
A União Européia, independentemente do fato de ser a Alemanha a primeira exportadora, com cerca de 9,5% do total mundial, encontra-se pelo menos, no geral, em relativo equilíbrio.
Há que se considerar que 61 das 180 maiores empresas são européias, o PIB dos 27 estados europeus é maior do que o dos EUA, que 14 dos 20 maiores bancos também são europeus e que os EUA, nos últimos anos, cresceram com base num endividamento sem precedentes, com encomendas do complexo industrial-militar.
Rememore-se que parcela significativa da indústria européia, em particular a aeronáutica e a alimentícia, independem de encomendas norte-americanas. Por outro lado, ainda que de forma lenta e gradual, a União Européia se expande e a ampliação da utilização do euro dos atuais 13 países para os 27 membros da Comunidade, terá também delicadas implicações monetárias globais.
É importante lembrar que a balança européia é equilibrada com a Ásia e são eles atualmente, depois dos mercados internos, os segundos compradores daquele continente.
Os europeus, que evidentemente não buscam isto, teriam até espaço para estimular o consumo e “fabricar” déficits crescentes controlados em proporções sucessivas, visando ao seu crescimento, têm agora uma moeda mais forte do que o dólar e cujo numerário em circulação é responsável pelo eventual excesso da liquidez mundial.
Acresça-se que não estamos nem nos referindo à Rússia, que, por força também do gás e do petróleo, detém hoje significativos superávits e reservas.
Em complemento, imaginar que a Ásia, possuidora hoje de 70% das reservas mundiais, com as maiores capacidades agregadas de poupança, com um enorme mercado passível de sístoles e diástoles a critério dos governos, em que cinco países (China, Japão, Taiwan, Coréia do Sul e Cingapura) detêm também superávits com outros países asiáticos, pode sofrer com a recessão norte-americana, no curto prazo, é completamente carente de lógica.
Há muitas reservas para “queimar” e é do interesse do mundo ocidental, principalmente dos EUA, que não haja uma queda brusca, devido às conseqüências, inclusive inflacionárias, de uma “desova” muito rápida. Haveria possibilidade de redução do desenvolvimento asiático no médio prazo, mas as implicações seriam de tal ordem que muitos fatores teriam de se depreciar antes.
Reconhece-se uma enorme interdependência dos países asiáticos e, mais importante, os inúmeros organismos asiáticos de compensação, criados pelos governos nos últimos anos, nos dão conta de que eles não pensam a curto prazo.
Não cabe aqui maior análise sobre o fluxo dos capitais árabes, dos fundos soberanos e suas participações, os ativos que comprarão e da importância de avaliar as crescentes dificuldades políticas que, certas monarquias e/ou regimes não-democráticos, enfrentarão.
A África, com grande crescimento, tem hoje presença marcante de diversos países entre os quais Brasil, China e Índia.

Parece que ainda não captaram e/ou não estão entendendo.

Há sobretudo um fato: os EUA conduziram-se a um enorme endividamento como nação, conviveram e, mais do que isso, estimularam o endividamento individual dos consumidores, fazem uma guerra custosa e outros periféricos persistem com uma máquina bélica caríssima e de manutenção cada vez mais difícil e tudo isso durante anos, pelo petróleo e pelo enriquecimento do seu “desenvolvimento”.
Talvez ainda não caiba o “E agora José?” ou o dançar o “tango argentino”, mas começa a chegar a hora de pagar. Há solução sem botar mais dinheiro no mercado e desvalorizar ainda mais a sua moeda? Você, caro leitor, seria capaz de fazer uma poupança em dólar?
Começaram a aparecer os riscos: de os bancos não receberem os “serviços das dívidas externas”, de surgirem outras moedas como reserva de valor, outras moedas para transações internacionais, velocidade nas trocas de ativos, de detentores destes ativos, a utilização do euro se ampliar mais rapidamente do que o previsto, de cada vez mais não se aceitar uma moeda que se enfraquece em troca de produtos escassos que se valorizam.
É grave a crise… Mas é grave para os EUA. Os demais países que não fizeram nenhuma dessas mazelas não têm nada com isto e têm de estar atentos para não arcar com qualquer parcela dessa nova conta.
Aconteceu ou está em vias de acontecer o que as vozes mais lúcidas anunciam, pelo menos, desde 2003.
No que se relaciona ao Brasil, é preciso que os economistas tupiniquins, “papagaios” de escolas econômicas ocidentais, que só vêem o mundo como colonizados do império, pensem, façam contas e parem de dizer besteiras.
A intensa luta pelos fatores de produção persistirá. A energia, os alimentos, os recursos hídricos permanecerão como os centros dessa contenda, não sendo demais lembrar que o Brasil continua dispondo de terra, de trabalho e começa a ter algum capital e alguma capacidade empresarial.
Aproveitemos agora a diversificação de nossa economia. Escolhamos a nacionalidade daqueles que, estando aqui, querem efetivamente ser sócios, num mercado competitivo.
Aos economistas tupiniquins cabe refletir e responder se há ou não um tigre de papel, naturalmente se lembrando da advertência de Chomsky sobre os usurpadores feridos.
Cabe a eles a tarefa de, pensando, acalmar os mercados, estimular os investimentos, sem sofismas, apenas retratando a realidade. Se eles não o fizerem, não serão as “autoridades” que o farão.
Basta analisar que o ministro da Fazenda, antecipando seu retorno das férias, bronzeado e robusto, fez considerações pífias sobre a economia brasileira e a crise norte-americana, sem citar um só número. A insegurança aliando-se ao despreparo. A incompetência rivalizando em dimensão com a ignorância.
Mas…senhores economistas, por favor, pensem um pouco. Não há lógica nas quedas bursáteis e no terrorismo. Só para os “papagaios” e especuladores. A nação não precisa de vocês como repetidores do “falso óbvio”.
Nunca a crise foi tão fortemente sinônimo de oportunidade.
Osvaldo Nobre

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